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  <title>Histórias para todos</title>
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  <description>Histórias para todos - SAPO Blogs</description>
  <lastBuildDate>Sun, 18 Sep 2011 14:18:30 GMT</lastBuildDate>
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  <pubDate>Sun, 18 Sep 2011 14:09:44 GMT</pubDate>
  <title>Ali e a máquina fotográfica</title>
  <author>hpt</author>
  <link>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/6147.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Ali vive em Istambul, uma grande cidade da Turquia. A sua casa fica num prédio antigo, perto da famosa Mesquita Azul. Depois das aulas, Ali vai para casa e senta-se à janela a contemplar os barcos que se fazem ao mar.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— O que estás a fazer? — pergunta-lhe a mãe.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Estou a fotografar estes barcos — responde Ali.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A mãe olha para o filho e ri.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— A fotografar? Mas como podes tu fotografar, se nem sequer tens máquina?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Isso sei eu, mãe! Por isso estou a tirar fotografias com a minha cabeça, que é onde as posso ver.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ali aponta um sítio junto dos olhos e a mãe ri de novo.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Deixa-te de brincadeiras e vai para a loja do teu pai! — diz ao filho.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O pai de Ali vende legumes e frutas e o rapaz trabalha na loja depois da escola.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Não te mexas! Fica junto da porta — diz Ali, de repente, quando chega junto do pai.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Porquê? — pergunta este.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Quero tirar-te uma fotografia!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O pai sorri.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Uma fotografia? Primeiro, tens de arranjar uma máquina. Depois, podes tirar-me uma fotografia.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Compra-me uma máquina, pai! — pede Ali.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O sorriso do pai desvanece-se.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Não tenho dinheiro para máquinas… — diz, devagar.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Todas as tardes, Ali vai passear na parte velha de Istambul, e observa as casas construídas junto da água. Algumas são muito velhas. Depois, olha para os homens que estão na ponte a pescar. Por fim, dirige o olhar para os barcos. E fotografa tudo com a mente. “Como hei-de arranjar uma máquina?”, pensa. De repente, a resposta surge-lhe. “Já sei, vou trabalhar no mercado!”&lt;/p&gt;
&lt;a name=&quot;cutid1&quot;&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class=&quot;ljcut&quot; text=&quot;continuação&quot;&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Perto da escola de Ali existe um mercado velho, com pequenas lojas onde se compra e vende comida. Todas as tardes, depois da escola, o rapaz dirige-se para lá. Trabalha sempre com um sorriso, carregando os sacos dos clientes. As pessoas gostam dele e dão-lhe algum dinheiro, que Ali logo mete no bolso.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Um dia vou ter muito dinheiro — diz à mãe. — Depois, compro uma máquina e tiro-te uma fotografia na cozinha.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Na cozinha não! — diz a mãe. — Tiras-me uma na varanda, com o teu pai.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Na varanda não! — diz o pai. — Na minha loja.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Uma tarde, Ali carrega um saco pesado para um cliente idoso.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Está um homem a seguir-nos — diz o velhote. — Conhece-lo?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ali olha para o homem alto e forte atrás deles e responde:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Não, não conheço. Não trabalha no mercado.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Toma bem conta do meu saco. Talvez seja um ladrão! — diz o cliente.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ali pensa no dinheiro que tem no bolso e sugere:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Vamos caminhar mais depressa.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Eu não posso andar mais depressa. Tu sim, que és novo! — queixa-se o velho.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;De repente, o homem alto e forte agarra no saco que Ali transporta e desata a fugir. O rapaz vai atrás dele, mas o ladrão agride-o. Ali cai e o dinheiro sai-lhe do bolso. O homem pousa o saco, pega no dinheiro e foge. Ali devolve o saco ao velhote.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Muito obrigado. És um rapaz muito bondoso — agradece o cliente.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ali fica triste, mas não fala do dinheiro que perdeu. Nessa noite, nem sequer conta o sucedido aos pais. “Posso sempre recomeçar”, pensa.No dia seguinte, está de novo no mercado, à espera de trabalho, no meio da algazarra. De repente, uma senhora de idade vem ter com ele e pede:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Podes carregar estes dois sacos para mim? Vivo junto da estátua de Ataturk.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Enquanto Ali transporta os sacos, a senhora pergunta:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— São muito pesados?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Não para mim, que sou forte! — responde Ali.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Chegam, por fim, junto da estátua de Ataturk. A senhora comenta:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Lembro-me de Ataturk, porque foi um homem muito importante para a Turquia.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Posso tirar-lhe uma fotografia junto da estátua — oferece-se Ali.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— E onde está a tua máquina fotográfica? — admira-se ela.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Não tenho — diz Ali.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A senhora olha para ele e sorri.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Tira lá a minha fotografia sem máquina. Mas primeiro, deixa-me arranjar o cabelo.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Chegam à rua onde a cliente vive e o rapaz carrega os sacos até ao andar dela. É um andar espaçoso, cheio de fotografias.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Quanto dinheiro queres? — pergunta a senhora.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Quanto dinheiro me quer dar? — returque ele.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Senta-te e espera — pede a cliente.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Dirige-se a um pequeno quarto e volta com uma máquina fotográfica nas mãos.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Esta foi a primeira máquina do meu filho. Fica com ela — oferece.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ali fixa a máquina durante um bom bocado. Por fim, pega nela, mas logo a devolve.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— É uma máquina muito bonita, mas não posso ficar com ela.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A senhora pega na mão do rapaz e coloca a máquina nela.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— O meu filho já não a quer, porque agora tem uma nova.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Como posso agradecer-lhe? — pergunta Ali.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Volta cá um dia e tira-me uma fotografia. Uma fotografia a sério. E, agora, aqui tens o dinheiro de hoje.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Não posso aceitar dinheiro algum! Mas posso transportar os seus sacos outra vez — diz Ali.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— És um bom rapaz. Lembra-te do meu nome: Sra. Yildiz.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Não me esquecerei, Sra. Yildiz.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Adeus, Ali. Tira boas fotografias com a máquina do meu filho.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ali corre para casa e conta à mãe o que aconteceu.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— A máquina funciona? — quer saber a mãe.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Claro que funciona. Vou agora mesmo tirar-te uma fotografia.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Mas nem tem rolo, filho.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A mãe dá-lhe algum dinheiro e diz:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Vai comprar um rolo que eu vou comprar um vestido novo. Depois, tiras-me uma fotografia.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Obrigado, mãe! Mas eu quero comprar rolos com o meu dinheiro e não com o teu.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;♦♦♦♦&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;E Ali continua a trabalhar todos os dias no mercado, depois das aulas, e chega tarde a casa. “Esta vida é bem difícil”, pensa. “As pessoas trabalham muito e recebem pouco.” Mas chega o dia em que já tem dinheiro suficiente para comprar um rolo. “Agora já posso tirar fotografias a sério”, diz para consigo. Lembra-se da Sra. Yildiz e vai até casa dela. Quando ela abre a porta e o vê, fica muito contente. Ali diz:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Quero tirar-lhe uma fotografia.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Vão até à cozinha, onde um homem alto bebe café.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Este é o meu filho Yusuf. Tira-nos uma fotografia aos dois. Senta-te junto de mim, Yusuf.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Sorriam, por favor — pede Ali.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— O Yusuf trabalha num jornal e pode ensinar-te a tirar fotografias — diz a Sra. Yildiz.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ali fita Yusuf e pergunta:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Pode? É que eu quero aprender a tirar boas fotografias.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Yusuf sorri.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Tira algumas fotografias por aí e depois aparece no jornal a mostrar-mas.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Vou tirar o máximo que puder. Tenho-as todas na minha cabeça — diz o rapaz.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ali passeia pelas ruas de Istambul que, de repente, lhe parece uma cidade muito bonita. Tira fotografias de pontes, de barcos e de mesquitas antigas. Também tira fotografias de pessoas nas ruas e nas lojas. Um dia, decide ir até ao jornal falar com Yusuf. Yusuf contempla as fotografias e diz:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Bem, não estão mal...&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Não estão mal? — admira-se Ali.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Não, as tuas fotografias não estão mal.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Não estão boas? — insiste o rapaz.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Algumas estão, mas outras não — diz, sincero, Yusuf.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ali fica aborrecido e pede as fotografias de volta. Yusuf não percebe a atitude do rapaz. Este regressa a casa e conta à mãe o que aconteceu.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Não foste muito inteligente, filho. Não és propriamente um fotógrafo famoso...&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ali sente-se triste consigo mesmo.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Às vezes, abro a boca e falo sem pensar.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Vai ter com Yusuf e pede-lhe desculpa.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Agora não me sinto capaz. Estou zangado.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ali deambula pelas ruas e vai-se perguntando: “Porque me afastei de Yusuf? Não foi uma atitude correcta. Porque não pensei primeiro? Porque...?”