Sábado, 07 de Maio de 2011

 

Nota da Autora

 

Allen Jay vivia com a família em Randolph, no Ohio, por volta de 1840. Os Jays pertenciam a um grupo religioso chamado Sociedade dos Amigos ou Quakers. Estas pessoas vestiam-se todas da mesma maneira e acreditavam que todos os homens eram iguais. Usavam roupas simples e tratavam toda a gente por “tu”, fossem estranhos ou amigos.

Infelizmente, a maioria dos afro-americanos que viviam no sul dos Estados Unidos não eram tratados como iguais. Eram escravos. Os escravos trabalhavam todo o dia sem serem pagos. Os patrões tinham direito de propriedade sobre eles, como se fossem animais. Quando os escravos fugiam, eram perseguidos e castigados. Muitas vezes, eram torturados ou mortos. As pessoas que ajudavam os escravos a fugir também eram punidas.

Embora fosse perigoso, os pais de Allen, Isaac e Rhoda Jay, ajudavam os escravos a fugir. Os Jays faziam parte de um grupo secreto chamado “Caminho-de-Ferro Clandestino”. As pessoas que trabalhavam para esta organização escondiam escravos fugidos nos seus celeiros, sótãos e esconderijos secretos. Levavam-nos de um lugar seguro para outro. Os fugitivos viajavam a pé, a cavalo, de carroça e por trilhos secretos até ao Canadá. Aí, todos eram tratados como iguais perante a lei.

Os Jays tinham o cuidado de não dizer a ninguém o que faziam, nem mesmo aos filhos. Allen, de onze anos de idade, sabia que os pais alimentavam e escondiam estranhos de pele escura que iam e vinham misteriosamente. Mas não percebia muito de escravatura. Até ao dia em que se encontrou face a face com um fugitivo…

 

1 de Julho de 1842

 

Allen pendurou a última camisa na corda. A mãe estava demasiado doente para fazer esta tarefa tão pesada, por isso cabia ao filho mais velho fazê-la. Todas as segundas-feiras, Allen lavava, fervia, engomava e estendia a roupa. Depois podia brincar à vontade.

Nessa tarde, Allen dirigiu-se ao celeiro para ir buscar a sua cana de pesca. Enquanto atravessava o pátio, viu um cavalo a dirigir-se para a quinta deles. Era o médico da família, que logo se aproximou.

─ Amigo Jay! Amigo Jay! ─ gritou o médico.

O pai de Allen saiu do celeiro e caminhou rapidamente para o portão. Comentou:

─ O teu cavalo hoje tem asas. Pareces apressado.

O médico inclinou-se para Isaac e disse em voz baixa:

─ Está um escravo fugido escondido no bosque. O dono dele e os seus homens estão no seu encalço e estão armados.

Agarrou o ombro de Isaac e acrescentou:

─ Tem cuidado, Amigo.

O pai de Allen assentiu com a cabeça. O médico virou o cavalo e partiu de novo. Allen aproximou-se do pai e viu a sua cara preocupada. Perguntou-se se o dono do escravo viria matar o pai. Lembrava-se de histórias de outros Amigos que ajudavam fugitivos. Alguns tinham sido espancados. Outros tinham visto as suas casas serem incendiadas. Isaac Jay olhou para o filho.

─ Allen, pode ser que em breve vejas um homem de pele escura. Leva-o para o campo de milho, para trás da nogueira grande. O milho aí é suficientemente alto para o esconder. Mas, se o esconderes, não me digas a mim nem a ninguém que o fizeste.



publicado por hpt às 06:40
Quinta-feira, 05 de Maio de 2011

Era uma vez uma menina que tinha cinco tranças lindas e se chamava Ynari. Ela gostava muito de passear perto da sua aldeia, ver o campo, ouvir os passarinhos, e sentar-se junto à margem do rio.

Certa tarde, já o Sol se punha, Ynari ouviu um barulho. Não eram os peixes a saltar na água, não era o cágado que às vezes lhe fazia companhia, nem era um passarinho verde. Do capim alto saiu um homem muito pequenino com um sorriso muito grande. E embora ele não fosse do tamanho dos homens da aldeia de Ynari, ela não se assustou.

O homem muito pequenino andava devagarinho e devagarinho se aproximou.

– Olá! – cumprimentou.

– Olá – respondeu Ynari, receando que estivesse a falar alto demais para o tamanho do ouvido do homem muito pequenino.

– Desculpa, mas não sei o teu nome...

– Eu também não sei o meu nome... – desculpou-se o homem muito pequenino. – Mas chamam-me homem pequenino.

– Ah, está bem... – sorriu Ynari, enquanto se deitava na relva para ficar mais perto dele. – Eu tenho um nome só, quer dizer, uma só palavra: chamo-me Ynari.

– Ynari é um nome muito bonito – o homem sentou-se, ficando, assim, ainda mais pequeno.

– Posso fazer uma pergunta, homem muito pequenino?

– Podes fazer muitas perguntas.

– De onde vens?

– Venho da minha aldeia, que fica mais para cima, junto à nascente do rio.

– E lá, na tua aldeia, são todos pequeninos?

– Sim, somos todos mais pequenos que vocês, quer dizer, depende daquilo que entendemos por «pequeno». Não achas?

– Nunca tinha pensado nisso. Sempre pensei que uma coisa menor fosse uma coisa pequena...

– Pode não ser assim... Conheces a palavra «coração»?

– Conheço! – sorriu Ynari. – E não é só uma palavra, é isto que bate dentro de nós – e mostrou no seu peito onde o coração batia.

– Claro, e... O coração é pequeno para ti?



publicado por hpt às 08:33
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