Segunda-feira, 29 de Agosto de 2011

Agora que todos têm um míssil balístico pessoal de longo alcance em casa, é engraçado ver como já ninguém lhes dá importância.

No início distribuíram-nos à sorte. Nessa altura, foi muito excitante: uma pessoa, nossa conhecida, recebe uma carta do governo e, ao fim de uma semana de espera, um camião vinha entregar-lhe o míssil. Depois, nas casas de cada esquina era preciso que houvesse um. A seguir, nas casas do lado. Até que se chegou ao ponto de, hoje em dia, parecer raro que alguém não tenha um míssil no telheiro do jardim ou no estendal da roupa.

Sabe-se por que é que lá estão… Mas temos uma ideia aproximada… É que devemos proteger a nossa forma de vida num mundo cada vez mais hostil. Todos devem participar na segurança nacional (aliviando assim a pressão em que se acham os armazéns de material de guerra) e, acima de tudo, todos têm direito a sentir que estão a contribuir com o seu diminuto grão de areia. É uma pequena ajuda.

Basta apenas limpar e encerar o míssil no primeiro domingo de cada mês e, de vez em quando, deitar uma olhadela ao indicador do nível do óleo. E, uma vez num intervalo de vários anos, recebe-se uma encomenda com um kit completo de pintura, sinal evidente de que chegou a altura de eliminar qualquer ponto de oxidação e de lhe dar uma mão de pintura cor de chumbo.

Não obstante, muitas pessoas começaram a pintar os mísseis com outras cores e até há quem se tenha atrevido a pintá-los com desenhos de borboletas e flores.



publicado por hpt às 08:46
Quarta-feira, 17 de Agosto de 2011

A propósito do Dia Internacional da Recordação do Tráfico de Escravos e da sua Abolição, dia 23 de Agosto, enviamos a seguinte história:

 

 

Tem dez anos, é negra, e há muito que deixou de ter nome.

Capturada em África e embarcada com destino à América,

é vendida num mercado da Venezuela.

Baptizada Ana, trabalha duramente e vai-se adaptando à sua nova vida,

na qual aprende depressa, demasiado depressa…

Muitos têm ciúmes dela e, um dia, acusam-na de algo que não fez.

Chicoteada e humilhada, Ana decide fugir.

Mas reencontrar a liberdade vai revelar-se uma luta bem difícil…

 

 


 

Nos finais do século XVIII, a Venezuela, então uma colónia de Espanha, contava com cerca de 60.000 escravos, trazidos de África em navios espanhóis, portugueses, ingleses e franceses.

Todos os anos, mais de mil Africanos desembarcavam em La Guaira, o principal porto do país, para aí serem vendidos. Os colonos venezuelanos usavam-nos para pescar pérolas no fundo do oceano, extrair minérios da terra, desbravar selva, plantar café e cacau, e assegurar todas as tarefas domésticas.

Tal como acontecia no resto da América, os escravos venezuelanos eram tratados com crueldade. Para escaparem à sua triste condição, alguns não hesitavam em revoltar-se e fugir, instalando-se em regiões afastadas do país, ainda muito despovoado.

 

 

Sobre o cais alinhavam-se filas de Africanos, seminus. Todos piscavam os olhos, aturdidos que se sentiam por verem luz após semanas de obscuridade num porão de navio. Para que tivessem um ar mais atraente como mercadoria, tinham sido lavados e oleados, e as suas feridas curadas à pressa. Apesar disso, os boçais[1], como eram denominados os escravos acabados de desembarcar dos navios negreiros, tinham um ar bastante miserável.

A travessia horrível, no decurso da qual muitos haviam morrido, tinha-os tornado mais fracos, doentes e desesperados. Alguns eram amparados pelos companheiros, e uma jovem grávida estava estendida no pavimento, completamente esgotada. Meia dúzia de crianças, um pouco afastadas, observavam, com olhos assustados e admirados, este Novo Mundo.

No seio do grupo apavorado, estava uma menina de cerca de dez anos,



publicado por hpt às 08:06
Terça-feira, 09 de Agosto de 2011

Um nobre dinamarquês levou muito tempo a regressar ao seu país, depois de uma peregrinação à Terra Santa. Na viagem soube de muitas histórias, entre as quais a da morte, na costa africana, de um nativo e de um marinheiro português. Aconteceu que, no contacto entre eles, as palavras lhes faltaram, e não entenderam os gestos um do outro. Então, em movimentos defensivos, mataram-se com as próprias armas.

 

  

Um dia, o cavaleiro teve desejo de ir mais longe, de ir até às terras desconhecidas que surgiam do mar. Então resolveu alistar-se nas expedições portuguesas que navegavam para o sul à procura de novos países. Veio a Lisboa e aí embarcou numa caravela que partia a reconhecer e a explorar as costas de África. Seguiram das margens do Tejo para as Canárias, onde pararam alguns dias. Depois continuaram viagem, aproximaram-se da terra africana, dobraram o cabo Bojador e seguiram, à vista das costas desertas, queimadas pelo sol, sem árvores, e sem homens. Junto ao cabo Branco ancoraram o navio num abrigo formado por altos penedos.

Então, homens de pele sombria, envolvidos em mantos flutuantes e montados em camelos, vieram à orla da praia negociar com os portugueses.



publicado por hpt às 06:34
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