&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;De repente, repara numa pequena loja de fotografia. Entra e vê um idoso sentado a uma mesa. O nome dele é Selim e tem uma cara prazenteira.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Gosto muito da sua loja. Tem máquinas bonitas. Queria trabalhar consigo — diz Ali.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Mas eu não posso pagar-te — explica o velho.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Não quero dinheiro. Quero aprender a tirar fotografias. Por favor, veja as minhas — pede o rapaz.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Selim observa-as e comenta:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Cada um de nós vê através dos seus olhos. Mas os bons fotógrafos vêem as coisas através da lente da máquina.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;E Ali começa a sua aprendizagem. Primeiro tira fotografias de pessoas. Depois fotografa portas e janelas.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— As portas e as janelas também têm vida — explica Selim.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Na cidade, há sempre muitas crianças a trabalhar nas lojas, ou a vender fruta, bebidas frescas e jornais nas ruas. Essas crianças sorriem com a cara mas não com os olhos. Ali mostra as fotografias a Selim.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Gosta delas? — pergunta.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Gosto. Estás a aprender. Estás a aprender a fazer fotografias.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Quando poderei vendê-las a um jornal? — quer saber o rapaz.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Espera... — aconselha Selim.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ali continua a trabalhar no mercado depois das aulas, porque precisa de rolos para a máquina. E também aproveita para tirar fotografias das pessoas que frequentam o mercado. Numa manhã de sábado, bem cedo, vê algumas crianças em cima duma ponte. Têm olhos grandes e tristes e estão a pescar. Ali fotografa-as. Depois, vai até ao andar de Selim, na parte velha da cidade, e mostra-lhe a fotografia das crianças na ponte. Selim contempla-a durante muito tempo.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Isto sim! Estás a aprender depressa.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— O senhor é muito meu amigo. É um autêntico professor!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Gosto de te ensinar. És como um filho para mim — diz o idoso.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;♦♦♦♦&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Certo dia, Ali vê a Sra. Yildiz, mas afasta-se rapidamente.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Ali, Ali, porque foges? — pergunta ela.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ali detém-se.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Eu sou muito orgulhoso… O Yusuf contou-lhe o que aconteceu?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;E Ali relata o sucedido no jornal...&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Estou muito arrependido!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Não sei do que estás a falar. Só sei que uma das tuas fotografias vem hoje no jornal.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Uma fotografia minha no jornal? Qual delas?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Uma com duas crianças numa ponte a pescar um grande peixe.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Estou tão contente, Sra. Yildiz! — diz Ali, e ri, satisfeito. — Posso levar os seus sacos?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Não, obrigada. Vai para casa.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O rapaz corre para a loja de Selim.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— A minha fotografia saiu no jornal!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Saiu, pois. Ora vê só — diz Selim, mostrando-lhe o jornal.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Mas... não percebo. Como foi ela aí parar? Foi o senhor que a mostrou ao Yusuf!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Selim sorri e diz:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Mas olha que não podes parar de aprender!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Tem toda a razão! — concorda Ali.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Amanhã é um dia muito importante para ti — continua Selim.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Não percebo — diz Ali.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— O jornal tem uma vaga para um estágio de fotografia. E o estagiário és tu. Amanhã começas um novo trabalho!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;E desatam os dois a rir.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;Raymond Pizante&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;em&gt;Ali and his camera&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;Essex, Penguin Books, 2000&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;(Tradução e adaptação)&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;</description>
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  <pubDate>Mon, 12 Sep 2011 09:27:24 GMT</pubDate>
  <title>Manuel e os pássaros - Ant. Torrado</title>
  <author>hpt</author>
  <link>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/6049.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;No tempo em que os meninos trabalhavam de criados, havia uma patroa muito má que tomara a seu serviço um rapazinho, o Manuel, a quem dava ordens por tudo e por nada, qual delas a mais disparatada.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;No quintal, a senhora dona tinha uma figueira que, nesse ano, dera um único figo. Pois não é que a maluca da mulher exigiu ao Manuel que estivesse todo o tempo de atalaia, não se desse o caso de os pássaros cobiçarem o figuinho?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;– Quero comê-lo quando estiver maduro. Ai de ti, se deixares os melros roubarem-no.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Bem os afugentava o garoto, mas os passarocos de bico cor de laranja são teimosos. E gulosos... Às duas por três, adeus figuinho.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;– Maldito miúdo. Vais pagar-mas – gritou a megera.&lt;/p&gt;
&lt;a name=&quot;cutid1&quot;&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class=&quot;ljcut&quot; text=&quot;Continuação&quot;&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;E meteu-o de castigo numa pipa vazia, às escuras. Sorte para o Manuel que os melros tivessem sabido. Logo convocaram os pica-paus e outros passarinhos de bico duro. Todos juntos, toc toc toc, libertaram o Manelinho. Depois, uma águia, que também tinha sido chamada para ajudar, levantou o rapazinho nos ares.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A patroa viu-os e foi buscar uma caçadeira, mas já não chegou a tempo. Era mesmo má a criatura. A águia sobrevoou montes, campos, pinhais, aldeias, como se andasse à procura não se sabe de quê, até que poisou o Manuel num quintal, onde havia uma figueira. Depois, bateu as asas e desapareceu.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O rapaz, ainda meio tonto, viu a figueira e nela um único figo lampo. “Que desgraça a minha. Vai voltar tudo ao princípio”, pensou o Manuel. De dentro da casa, donde era o quintal, apareceu uma velhota. O miúdo encolheu-se e pensou: “Estou mesmo com azar. Esta há-de ser ainda mais torta do que a outra”.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;– Como te chamas? – perguntou a velha.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;– Manuel, para a servir.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;– Para me servires? – riu-se a velha, num riso desdentado. – Eu nunca tive criados, mas querendo, podes ficar a cuidar-me da horta. Queres?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;– Sim, minha senhora.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;– Estamos acertados. E, olha, enquanto te preparo umas sopas, lambe-te com aquele figuinho único que a figueira me deu.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;– A senhora não o quer para si?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A velhota fez uma careta.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;– Não me dou bem com figos e tu puseste-te a olhar para ele como nunca vi ninguém olhar para um figo. Deve ser da fome que trazes.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O Manuel chamou a si o figo e pronto. Enquanto saboreava o figo e a velhinha, enternecida, sorria para ele, o Manuel pensou: “Valeu a pena conhecer as alturas, porque a águia sabia onde me deixava.”&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Também estamos em crer que sim. As águias, lá de cima, vêem muito, olá se vêem.&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;António Torrado&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;www.historiadodia.pt&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Mon, 29 Aug 2011 07:46:21 GMT</pubDate>
  <title>Alerta, mas sem alarmismo - Shaun Tan</title>
  <author>hpt</author>
  <link>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/5815.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Agora que todos têm um míssil balístico pessoal de longo alcance em casa, é engraçado ver como já ninguém lhes dá importância.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;No início distribuíram-nos à sorte. Nessa altura, foi muito excitante: uma pessoa, nossa conhecida, recebe uma carta do governo e, ao fim de uma semana de espera, um camião vinha entregar-lhe o míssil. Depois, nas casas de cada esquina era preciso que houvesse um. A seguir, nas casas do lado. Até que se chegou ao ponto de, hoje em dia, parecer raro que alguém não tenha um míssil no telheiro do jardim ou no estendal da roupa.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Sabe-se por que é que lá estão… Mas temos uma ideia aproximada… É que devemos proteger a nossa forma de vida num mundo cada vez mais hostil. Todos devem participar na segurança nacional (aliviando assim a pressão em que se acham os armazéns de material de guerra) e, acima de tudo, todos têm direito a sentir que estão a contribuir com o seu diminuto grão de areia. É uma pequena ajuda.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Basta apenas limpar e encerar o míssil no primeiro domingo de cada mês e, de vez em quando, deitar uma olhadela ao indicador do nível do óleo. E, uma vez num intervalo de vários anos, recebe-se uma encomenda com um kit completo de pintura, sinal evidente de que chegou a altura de eliminar qualquer ponto de oxidação e de lhe dar uma mão de pintura cor de chumbo.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Não obstante, muitas pessoas começaram a pintar os mísseis com outras cores e até há quem se tenha atrevido a pintá-los com desenhos de borboletas e flores.&lt;/p&gt;
&lt;a name=&quot;cutid1&quot;&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class=&quot;ljcut&quot; text=&quot;continuação&quot;&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;É que ocupam tanto espaço no jardim que o mínimo que se pode fazer é pô-los bonitos. Além de que os panfletos governamentais não proíbem a utilização doutros tipos de pintura diferentes dos enviados.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ultimamente, é costume cobri-los de luzes pelo Natal. Seria bom subir de noite a uma montanha e ver as centenas de pontinhos acesos a brilhar e a pestanejar na escuridão.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Além disso, o míssil do jardim pode ter uma enorme quantidade de usos práticos. Quem desapertar a tampa inferior e retirar os fios e o resto, pode utilizar o espaço para guardar sementes, ferramentas, molas de roupa ou lenha. Se for alterado um pouco mais, pode-se facilmente fazer dele uma fantástica cabana-foguetão espacial e, quem tiver cão, arranja assim uma casota de graça. Numa casa, até houve quem lhe pusesse uma chaminé na parte de cima e usasse o míssil como forno de fazer pizas.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Sim, todos sabemos que, no dia em que o governo decidir usá-los, os mísseis já não irão funcionar, mas com o passar do tempo já não nos preocupamos com isso. Afinal, a maioria das pessoas tem a sensação de que assim é melhor. Sobretudo, esperamos que, no outro lado do mundo onde as famílias têm mísseis no jardim de casa, armados e apontados para nós, também elas tenham encontrado para eles aplicações muito melhores.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;Shaun Tan&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;em&gt;Cuentos de la periferia&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;Arcos de la Frontera, Barbara Fiore Editora, 2008&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;(Tradução e adaptação)&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;</description>
