Quarta-feira, 17 de Agosto de 2011

A propósito do Dia Internacional da Recordação do Tráfico de Escravos e da sua Abolição, dia 23 de Agosto, enviamos a seguinte história:

 

 

Tem dez anos, é negra, e há muito que deixou de ter nome.

Capturada em África e embarcada com destino à América,

é vendida num mercado da Venezuela.

Baptizada Ana, trabalha duramente e vai-se adaptando à sua nova vida,

na qual aprende depressa, demasiado depressa…

Muitos têm ciúmes dela e, um dia, acusam-na de algo que não fez.

Chicoteada e humilhada, Ana decide fugir.

Mas reencontrar a liberdade vai revelar-se uma luta bem difícil…

 

 


 

Nos finais do século XVIII, a Venezuela, então uma colónia de Espanha, contava com cerca de 60.000 escravos, trazidos de África em navios espanhóis, portugueses, ingleses e franceses.

Todos os anos, mais de mil Africanos desembarcavam em La Guaira, o principal porto do país, para aí serem vendidos. Os colonos venezuelanos usavam-nos para pescar pérolas no fundo do oceano, extrair minérios da terra, desbravar selva, plantar café e cacau, e assegurar todas as tarefas domésticas.

Tal como acontecia no resto da América, os escravos venezuelanos eram tratados com crueldade. Para escaparem à sua triste condição, alguns não hesitavam em revoltar-se e fugir, instalando-se em regiões afastadas do país, ainda muito despovoado.

 

 

Sobre o cais alinhavam-se filas de Africanos, seminus. Todos piscavam os olhos, aturdidos que se sentiam por verem luz após semanas de obscuridade num porão de navio. Para que tivessem um ar mais atraente como mercadoria, tinham sido lavados e oleados, e as suas feridas curadas à pressa. Apesar disso, os boçais[1], como eram denominados os escravos acabados de desembarcar dos navios negreiros, tinham um ar bastante miserável.

A travessia horrível, no decurso da qual muitos haviam morrido, tinha-os tornado mais fracos, doentes e desesperados. Alguns eram amparados pelos companheiros, e uma jovem grávida estava estendida no pavimento, completamente esgotada. Meia dúzia de crianças, um pouco afastadas, observavam, com olhos assustados e admirados, este Novo Mundo.

No seio do grupo apavorado, estava uma menina de cerca de dez anos,



publicado por hpt às 08:06
Sábado, 07 de Maio de 2011

 

Nota da Autora

 

Allen Jay vivia com a família em Randolph, no Ohio, por volta de 1840. Os Jays pertenciam a um grupo religioso chamado Sociedade dos Amigos ou Quakers. Estas pessoas vestiam-se todas da mesma maneira e acreditavam que todos os homens eram iguais. Usavam roupas simples e tratavam toda a gente por “tu”, fossem estranhos ou amigos.

Infelizmente, a maioria dos afro-americanos que viviam no sul dos Estados Unidos não eram tratados como iguais. Eram escravos. Os escravos trabalhavam todo o dia sem serem pagos. Os patrões tinham direito de propriedade sobre eles, como se fossem animais. Quando os escravos fugiam, eram perseguidos e castigados. Muitas vezes, eram torturados ou mortos. As pessoas que ajudavam os escravos a fugir também eram punidas.

Embora fosse perigoso, os pais de Allen, Isaac e Rhoda Jay, ajudavam os escravos a fugir. Os Jays faziam parte de um grupo secreto chamado “Caminho-de-Ferro Clandestino”. As pessoas que trabalhavam para esta organização escondiam escravos fugidos nos seus celeiros, sótãos e esconderijos secretos. Levavam-nos de um lugar seguro para outro. Os fugitivos viajavam a pé, a cavalo, de carroça e por trilhos secretos até ao Canadá. Aí, todos eram tratados como iguais perante a lei.

Os Jays tinham o cuidado de não dizer a ninguém o que faziam, nem mesmo aos filhos. Allen, de onze anos de idade, sabia que os pais alimentavam e escondiam estranhos de pele escura que iam e vinham misteriosamente. Mas não percebia muito de escravatura. Até ao dia em que se encontrou face a face com um fugitivo…

 

1 de Julho de 1842

 

Allen pendurou a última camisa na corda. A mãe estava demasiado doente para fazer esta tarefa tão pesada, por isso cabia ao filho mais velho fazê-la. Todas as segundas-feiras, Allen lavava, fervia, engomava e estendia a roupa. Depois podia brincar à vontade.

