Segunda-feira, 27 de Junho de 2011

Uma mulher de língua afiada foi acusada de espalhar um boato. Quando a levaram perante o rabi da aldeia, desculpou-se:

 — Não passou tudo de uma brincadeira e não tenho culpa de que as minhas palavras tenham sido espalhadas por outros.

 Contudo, a vítima exigia que fosse feita justiça, dizendo:

— As tuas palavras destruíram o meu bom nome!

A mulher retorquiu:

— Retiro o que disse e, assim, anulo a minha culpa.

Quando o rabi ouviu estas palavras, percebeu que a mulher não compreendia o alcance do crime que cometera. Disse-lhe então:

— As tuas palavras só serão desculpadas depois de fazeres o seguinte:



publicado por hpt às 09:55
Segunda-feira, 13 de Junho de 2011

 

Crianças de lado nenhum

 

Era uma vez um menino como tu, da tua idade, que vivia com a família. Tinha amigos, ia à escola, fazia desporto e frequentava aulas de música. Tal como tu, queria saber tudo e devorava livros para poder conhecer o mundo. Mas isso não lhe bastava.

Um dia foi passear pelo campo e sentou-se junto de uma árvore. Era um carvalho robusto, centenário, com ramos tão acolhedores que lembravam braços abertos. O menino sentia-se bem e começou a falar:

— Se o nosso planeta fosse tão pequeno como uma aldeia, seria fácil percorrer todos os continentes; com poucos passos, eu podia encontrar todos os meninos da Terra!

Naquele instante, os ramos do velho carvalho baixaram-se, levantaram o menino e levaram-no num turbilhão ensurdecedor. Quando voltou a abrir os olhos, seguia por um caminho de pedras. À sua frente avançava um grupo de crianças descalças, sujas, embrulhadasem cobertores. Asmais velhas levavam ao colo as mais pequenas.

— Olá! — diz o menino. — Para onde vão?

— Não sabemos. Há meses e semanas que caminhamos, que fugimos de casa por causa da guerra.

— E a vossa família? E a vossa aldeia, o vosso país? — perguntou o menino.

— Já não temos nada. Temos apenas medo no peito. Alguns de nós fugiram num barco de tábuas velhas e esburacadas. Outros, atravessaram o deserto sem comer nem beber e outros ainda esconderam-se na floresta, alimentando-se de raízes e dormindo ao relento!

O menino sentiu o medo apoderar-se dele. Um medo terrível que até então desconhecera. Não era um medo pequeno como o medo do escuro ou da trovoada, mas o de um pesadelo, de onde se quer sair o mais depressa possível. Queria voltar a encontrar o velho carvalho, queria regressar a casa. Dentro do bolso, sentiu uma folha mexer-se entre os dedos. Apertou-a… e, de repente, encontrou-se junto da velha árvore:

— É horrível! Vi meninos retirados ao pai, à mãe, à sua terra, aos seus sonhos. É preciso ajudá-los; têm o direito de viver em paz a sua vida de criança!

O menino ia levantar-se para ir embora, quando um ramo pegou nele e o fez sobrevoar o caminho de pedras, onde em grandes camas de rede, as crianças de lado nenhum descansavam em paz, debaixo de dois grandes carvalhos que, de repente, ali tinham aparecido. O menino ficou mais tranquilo. Fechou os olhos e deixou-se também embalar pelos ramos. Um calor suave acariciava-lhe o rosto.

 

*

 

Crianças do Haiti

 



publicado por hpt às 08:14
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