  <comments>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/5815.html</comments>
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</item>
<item>
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  <pubDate>Wed, 17 Aug 2011 07:06:36 GMT</pubDate>
  <title>Dia Internacional da Recordação do Tráfico de Escravos e da sua Abolição - Escrava! - Pascale Maret</title>
  <author>hpt</author>
  <link>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/5464.html</link>
  <description>&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;A propósito do Dia Internacional da Recordação do Tráfico de Escravos e da sua Abolição, dia 23 de Agosto, enviamos a seguinte história:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Tem dez anos, é negra, e há muito que deixou de ter nome.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Capturada em África e embarcada com destino à América,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;é vendida num mercado da Venezuela.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Baptizada Ana, trabalha duramente e vai-se adaptando à sua nova vida,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;na qual aprende depressa, demasiado depressa…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Muitos têm ciúmes dela e, um dia, acusam-na de algo que não fez.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Chicoteada e humilhada, Ana decide fugir.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Mas reencontrar a liberdade vai revelar-se uma luta bem difícil…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;Nos finais do século XVIII, a Venezuela, então uma colónia de Espanha, contava com cerca de 60.000 escravos, trazidos de África em navios espanhóis, portugueses, ingleses e franceses.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;Todos os anos, mais de mil Africanos desembarcavam em La Guaira, o principal porto do país, para aí serem vendidos. Os colonos venezuelanos usavam-nos para pescar pérolas no fundo do oceano, extrair minérios da terra, desbravar selva, plantar café e cacau, e assegurar todas as tarefas domésticas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;Tal como acontecia no resto da América, os escravos venezuelanos eram tratados com crueldade. Para escaparem à sua triste condição, alguns não hesitavam em revoltar-se e fugir, instalando-se em regiões afastadas do país, ainda muito despovoado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;Sobre o cais alinhavam-se filas de Africanos, seminus. Todos piscavam os olhos, aturdidos que se sentiam por verem luz após semanas de obscuridade num porão de navio. Para que tivessem um ar mais atraente como mercadoria, tinham sido lavados e oleados, e as suas feridas curadas à pressa. Apesar disso, os boçais[1], como eram denominados os escravos acabados de desembarcar dos navios negreiros, tinham um ar bastante miserável.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;A travessia horrível, no decurso da qual muitos haviam morrido, tinha-os tornado mais fracos, doentes e desesperados. Alguns eram amparados pelos companheiros, e uma jovem grávida estava estendida no pavimento, completamente esgotada. Meia dúzia de crianças, um pouco afastadas, observavam, com olhos assustados e admirados, este Novo Mundo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;No seio do grupo apavorado, estava uma menina de cerca de dez anos,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;a name=&quot;cutid1&quot;&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class=&quot;ljcut&quot; text=&quot;continuação&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt; que parecia alheada de tudo o que a rodeava. A sua cara bonita, emagrecida por todas as provações que sofrera, tinha um ar totalmente ausente, e esta impassibilidade ainda a tornava mais patética do que os outros. Não manifestou qualquer tipo de emoção quando o traficante a puxou pelo braço para a apresentar a um homem muito moreno, cujos traços duros eram pontuados por um fino bigode.&lt;/span&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;― Leve esta miúda, senhor. Não posso baixar o preço do lote, mas dou-lha de graça.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;― É muito magrita! ― protestou o homem. ― E nem sequer parece acordada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;― Ouça, señor Ricardo, é pegar ou largar. Os três homens são robustos e as duas mulheres são jovens e sadias. Cinco belas “peças” por mil e duzentos pesos, com a miúda a completar, eis o que eu chamo um belo negócio!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;O homem chamado Ricardo fingia hesitar, enquanto observava a rapariguinha sem qualquer piedade. Don José Mijares de Solapado y Pacheco, de quem era intendente, tinha necessidade de novos criados e tinha-o incumbido de comprar alguns boçais. O intendente tinha viajado de propósito de Caracas, a capital, que ficava para lá das montanhas, a fim de assistir à chegada desta carga.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;Claro que iria comprar o lote. Era preciso aproveitar a ocasião. À parte a miúda, tinha seleccionado os melhores exemplares e tinha negociado um bom preço. Don José ficaria satisfeito.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;― Está bem ― disse lentamente. ― Põe a miúda junto dos outros.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;Os seis boçais foram colocados na casa principal de Don José, a fim de se habituarem à língua. Também era preciso saber quais deles estariam aptos para o serviço doméstico. Após algumas semanas, foram mandados embora dois homens e uma mulher, que se mostravam rudes e teimosos. Enviaram-nos para uma plantação de café, onde o chicote do capataz os poria no lugar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;Eram precisos escravos dóceis e inteligentes para o serviço da casa. Só ficaram com um dos homens, que parecia ter jeito para a jardinagem, e com uma mulher, que confiaram à cozinheira, também ela negra. A miúda, que os medos e os sofrimentos passados pareciam ter estupidificado, ficou também na casa. Era demasiado débil para trabalhar no campo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;As criadas tentaram conquistá-la, mas ela parecia um animal acossado num canto. Quase não pegava na comida que lhe davam. Na casa, havia escravos de várias origens, e todos os que ainda se lembravam do seu dialecto africano tentavam falar com ela. A cozinheira, a ama, a criada de passar a ferro, um criado, todos tentavam fazê-la falar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;Mas a rapariga não reagia. Parecia nada compreender e olhava-os apenas com uns belos olhos cheios de medo. A sua existência passada parecia-lhe agora extremamente longínqua. Lembrava-se do pesadelo que fora a invasão da aldeia por guerreiros inimigos, e a morte do chefe, seu pai, durante a batalha.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;Depois, tinham sido feitos prisioneiros e forçados a caminhar durante dias a fio: ela, a mãe, os dois irmãos, e muitos outros. Separaram os homens das mulheres e os irmãos desapareceram. A mãe e ela tinham ficado fechadas numa casa abafada, juntamente com outras mulheres, antes de embarcarem numa horrível prisão flutuante, onde eram guardadas por homens brancos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;Quase todos os prisioneiros, acorrentados e amontoados no porão abafado do navio, tinham enjoos horríveis. O cheiro de vómito e de excrementos era insuportável e a escuridão ressoava de lágrimas, gritos e gemidos. Contudo, após alguns dias de travessia, Ana tinha-se sentido um pouco melhor, e tinha engolido um pouco da ração que lhes davam duas vezes por dia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;A mãe não comia, porém. Tinha o corpo a arder, os olhos sempre fechados, e era violentamente sacudida por tremuras que a filha tentava em vão acalmar, apertando-a nos bracitos magros. Nem conseguia pensar no que sucedera depois. Com um olhar cansado e os lábios gretados, a mãe murmurara:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;― Não te esqueças, minha filha, de que o teu pai era um grande chefe. Sê corajosa, como ele.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;― Prometo! ― dissera a filha.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;Quando ouviu a respiração fraca da mãe transformar-se num gemido assustador, e sentiu o seu corpo acolhedor e quente transformar-se em algo de rígido e frio, a coragem abandonou-a e a noite apoderou-se do seu espírito. O mundo em redor tornou-se confuso e obscuro, como se as máscaras sagradas da sua aldeia a tivessem conduzido às profundezas da floresta interdita, onde só reinava o caos e as trevas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;Não se lembrava do que acontecera em seguida. Mesmo o sol e o ar livre não conseguiram libertá-la da noite permanente em que estava mergulhada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;Pascale Maret&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;Esclave !&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;Toulouse, Milan Poche Junior, 2007&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;(Tradução e adaptação)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000080;&quot;&gt;1. Os “boçais” eram escravos negros, recém-chegados de África, e desconhecedores da língua do país. (N.T.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;</description>
  <comments>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/5464.html</comments>
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  <category>história</category>
  <category>escravatura</category>
  <category>direitos humanos</category>
  <category>sociedade</category>
</item>
<item>
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  <pubDate>Tue, 09 Aug 2011 05:34:25 GMT</pubDate>
  <title>Palavras em vão - Sophia de Mello Breyner Andresen</title>
  <author>hpt</author>