Nessa tarde, Allen dirigiu-se ao celeiro para ir buscar a sua cana de pesca. Enquanto atravessava o pátio, viu um cavalo a dirigir-se para a quinta deles. Era o médico da família, que logo se aproximou.

─ Amigo Jay! Amigo Jay! ─ gritou o médico.

O pai de Allen saiu do celeiro e caminhou rapidamente para o portão. Comentou:

─ O teu cavalo hoje tem asas. Pareces apressado.

O médico inclinou-se para Isaac e disse em voz baixa:

─ Está um escravo fugido escondido no bosque. O dono dele e os seus homens estão no seu encalço e estão armados.

Agarrou o ombro de Isaac e acrescentou:

─ Tem cuidado, Amigo.

O pai de Allen assentiu com a cabeça. O médico virou o cavalo e partiu de novo. Allen aproximou-se do pai e viu a sua cara preocupada. Perguntou-se se o dono do escravo viria matar o pai. Lembrava-se de histórias de outros Amigos que ajudavam fugitivos. Alguns tinham sido espancados. Outros tinham visto as suas casas serem incendiadas. Isaac Jay olhou para o filho.

─ Allen, pode ser que em breve vejas um homem de pele escura. Leva-o para o campo de milho, para trás da nogueira grande. O milho aí é suficientemente alto para o esconder. Mas, se o esconderes, não me digas a mim nem a ninguém que o fizeste.



publicado por hpt às 06:40
Quarta-feira, 04 de Maio de 2011

Nos anos que antecederam a libertação dos escravos nos Estados Unidos da América, existiam várias rotas de fuga para os escravos que tentavam chegar ao Canadá, onde estariam a salvo. Muitas famílias, ao longo dessas rotas, ajudavam os escravos a esconder-se, alimentando-os e enviando-os para a próxima família da cadeia de solidariedade. Uma lei proibia a ajuda aos escravos e as famílias que o fizessem arriscavam-se a ser presas e obrigadas a pagar multas avultadas caso fossem descobertas. Mesmo assim, muitas famílias continuavam a ajudar, e muitos milhares de pessoas conseguiram, desta forma, alcançar a liberdade. Esta é uma de muitas histórias sobre o Underground Railroad (o Caminho de Ferro Clandestino) que consistia num grupo de pessoas que, de forma ilegal, ajudava os escravos a conseguir a liberdade antes da Guerra Civil Americana. Desta organização faziam parte os quakers, um grupo religioso originário do cristianismo, com uma forte implantação nos Estados Unidos da América.

 

♦  ♦  ♦

 

Por volta das cinco e meia de uma manhã de Verão no sul do Ohio, a luz já forte do sol acordara Lucinda Wilson, uma rapariga de treze anos. Sentou-se imediatamente e, de seguida, ao sair da cama, lembrou-se: “Os morangos na colina já devem estar prontos para serem colhidos”. Lucinda tinha vindo a observar com ansiedade a colina coberta de morangos silvestres. Era com grande alegria que planeava agora surpreender a família com um cesto cheio de morangos maduros e deliciosos para comerem ao pequeno-almoço.

Vestiu-se rápida mas silenciosamente para não acordar a irmã. Lucinda tinha dormido nessa noite na cama grande, uma vez que a sua irmã Mary, de dezassete anos, estava a passar alguns dias com uma amiga numa quinta vizinha, e Ruth, de quinze anos, dormia numa pequena alcova no enorme quarto do andar de cima.

A casa da família Wilson ficava a alguma distância da estrada principal, e havia um caminho longo e estreito desde o portão até à porta de entrada da casa. Como este caminho parecia demasiado longo, Lucinda decidiu seguir por um atalho em direcção à colina dos morangos, que se estendia ao longo da estrada principal. Este atalho, que começava junto à capoeira, era praticamente invisível devido ao crescimento emaranhado dos arbustos. Lucinda correu até à rua e começou a subir a colina. Ali estavam os morangos, vermelhos e deliciosos. Começou a colhê-los rapidamente, mas o fundo do cesto não estava ainda coberto quando ouviu uma voz a chamá-la da estrada principal.

Sobressaltada, olhou para baixo e viu dois homens a cavalo. 

 

 



publicado por hpt às 16:42
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