  <link>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/5151.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;em&gt;Um nobre dinamarquês levou muito tempo a regressar ao seu país, depois de uma peregrinação à Terra Santa. Na viagem soube de muitas histórias, entre as quais a da morte, na costa africana, de um nativo e de um marinheiro português. Aconteceu que, no contacto entre eles, as palavras lhes faltaram, e não entenderam os gestos um do outro. Então, em movimentos defensivos, mataram-se com as próprias armas.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Um dia, o cavaleiro teve desejo de ir mais longe, de ir até às terras desconhecidas que surgiam do mar. Então resolveu alistar-se nas expedições portuguesas que navegavam para o sul à procura de novos países. Veio a Lisboa e aí embarcou numa caravela que partia a reconhecer e a explorar as costas de África. Seguiram das margens do Tejo para as Canárias, onde pararam alguns dias. Depois continuaram viagem, aproximaram-se da terra africana, dobraram o cabo Bojador e seguiram, à vista das costas desertas, queimadas pelo sol, sem árvores, e sem homens. Junto ao cabo Branco ancoraram o navio num abrigo formado por altos penedos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Então, homens de pele sombria, envolvidos em mantos flutuantes e montados em camelos, vieram à orla da praia negociar com os portugueses. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;a name=&quot;cutid1&quot;&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class=&quot;ljcut&quot; text=&quot;continuação&quot;&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;E as caravelas continuaram a navegar para o sul, muito para o sul. Uma brisa constante inchava as grandes velas e os mastros e os cabos gemiam docemente. Até que, para além das intermináveis costas nuas e vazias, sem árvores e sem sombra, surgiram as primeiras palmeiras.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Depois começaram a aparecer espessas e verdes florestas que cobriam toda a terra desde as praias brancas até aos distantes montes azulados. E dessas florestas surgiram homens nus e negros que embarcavam em pirogas e rodeavam os navios. Os marinheiros portugueses traziam ordem de se entenderem com eles. Mas isto era difícil. Em geral, as pirogas não chegavam ao alcance dos navios e outras vezes mesmo os negros desapareciam entre o arvoredo mal as caravelas ancoravam. Então os marinheiros que desembarcavam eram recebidos com flechas envenenadas dos homens escondidos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Porém, havia paragens onde os africanos e os portugueses já se conheciam e negociavam. E às vezes, em lugares da costa onde nunca um navio tinha parado, acontecia serem acolhidos com festa e alvoroço. Então, bailando e cantando, os negros vinham ao encontro dos navegadores que, para corresponderem ao bom acolhimento, bailavam e dançavam também à moda da sua terra.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Mas o entendimento entre ambas as partes, muita vez, pouco mais avançava, pois uns e outros não entendiam as respectivas linguagens e mesmo os intérpretes berberes não conheciam a fala usada em tão longínquas paragens. Este desentendimento das línguas foi a causa de muitas mortes e combates.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Assim um dia a caravela ancorou em frente duma larga e bela baía rodeada de maravilhosos arvoredos. Na longa praia de areia branca e fina um pequeno grupo de negros espreitava o navio. Então o capitão resolveu mandar a terra dois batéis com homens para que tentassem estabelecer contacto com os africanos. Mas logo que os batéis tocaram na areia os negros fugiram e desapareceram no arvoredo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Talvez tenham tido medo por ver que nós somos muitos e eles são poucos — disse um português chamado Pêro Dias.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;E pediu aos seus companheiros que lhe deixassem um batel e embarcassem todos no outro e se afastassem da praia. Mas os companheiros acharam este plano tão arriscado que não o quiseram aceitar. Porém, Pêro Dias insistiu tanto que eles acabaram por fazer como ele pedia e remaram para o largo. O português, mal ficou sozinho, caminhou até meio da praia e ali colocou panos coloridos que tinham trazido como presente. Depois recuou até à orla do mar, encostou-se ao batel que ficara e esperou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Ao cabo de algum tempo saiu da floresta um homem que trazia na mão uma lança longa e fina e avançava negro e nu na claridade da praia. Avançava passo por passo, lentamente, vigiando os gestos do homem branco que junto do batel continuava imóvel. Quando chegou perto dos panos, parou e examinou com alvoroço a oferta. Depois ergueu a cabeça, encarou o português e sorriu. Este sorriu também e avançou uns passos. Houve uma pequena pausa. Depois, num acordo mútuo, os dois homens, sorrindo, caminharam ao encontro um do outro. Quando entre eles ficaram só seis passos de distância, pararam.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Quero paz contigo — disse o branco na sua língua.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;O negro sorriu e respondeu três palavras desconhecidas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Quero paz contigo — disse o branco em árabe.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;O negro tornou a rir e tornou a repetir as palavras ininteligíveis.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Quero paz contigo — disse o branco em berbere.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;O negro sorriu de novo e mais uma vez respondeu as três palavras exóticas. Então Pêro Dias começou a falar por gestos. Fez o gesto de beber e o negro apontou-lhe a floresta. Fez o gesto de comer e o negro apontou-lhe a floresta. Com um gesto de convite o marinheiro apontou o seu batel. Mas o negro sacudiu a cabeça e recuou um passo. Vendo-o retrair-se, o português, para voltar a estabelecer a confiança, começou a cantar e dançar. O outro, com grandes saltos, cantos e risos, seguiu o seu exemplo. Em frente um do outro bailaram algum tempo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Mas no ardor do baile e da mímica Pêro Dias ergueu no ar a sua espada, que faiscou ao sol. O brilho assustou o nativo, que deu um pulo para trás e estremeceu. Pêro Dias fez um gesto para o sossegar. Mas o outro começou a fugir, e o navegador precipitou-se no seu encalço e agarrou-o por um braço. Vendo-se preso, o negro principiou a debater-se, primeiro com susto, depois com fúria. Com gritos roucos e sílabas guturais respondia às palavras e aos gestos que o tentavam apaziguar. Ao longe, no mar, os companheiros de Pêro Dias avistaram a luta e principiaram a remar para a praia. O negro viu-os a aproximarem-se, julgou-se cercado e perdido e apontou a sua lança. Pêro Dias com a espada tentou aparar o golpe mas ambos caíram trespassados. Os portugueses saltaram do batel e correram para os corpos estendidos. Do peito do negro e do branco corriam dois fios de sangue.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Olhem — disse um moço — o sangue deles é exactamente da mesma cor.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;De bordo veio o capitão com mais gente e todos durante uma hora choraram o triste combate.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;O sol subia no céu e aproximava-se o calor do meio-dia. Não sabendo quando voltariam a desembarcar, o capitão resolveu não levar para bordo o cadáver de Pêro Dias. Os dois corpos foram sepultados ali mesmo, na praia. E com a lança do gentio e a espada do cristão, os marinheiros fizeram uma cruz, que espetaram na areia entre os túmulos dos dois homens mortos por não poderem dialogar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Chegado a este ponto da sua narrativa, o capitão flamengo calou-se uns momentos olhando o lume. O negociante serviu de novo vinho aos seus hóspedes e até altas horas continuaram a ouvir o marinheiro da Flandres contando as longínquas viagens, as ilhas desertas, as árvores descomunais, as tempestades, as calmarias, os povos misteriosos. No dia seguinte o Cavaleiro disse ao negociante que queria seguir por mar para a Dinamarca.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Sophia de Mello Breyner Andresen&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Manuela Fonseca e outros (org.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;em&gt;Lá longe, a paz&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Porto, Edições Afrontamento, 2001&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;(adaptação)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;</description>
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  <pubDate>Tue, 02 Aug 2011 10:58:21 GMT</pubDate>
  <title>Carta Aberta a um Jovem</title>
  <author>hpt</author>
  <link>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/5084.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Caro Jovem&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Não há nada de antiquado no facto de procurares comportar-te com dignidade nas tuas relações com o sexo oposto. O teu corpo não é um objecto, nem um qualquer mecanismo que não possas controlar.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Numa relação, o afecto é muito mais importante do que o sexo. A falta de carinho leva a que as pessoas acabem por se tornar agressivas uma com a outra. Nunca te precipites. Os contactos sexuais não te farão mais próximo de quem julgas gostar.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;É uma grande ilusão confundir-se atracção física com amor. Deixa as experiências sexuais para quando tiveres uma relação verdadeiramente madura, ou podes ter a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, tudo se desmoronará. Não coloques o prazer à frente do carinho e do respeito. Deixa que o tempo exerça a sua acção. Já experimentaste comer um fruto ainda verde?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Fala-se muito de amor, quando, na maior parte dos casos, tudo não passa de aparência. Não antecipes experiências que só devem ser vividas quando houver respeito e ternura bastantes para tornarem sólida uma relação. De outra forma, apenas encontrarás o vazio.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A precipitação pode ter consequências sérias: uma gravidez não planeada, por exemplo. Interrompe-se a gravidez, dirás tu. E achas correcto matar uma vida, sobretudo quando foi a tua irresponsabilidade que a criou?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Não te esqueças também das doenças transmissíveis por via sexual, e do enorme sofrimento que poderão causar. Relações sexualmente protegidas serão a solução, pensarás. Pois convence-te de que a solução consiste em te tornares interiormente adulto e responsável, e aprenderes a agir com rectidão e dignidade.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O ser humano não é um animal irracional que actua impelido pelo cio. É um ser pensante e criativo, com capacidade de escolha e de decisão, e que tem o dever de reflectir sobre os seus actos.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Os muitos filmes e novelas incessantemente despejados na cabeça das pessoas distorcem o sentido da conduta humana, induzindo à vulgaridade e à imitação de comportamentos grosseiros, quando não claramente anti-éticos.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Deves desenvolver o teu espírito crítico, para não te limitares a ser mais uma ovelha de um imenso rebanho obtuso e amorfo, que se deixa conduzir por qualquer um.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Não esqueças que a vida é uma oportunidade demasiado preciosa para a desperdiçares com caprichos e fantasias. Procura a justiça e tenta contribuir para uma sociedade melhor.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Com o desejo sincero de que sejas feliz.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;Anónimo&lt;/p&gt;</description>
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  <category>sexualidade</category>
  <category>reflexão</category>
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  <pubDate>Tue, 02 Aug 2011 10:36:12 GMT</pubDate>
  <title>O homem que ficou sem sono ou a história de um herói contada em português</title>
  <author>hpt</author>
  <link>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/4687.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Era uma vez um homem que um dia ficou sem sono. Queria dormir, mas não conseguia, apesar de sempre ter dormido bem. Quando fechava os olhos, não lhe saía da cabeça a tristeza que havia no olhar das crianças que se apinhavam junto da porta da casa onde morava e trabalhava. Era um homem bom que gostava do que fazia e que fora educado para obedecer às ordens dos seus superiores, estivesse onde estivesse. Nunca lhe passara sequer pela cabeça a possibilidade de um dia vir a infringir essa regra.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Esta história é verdadeira e aconteceu poucos dias antes de começar o Verão do ano de 1940. Ainda há muita gente viva que se lembra bem desse homem e daquilo que ele fez, deixando de pensar em si e pensando nos outros e na sua salvação. O homem era diplomata e nascera no norte de Portugal. Chamava-se Aristides de Sousa Mendes, era casado e tinha vários filhos. A sua carreira como cônsul levou-o até à cidade francesa de Bordéus, onde lhe chegaram as primeiras notícias do começo da Segunda Guerra Mundial quando as tropas alemãs atacaram a Polónia e a Inglaterra se opôs a essa agressão, em defesa da liberdade e da democracia, declarando que faria frente, pelas armas, aos agressores.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O homem era pessoa de bem e defensor da paz. Não podia aceitar a ideia de que alguém pudesse ser perseguido, torturado e morto só por ter ideias políticas diferentes ou outra religião.&lt;/p&gt;
&lt;a name=&quot;cutid1&quot;&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class=&quot;ljcut&quot; text=&quot;Continuação&quot;&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Fora educado para a tolerância e por isso respeitava os direitos dos outros. À medida que as tropas alemãs invadiam países como a Bélgica ou a Holanda e se aproximavam da fronteira francesa, iam chegando a Bordéus refugiados das nações ocupadas, em busca de um visto no passaporte que lhes permitisse chegar a Espanha e depois a Portugal, apanhando mais tarde, em Lisboa, um barco ou um avião que os levasse para países como os Estados Unidos da América, o Brasil ou a Argentina, onde não havia guerra. Portugal e Espanha, governados por ditadores como Hitler, o senhor da Alemanha, não tinham entrado na guerra e iriam manter-se à margem dela, embora durante muito tempo tenham estado ao lado dos alemães e do que eles representavam.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O homem queria dormir, mas não era capaz. Ecoavam-lhe na cabeça as vozes das crianças que sofriam de fome e de sede e que, lembrando-lhe os seus filhos, tinham o direito de viver e de crescer em liberdade. De Lisboa, o cônsul português recebera ordens muito rigorosas no sentido de não deixar chegar refugiados a Portugal. Pensou e voltou a pensar, consultou a mulher e escreveu uma longa carta aos filhos explicando o que tencionava fazer e as razões dessa opção. Espreitou pela janela e viu nos olhos das crianças um sorriso fugidio que representava a última réstia de esperança. Por elas valeria a pena arriscar. Por elas e pelos princípios que defendia. Foi assim que a palavra «desobediência» entrou definitivamente no seu vocabulário. Mandou abrir as portas do Consulado de Portugal e forneceu aos funcionários carimbos e selos brancos para poderem emitir o maior número de vistos possível. A partir desse momento seria uma batalha sem tréguas contra o tempo. Cada minuto contava. Cada dia parecia uma eternidade.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Durante três dias não houve descanso para ninguém dentro do Consulado, e ainda sobrou tempo para se dar água e comida àqueles que esperavam à porta em intermináveis filas, com a esperança de que o pesadelo por fim terminasse. Pela rádio chegavam notícias da rendição da França, o que significava que já faltava muito pouco para que as tropas de Hitler chegassem também a Bordéus, perseguindo e prendendo judeus e opositores políticos ao regime nazi. Era preciso actuar ainda mais depressa. O cônsul conseguiu arranjar tempo para ir às cidades de Bayonne e Hendaye onde havia um grande número de refugiados tentando passar a fronteira em direcção a Espanha. Aristides de Sousa Mendes sabia que o desrespeito pelas ordens de Lisboa teria consequências dramáticas para o seu futuro e da sua família. Ainda assim, não recuou. Sabia que a razão estava do seu lado e não estava disposto a abdicar dessa razão, que correspondia à salvação de mil hares de vidas.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Mãe, tenho fome e sede e quero sair deste sítio — dizia a menina austríaca para a mãe pálida e exausta.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Talvez amanhã de manhã já possamos estar a caminho da liberdade, porque há ali dentro um homem bom que nos quer ajudar.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O homem não se deixou vencer pelo cansaço, pelo sono, pela fome ou pela sede. A vida dos outros estava primeiro. Se eles tinham pressa, a sua conseguia ser ainda maior. No Consulado, houve quem o avisasse: «O senhor bem sabe o que lhe pode acontecer!» Mas ele não quis saber e continuou a passar vistos, perdendo a conta às pessoas que já tinha conseguido salvar. Terão sido dez mil, quinze mil ou trinta mil? Não se sabe ao certo. Sabe-se sim que chegaram a Lisboa e que depois foram encaminhados para o Estoril, para a Ericeira, para a Figueira da Foz ou para as Caldas da Rainha. Mais tarde, a maioria conseguiu partir para países onde havia liberdade. Alguns voltaram depois do final da guerra às suas terras, outros nunca mais as quiseram ver porque não conseguiram esquecer as horas de sofrimento e perda. Três dias bastaram para que o cônsul Aristides de Sousa Mendes abrisse a milhares de refugiados as portas pa ra a liberdade, desobedecendo a Salazar e ao regime que ele dirigia. Por isso foi prontamente banido da carreira diplomática e proibido de exercer qualquer actividade profissional, morrendo na miséria em 1954, com os filhos dispersos por países como os Estados Unidos, onde puderam estudar e seguir as suas carreiras. Num dia quente de Junho de 1940, no Rossio, em Lisboa, um menino de cabelo loiro perguntou aos pais, enquanto estes procuravam uma pensão ou um hotel onde se pudessem instalar até conseguirem arranjar bilhetes num barco ou num avião para Nova Iorque:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Como é que se chama aquele senhor que, em Bordéus, nos passou os vistos para podermos chegar a este país?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O pai, não contendo uma lágrima comovida, respondeu-lhe:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Chama-se herói, filho. Quem faz o que ele fez por nós só pode ter esse nome.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ainda não houve um grande realizador de cinema que fizesse um filme sobre esta história verdadeira, à semelhança do que Steven Spielberg fez com Oskar Schindler, mas pode ser que ainda venha a ser feito. Nunca é tarde para celebrar os feitos dos heróis.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Naquelas noites quentes de Junho de 1940, havia em Bordéus um português que não conseguia dormir. Não lhe saía da memória a aflição das crianças que queriam ver abrir-se a porta que as deixasse seguir o caminho até à liberdade. Essa porta abriu-se e por ela passou uma réstia de luz, desenhando no cetim negro do céu, entre as estrelas, a linda palavra «Esperança», escrita em português como esta história verdadeira que é sempre bom contar e recontar.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Porquê? Porque é sempre possível que a tragédia volte a acontecer, onde e quando menos se espera.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;José Jorge Letria&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;AAVV&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;em&gt;Contos de um Mundo com Esperança&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;Lisboa, Texto Editora, 2003&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;(adaptação)&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;</description>
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  <pubDate>Mon, 27 Jun 2011 08:55:58 GMT</pubDate>
  <title>As penas - Um conto hasídico da Europa de Leste</title>
  <author>hpt</author>
  <link>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/4537.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Uma mulher de língua afiada foi acusada de espalhar um boato. Quando a levaram perante o rabi da aldeia, desculpou-se:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; — Não passou tudo de uma brincadeira e não tenho culpa de que as minhas palavras tenham sido espalhadas por outros.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; Contudo, a vítima exigia que fosse feita justiça, dizendo:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— As tuas palavras destruíram o meu bom nome!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A mulher retorquiu:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Retiro o que disse e, assim, anulo a minha culpa.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Quando o rabi ouviu estas palavras, percebeu que a mulher não compreendia o alcance do crime que cometera. Disse-lhe então:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— As tuas palavras só serão desculpadas depois de fazeres o seguinte:&lt;/p&gt;
&lt;a name=&quot;cutid1&quot;&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class=&quot;ljcut&quot; text=&quot;continuação da história&quot;&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;traz a minha almofada para o mercado, corta-a, e deixa que o vento leve as penas. Depois, apanha cada uma delas e trá-las de volta. Quando tiveres feito isso, serás absolvida do teu crime.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A mulher concordou e pensou para consigo: “O velho rabi enlouqueceu de vez!” Mas, mal cortou a almofada, viu logo que as penas voaram para todos os cantos da praça. O vento levou-as para todos os lados, por sobre as árvores e para debaixo das carroças. A mulher bem que tentou apanhá-las mas, após muitos esforços, deu-se conta de que nunca as encontraria todas.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Foi ter com o rabi com algumas penas na mão e confessou:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Não consegui apanhar as penas todas, tal como não consigo retirar tudo o que afirmei. A partir de agora, terei cuidado com o que digo, para não prejudicar os outros, pois não há forma de controlar as palavras, tal como não há forma de controlar o voo das penas.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;E, a partir desse dia, a mulher só falava de forma bondosa de todos quantos encontrava.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;Marian Wright Edelman&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;em&gt;I can make a difference&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;New York, HarperCollins Publishers, 2005&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;(Tradução e adaptação)&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;</description>
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  <pubDate>Mon, 13 Jun 2011 07:14:38 GMT</pubDate>
  <title>As crianças têm direitos!</title>
  <author>hpt</author>
  <link>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/4296.html</link>
  <description>&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;strong&gt;Crianças de lado nenhum&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Era uma vez um menino como tu, da tua idade, que vivia com a família. Tinha amigos, ia à escola, fazia desporto e frequentava aulas de música. Tal como tu, queria saber tudo e devorava livros para poder conhecer o mundo. Mas isso não lhe bastava.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um dia foi passear pelo campo e sentou-se junto de uma árvore. Era um carvalho robusto, centenário, com ramos tão acolhedores que lembravam braços abertos. O menino sentia-se bem e começou a falar:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Se o nosso planeta fosse tão pequeno como uma aldeia, seria fácil percorrer todos os continentes; com poucos passos, eu podia encontrar todos os meninos da Terra!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Naquele instante, os ramos do velho carvalho baixaram-se, levantaram o menino e levaram-no num turbilhão ensurdecedor. Quando voltou a abrir os olhos, seguia por um caminho de pedras. À sua frente avançava um grupo de crianças descalças, sujas, embrulhadasem cobertores. Asmais velhas levavam ao colo as mais pequenas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Olá! — diz o menino. — Para onde vão?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Não sabemos. Há meses e semanas que caminhamos, que fugimos de casa por causa da guerra.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— E a vossa família? E a vossa aldeia, o vosso país? — perguntou o menino.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Já não temos nada. Temos apenas medo no peito. Alguns de nós fugiram num barco de tábuas velhas e esburacadas. Outros, atravessaram o deserto sem comer nem beber e outros ainda esconderam-se na floresta, alimentando-se de raízes e dormindo ao relento!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O menino sentiu o medo apoderar-se dele. Um medo terrível que até então desconhecera. Não era um medo pequeno como o medo do escuro ou da trovoada, mas o de um pesadelo, de onde se quer sair o mais depressa possível. Queria voltar a encontrar o velho carvalho, queria regressar a casa. Dentro do bolso, sentiu uma folha mexer-se entre os dedos. Apertou-a… e, de repente, encontrou-se junto da velha árvore:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— É horrível! Vi meninos retirados ao pai, à mãe, à sua terra, aos seus sonhos. É preciso ajudá-los; têm o direito de viver em paz a sua vida de criança!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O menino ia levantar-se para ir embora, quando um ramo pegou nele e o fez sobrevoar o caminho de pedras, onde em grandes camas de rede, as crianças de lado nenhum descansavam em paz, debaixo de dois grandes carvalhos que, de repente, ali tinham aparecido. O menino ficou mais tranquilo. Fechou os olhos e deixou-se também embalar pelos ramos. Um calor suave acariciava-lhe o rosto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;*&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;strong&gt;Crianças do Haiti&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;a name=&quot;cutid1&quot;&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class=&quot;ljcut&quot; text=&quot;Continuação da história&quot;&gt;
&lt;p&gt;Abriu os olhos: estava numa ilha sob um sol ardente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao longe, viu crianças atarefadas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Olá! — gritou-lhes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As crianças mal repararam nele e prosseguiram, umas a engraxar sapatos, outras a despejar lixo, outras ainda a lavar azulejos. Abeirou-se delas:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Querem brincar comigo?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Àquelas palavras, as crianças pararam de trabalhar. O mais velho deu um passo na direcção do menino:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Eh! Não há tempo para brincar. Temos trabalho a fazer!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Trabalho?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Nós temos de trabalhar o dia inteiro, senão, à noite, não temos nada para comer.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Vocês trabalham? Na vossa idade?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Lá em casa somos doze, não há outro remédio! Temos de ajudar os nossos pais. Já vês que não temos tempo para brincar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— E à noite?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— À noite,  estamos tão cansados que nem pensamos em  brincar. Estás a ver aquele homem ali em baixo, com os sapatos cheios de pó? Está à minha espera. Tenho de deixá-los a brilhar e, se ele ficar satisfeito, dá-me duas moedas. Já chega para comprar fruta, pão e quatro batatas-doces. Bom, então adeus, miúdo. Bem gostava de brincar contigo!...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em seguida, o menino foi sentar-se ao pé de uma árvore coberta de flores vermelhas e cor-de-laranja. “Uma árvore que faz sonhar”, pensou ele.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ouviu a voz do mais velho murmurar-lhe ao ouvido:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Eh, miúdo, quando for grande hei-de fazer uma lei que dê a todas as crianças o direito de brincar todos os dias!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Da árvore flamejante brotaram então, como uma chuva de sonhos, os brinquedos mais extraordinários.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;*&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;strong&gt;Manitra&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;strong&gt; &lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O menino ia pegar num brinquedo, quando, de novo, os ramos da árvore se ergueram para levá-lo a um outro lugar. Pousaram-no num bairro pobre de uma grande cidade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Estas casas são feitas de cartão. Como se pode viver lá dentro quando chove?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Respondeu-lhe uma menina de vestido sujo e esfarrapado com as mãos pretas do pó de carvão.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Eu sou a Manitra. Quando chove, cobrimo-las com plásticos grandes e pronto! &lt;em&gt;Boeh, boeh&lt;/em&gt;!&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— O que quer dizer &lt;em&gt;boeh, boeh&lt;/em&gt;?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Carvão, carvão! Eu apanho carvão e ando pelas ruas a apregoar &lt;em&gt;boeh, boeh&lt;/em&gt;! Para o vender. Com o dinheiro, já posso comprar arroz e feijões!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No fim de cada frase, Manitra tossia, uma tosse aguda.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Estás doente?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Em Madagáscar, todas as crianças que apanham carvão tossem. É o pó que irrita os pulmões.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Não tens nenhum xarope?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— É preciso dinheiro para a gente se tratar!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um bebé correu a encostar-se a Manitra. Tinha as pernas cobertas de chagas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— É o meu irmãozinho.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Tem de tratar as pernas!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Eu sei. Mas para comprar uma pomada, tenho de apanhar e vender cinquenta pedras de carvão. E é muito difícil!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O menino rebuscou no fundo dos bolsos e deitou ao chão uma folha de carvalho. Em segundos, um embondeiro majestoso ergueu-se, carregado de medicamentos e de vitaminas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Manitra recolheu o que era preciso para curar o irmão.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Um dia, hei-de ser enfermeira no meu país. Vou tratar dos meninos pobres que vivem na rua ou em bairros de cartão, para que também eles tenham direito a ser tratados.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;*&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;strong&gt;Romain&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O menino já não a ouvia. Já estava longe, muito longe, numa cidade de betão, onde não havia embondeiros nem flores. Nas escadas de um prédio, estava sentado Romain.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O menino abordou-o:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Olá! Estás sozinho? Não tens amigos?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Romain ergueu a cabeça.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Estou sozinho o dia inteiro. Quando me levanto, os meus pais já têm saído e, à noite, como sozinho em frente da televisão!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— E isso é porque eles têm muito trabalho?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Não. Nos dias em que não trabalham, é igual. Quase não falam comigo, e quando falam, é só para me castigarem ou para me ralharem. Se faço a mesma pergunta muitas vezes, o meu pai irrita-se e bate-me. Não percebo porquê. Talvez eu não seja o filho que ele desejava!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Romain escondeu a cabeça entre os joelhos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Tenho vergonha de te ter contado isto, tenho vergonha! — e correu a fechar-se em casa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O menino encostou-se à porta e disse-lhe:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Vergonha porquê? Mas tu não tens culpa! Tens direito a falar, a contar a tua história, não deves ficar fechado no teu silêncio, a sofrer sozinho. Estás a ouvir-me? Eu sou teu amigo! Eu sou teu amigo!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E, diante da porta de Romain, deixou um punhado de folhas de carvalho. Num instante, elas formaram uma trança que correu de casa em casa, e entrou em casa de outras crianças, novos amigos de Romain.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O menino bem gostaria de seguir aquela longa cadeia de amizade, mas já os ramos lhe indicavam outro destino.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;*&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;strong&gt; &lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;strong&gt;Meninas das Filipinas&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Conduziram-no por uma rua estreita e mal iluminada onde se sentiu um pouco inseguro. Atrás de uma janela gradeada viu duas meninas. “Crianças na prisão?”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Bom dia — disse ele timidamente — o que estão a fazer aí?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Estamos presas!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Mas é proibido meter crianças na cadeia! O que é que vocês fizeram de mal?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Nada. Um senhor comprou-nos aos nossos pais.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— O quê, comprou-vos?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Sim. Disse que ia dar-nos trabalho, que íamos ter um tecto, comida e dinheiro! Como somos muito pobres, acreditámos nele.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Era um mentiroso, um aldrabão!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Agora não nos deixa sair. Pôs grades nas portas e nas janelas, e proíbe-nos de falar. Somos escravas dele — sussurrou a menina.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Onde está esse homem? Tem de ser preso e julgado. Onde é que ele está?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— No nosso país há muitos homens como ele. Não se pode fazer nada!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Claro que pode!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O menino, revoltado, pôs-se a forçar as grades com quanta força tinha, mas não conseguiu alargá-las. Apavoradas, as meninas foram esconder-se.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tinha de encontrar o velho carvalho o mais rapidamente possível! Meteu as mãos nos bolsos e esfregou uma folha. A árvore apareceu imediatamente. O menino agarrou-se à casca a gritar:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— No nosso planeta há pessoas que batem nas crianças e há crianças que são compradas. É uma vergonha, não há direito!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E começou a chorar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O ramo veio delicadamente secar-lhe as lágrimas, que lhe deslizavam pela cara abaixo como pérolas de chuva. Pegou nele e pousou-o debaixo de uma tília em flor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;*&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;strong&gt;Bryony e Brian&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O som de um violino fê-lo erguer a cabeça. Bryony tocava uma doce melodia. Ela parou e perguntou-lhe:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Não encontraste Bryan pelo caminho? Estou a ouvi-lo. É o meu namorado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Tens sorte por teres um namorado!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Sim, mas quase nunca o vejo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Porquê? Vive longe?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Não, é logo à frente de minha casa, mas estamos proibidos de nos vermos porque eu sou católica e ele é protestante.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— E o que é que isso tem a ver com o amor?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Em casa, se quiser dizer adeus a Bryan, os meus pais não podem saber. Ficam furiosos. Dizem que os culpados pelas bombas e pela violência são os protestantes. Eu amo Bryan tal como ele é, com os dentes separados e os cabelos ruivos. Não me interessa a religião!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Bryony deu um suspiro e continuou:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Felizmente, temos um segredo que os adultos não conhecem: sempre que queremos, encontramo-nos através da música.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Bryony recomeçou a tocar. Ao longe, uma flauta respondeu-lhe.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Mais tarde vamos ser músicos e tocar juntos nas ruas, para mostrar que as crianças têm direito ao amor, mesmo que não sejam da mesma religião, da mesma raça ou da mesma cor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao som da flauta e do violino, a tília cobriu-se de notas de música e de instrumentos de todos os países do mundo. O menino deixou-se embalar por aquela música e, um pouco cansado de tanto viajar, adormeceu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;*&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;strong&gt;Amadou&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;strong&gt; &lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A voz de Amadou acordou-o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Onde estou? — perguntou o menino.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Estás no Mali, no meu país!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Debaixo de um magnífico ébano, Amadou remexia na pasta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Vais para a escola?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Escola? Estás a brincar! Há meses que o chefe nos prometeu uma, mas nunca mais chega. As pessoas importantes têm sempre coisas mais urgentes a fazer!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— O quê, por exemplo?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— A guerra. Aqui, as tribos combatem-se, destroem as florestas, as aldeias. Assim, as pessoas não têm tempo para construírem uma escola! Para eles, isso não é importante. A maior parte das pessoas da minha aldeia nem sequer sabe escrever! A minha pasta, estás a ver, foi-me dada por uns meninos de uma escola de outro país. Aqui dentro está tudo o que é preciso para aprender: números, letras, lápis, borrachas… Eu tenho vontade de saber, de compreender!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Amadou estava cheio de curiosidade, até parecia que queria devorar os livros.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Hoje, posso dizer-te, de cor, a conjugação dos direitos no tempo presente. &lt;em&gt;Eu tenho direito a ir à escola, tu tens direito a aprender a ler, ele tem direito a saber contar…&lt;/em&gt; Mais tarde, hei-de ser professor, hei-de ir de aldeia em aldeia ensinar as crianças a ler e a escrever, para que saibam que todos têm direito a uma educação gratuita, qualquer que seja a sua tribo, quer vivam no mato quer vivam nas grandes cidades.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O ébano magnífico balançou-se lentamente. Livros cheios de histórias e de cadernos impacientes por receberem os mais belos segredos caíram, um a um, à volta de Amadou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;*&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;strong&gt;Meena&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O menino mal teve tempo de dizer adeus a Amadou; viu-se, logo de seguida, sentado numa carteira de escola ao lado de uma menina que dormia em cima do caderno. “Ela tem direito a descansar. Deve estar muito cansada!”, pensou ele. Meena abriu os olhos:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Oh, que horas são? Ai, ai, vou chegar atrasada à fábrica! O patrão vai ralhar comigo!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— À fábrica? O patrão? De que é que estás a falar?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— De manhã e de tarde, trabalho numa fábrica de tapetes, e também vou à escola, mas estou cansada e nunca acabo os deveres. Por isso tenho más notas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Não vás para a fábrica! Tens os olhos vermelhos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— É normal. Os trabalhos de tecelagem são numa cave sombria, iluminada só por um respiradouro. Trabalhamos na penumbra.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Há lá mais crianças?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Claro, só há crianças!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Não voltes para lá! As crianças da tua idade vão à escola, não vão trabalhar!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Os meus pais não podem viver se eu não trabalhar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O menino ficou a pensar:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Se fores à escola, aprendes uma boa profissão e podes ajudá-los melhor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os olhos de Meena iluminaram-se.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Mais tarde quero ser professora de Indi. Hei-de ensinar às crianças que têm o direito de dizer não. Não, não queremos ser explorados, queremos ir à escola, estudar para sermos livres de escolher as nossas vidas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O menino já apertava nas mãos algumas folhas do velho carvalho. As mais brilhantes e as mais vivas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Meteu-as na palma da mão de Meena e desapareceu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;*&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;strong&gt; &lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;strong&gt;Mohamed&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Seguia agora por uma rua branca, deserta. De repente, alguém o interpelou atrás de uma persiana:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Eh, o que andas aqui a fazer?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O menino hesitou:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Ando à procura das crianças deste país, mas nem sequer sei a que país vim parar!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Estás na Argélia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Tem deserto?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Com areia dourada, fluida, que escorre como o mel quando a agarramos com as mãos. Antigamente, ia muitas vezes para esse deserto com o meu pai.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— E porque é que agora já não vais?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Porque já não saímos de casa. Desconfiamos de tudo: dos vizinhos, dos amigos, dos primos!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— E de mim?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Sim, de ti também! Dantes, teria saído à rua para falar contigo. Agora, fico aqui fechado e tenho medo de tudo: de um carro que arranca, de uma persiana que faz barulho, de passos no passeio… Olha, tenho medo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O menino sentiu-se pouco à vontade. Lembrou-se do terrível medo que sentira no caminho de pedra:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— De que é que tens medo?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Da violência!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Mas tu não tens nada a ver com isso!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Pois não, mas quando uma bomba explode num mercado, ou perto de uma escola, fere e mata crianças e pessoas que são contra isso tudo! Mais tarde, se eu vier a ser Presidente da República, vou impedir que haja violência e guerra, para que as crianças tenham direito a viver em paz!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao ouvir as palavras &lt;em&gt;violência&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;guerra&lt;/em&gt;, o menino sentiu o medo voltar. À sua volta, nem uma única árvore para o proteger. Procurou no bolso. Já só tinha duas folhas. Pegou numa e desfê-laem pedaços minúsculos. Imediatamente, uma fila de palmeiras ladeou a estrada.  &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O menino começou a contá-las: uma… duas…, quando se viu a cavalo num ramo do carvalho. Era tudo tão rápido! Por baixo dele desfilava um continente com os seus países. A cabeça andava às voltas, tinha vertigens.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;*&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;strong&gt;Chinesinha&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;strong&gt; &lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Viu-se deitado debaixo dos bambus. Num campo, crianças jogavam futebol. Sentado ao lado, uma menina observava-os.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Não jogas com eles? — perguntou o menino.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Não!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Como te chamas?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Chinesinha. O futebol é para os rapazes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— No meu país, as meninas também jogam à bola.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Chinesinha torceu a sua longa trança.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Sim, mas aqui os rapazes têm direito a fazer mais coisas do que as raparigas. Fazem grandes estudos, têm uma família, comem arroz todos os dias, carne ou peixe!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O menino não estava a compreender!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Rapazes e raparigas são iguais, têm a mesma importância!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— No meu país, não. Aqui, as famílias só têm direito a ter um filho e a maior parte prefere ter um rapaz que,  mais tarde, trabalhará e  poderá ajudar a família a viver.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Uma rapariga é a mesma coisa!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Creio que os adultos pensam que as raparigas são mais fracas, mais frágeis. Sabes, nós, no orfanato, somos muito fortes, corremos muito depressa. Somos campeãs de &lt;em&gt;Tai-Chi&lt;/em&gt;. Sabemos escrever mais de mil caracteres, sabemos construir papagaios gigantes! Porém, quando nos cruzamos na rua com uma mãe e um pai com o seu filho, sentimo-nos tão pequenas como um grão de arroz e perguntamo-nos porque não tivemos a sorte de ser amadas! Mais tarde, hei-de ter uma família, vou ter dois filhos, um menino e uma menina, e hei-de ensinar-lhes que têm o mesmo direito ao amor, à família, a um futuro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O menino pegou na mão de Chinesinha e beijou-a com ternura, como a uma irmã.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As suas duas sombras iguais começaram a brilhar, inundando de luz todos os bambus do país.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;*&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;strong&gt;Antonino&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;strong&gt; &lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desta vez, o menino aterrou numa montanha desprovida de vegetação.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O ramo devia ter-se enganado no caminho. Ninguém poderia viver a uma tal altitude. De repente, um pouco mais abaixo, perto das quinoas, pareceu-lhe ver uma sombra de alguém a cortar juncos. Uma criança sozinha  naquelas montanhas! A sombra veio até ele. Sim, era Antonino, o pastorinho. Estava tão feliz por ver o menino, que até pulava de alegria.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Obrigado por vires ver-me, obrigado! Estou sempre sozinho, na montanha, sozinho com os rebanhos, de dia, de noite, à chuva e ao vento, sob as estrelas. O meu único companheiro é este — e mostrou ao menino o seu instrumento de música. — É um &lt;em&gt;siku, &lt;/em&gt;mas, para o tocar, é muito melhor se formos dois. Numa tarde, estava eu a tocar quando, de repente, alguém me respondeu. Bem, já não estava sozinho. Era maravilhoso. Corri ao longo do rio em direcção às ervas altas e procurei, procurei, chamei, chamei… Não encontrei ninguém!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Então quem é que te tinha respondido? — perguntou o menino, intrigado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— O eco, era só o eco! Tinha tanta vontade de encontrar outros meninos, para nos divertirmos, para cantarmos! Vês, estou a fazer &lt;em&gt;sikus&lt;/em&gt; para cada um deles. Mais tarde, hei-de descer aos vales e dar-lhes os meus instrumentos para que todos nós tenhamos direito a nos divertirmos, a nos encontrarmos para deixarmos de estar isolados!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Antonino pôs-se a tocar e o menino deitou ao vento a sua última folha. Sem esperar mais, subiram, vindas dos vales, crianças em fatos de festa. Cantavam, dançavam, batendo nos bombos, revolteando os &lt;em&gt;ponchos&lt;/em&gt; multicores.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;*&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;strong&gt;Lena&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A música encheu os vales e as montanhas, guiando o menino para longe do planalto, bem longe de Antonino, até à entrada de uma estação de metro. Aí, uma menina pequena rodopiava em volta de um grande lenço. O menino parou, fascinado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Danças como um pássaro!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Adoro dançar, mas não posso estar sempre a dançar. Tenho de me sentar a pedir esmola!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Pedir esmola, o que é isso?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— É pedir dinheiro a chorar, a dizer que estou doente, que o meu pai está doente… É o meu tio, aquele que tem o carro grande, que me obriga a dizer estas coisas e a entregar-lhe o dinheiro todo!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— O quê? Mas é horroroso! É inaceitável!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O menino procurou rapidamente uma folha no bolso mas já não lhe sobrava nenhuma. Os bolsos estavam vazios. Sentia-se desamparado. A voz tremia-lhe.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Já não tenho folhas!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E explicou:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Se estou perto de ti, devo-o a um amigo, um velho carvalho. Levou-me a passear nos seus ramos, pelos quatro cantos da terra. Deu camas de rede, brinquedos. Com as suas folhas, deu braçadas de esperança, mas agora já se acabaram!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Lena pegou no acordeão e abriu suavemente os foles. Deixou escapar uma nuvem de folhas. O menino, maravilhado, segui-as com os olhos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Tu também conheces o velho carvalho?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Claro! Eu e as minhas irmãs contamos muitas vezes a grande aventura.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— A grande aventura?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— O futuro, se preferires.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Será que podes dizer-me o futuro das crianças da terra inteira?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Lena pegou numa folha e começou a ler:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Todas as crianças da Terra vão unir-se para, juntas, defenderem os seus direitos: o direito ao respeito, o direito a uma família, o direito à liberdade de opinião e de expressão, o direito à educação, o direito ao lazer, o direito à saúde, o direito a nunca mais serem vendidas nem maltratadas, o direito à justiça, o direito ao amor. Em suma, o direito a viver as suas vidas de criança.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Não vai haver mais guerras?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Quem quiser a guerra vai para um planeta seco.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— E na Terra, todas as crianças vão ter tempo para brincar, para sonhar?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Sim. Até serão criadas aulas de sonho nas escolas!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— E vai haver amor para todos, rapazes e raparigas?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Não faltará o amor a ninguém.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Então, todas as crianças serão felizes à face da Terra?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Sim, poderão crescer e tornar-se pais respeitadores dos direitos dos seus filhos!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Sabes mais alguma coisa?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Sim, que o velho carvalho e a árvore dos direitos, e todas as crianças que encontraste estão à tua espera.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Todas? Até as meninas presas? Aquela criança maltratada? As crianças de lado nenhum?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Sim, todas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O menino nunca se sentira tão feliz. Correu para o velho carvalho. Lá estavam os meninos, uns encostados ao ramo, outros sentados contra o tronco. O menino correu pelo meio deles e, estendendo os braços para a árvore protectora, declarou:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Olhem, todos juntos formamos as folhas desta árvore com a mesma seiva a correr nos ramos. Somos tão fortes como ela. De futuro, não estaremos mais sós e nunca mais teremos medo. Esta árvore é a árvore dos nossos direitos. Levem as suas folhas e plantem as suas sementes. Amanhã teremos uma floresta magnífica!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As crianças levantaram-se e cantaram em uníssono, em todas as línguas, a canção que abre a porta da felicidade. Ela voou à volta do planeta, para lá dos oceanos, para lá das montanhas, pelo meio dos desertos e nas grandes cidades, até ao coração de todas as crianças.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;Dominique Dimey&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;em&gt;C’est le droit des enfants !&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;Arles, Actes Sud, 2001&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;(tradução e adaptação)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;</description>
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  <pubDate>Mon, 30 May 2011 19:27:01 GMT</pubDate>
  <title>Vergonha</title>
  <author>hpt</author>
  <link>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/4007.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Uma tarde de Primavera. O largo da estação do comboio. Um grupo de homens a beber cerveja em frente de um quiosque. Não há mais ninguém. Um homem desce de um autocarro. Tem uma mala na mão, passa pelos outros homens e entra no edifício da estação. O átrio está quase vazio.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O funcionário encontra-se na bilheteira.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Um bilhete para o aeroporto de Frankfurt, por favor.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Ida e volta?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Não, só ida.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Tem cartão de desconto?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Sim, para a segunda classe.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Nove euros e vinte.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O homem desliza uma nota de dez euros para a caixa que se encontra por baixo do vidro. O empregado imprime o bilhete e entrega-o através da caixa, juntamente com os oitenta cêntimos de troco. O homem recolhe o bilhete e o dinheiro. Procura o painel de informações electrónico e vê que o comboio para Frankfurt é um dos próximos a chegar. Vai parar no cais número três. Desce as escadas onde está sentado um grupo de jovens. Também há alguns cães. Uma rapariga levanta-se e dirige-se a ele:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Tens uma moeda?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O homem, que ainda leva o troco na mão, entrega-o à rapariga.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Obrigada.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O homem segue então pela passagem subterrânea e sobe as escadas para a plataforma número três. O cais onde se encontra está praticamente vazio, assim como o cais em frente. Os quiosques estão fechados, não se vêem funcionários da estação, apenas alguns passageiros andam por ali, sozinhos. O altifalante anuncia a passagem de um alfa pendular. No mesmo instante, passa uma seta prateada. Por alguns segundos toda a estação da pequena cidade estremece. O homem percorre a plataforma de uma ponta à outra. Depois, o altifalante anuncia a entrada do inter-regional de Stralsund para Frankfurt. O comboio chega. Uma porta abre-se diante do homem. Desce uma senhora com uma expressão indignada que exclama:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Parece impossível! Que vergonha!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O cobrador desce pela porta do vagão-restaurante, que se encontra entre a 1ª e a 2ª classe. Dirige-se ao homem e pergunta-lhe:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Tem bilhete para a 1ª classe?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Não, para a 2ª.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Então, suba lá mesmo no fim, por favor.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Como?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Sim, lá ao fundo. Vá depressa para a última carruagem.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Mas porquê?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Acredite que é melhor para si.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Mas não vou conseguir chegar a tempo.&lt;/p&gt;
&lt;a name=&quot;cutid1&quot;&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class=&quot;ljcut&quot; text=&quot;Continuação&quot;&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Vai, sim, nós esperamos. Aqui à frente já não há lugar.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Muito bem. Obrigado pelo conselho — responde o homem.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Puxa os rodízios da mala e corre para a última carruagem, arrastando a mala atrás de si. Os outros passageiros já subiram. Volta a encontrar a senhora que, ao chegar ao cimo das escadas e ao reparar no homem, repete novamente:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— É uma vergonha! Uma autêntica vergonha!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A senhora faz sinal na direcção do comboio. O homem olha e vê, atrás da janela da carruagem, um grupo de skinheads. Uns estão sentados, os restantes encostados à janela. Alguns têm latas de cerveja na mão. Um skinhead, a rir-se, aponta para o homem. Um segundo tenta abrir a janela, mas não consegue. Cospe, com raiva, contra o vidro, na direcção do homem e da senhora, e o cuspo fica a deslizar.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— No seu lugar, não apanhava esse comboio.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Mas então, perco o meu voo? — diz o homem.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Olha indeciso para a carruagem. A senhora meneia a cabeça, pega na mala e desce as escadas. Ouve o comboio pôr-se em andamento e diz para si, a meia voz:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Quem semeia ventos…&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;Karlhans Frank (org.)&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;em&gt;Menschen sind Menschen. Überal.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;München, C. Bertelsmann Verlag, 2002&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;(Tradução e adaptação)&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;</description>
  <comments>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/4007.html</comments>
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  <category>reflexão</category>
  <category>violência</category>
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  <pubDate>Fri, 27 May 2011 06:51:55 GMT</pubDate>
  <title>A Fome no Mundo Explicada a Meu Filho - Jean Ziegler</title>
  <author>hpt</author>
  <link>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/3650.html</link>
  <description>&lt;p&gt;— &lt;em&gt;Quantas pessoas no mundo estão actualmente ameaçadas de morrer de fome?&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— A FAO (&lt;em&gt;Food and Agricultural Organization&lt;/em&gt;),Organização para a Alimentação e a Agricultura das Nações Unidas, avalia, no seu último relatório, em mais de 30 milhões o número de pessoas que morreram de fome em 1999 e, para o mesmo período, em mais de 828 milhões de seres torturados pela desnutrição grave e permanente. São homens, mulheres e crianças que, devido à falta de alimentos, padecem de lesões frequentemente irreversíveis. Ou morrem num prazo mais ou menos breve, ou vegetam num estado de deficiência grave – cegueira, raquitismo, desenvolvimento precário da capacidade cerebral, etc.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Tomemos o exemplo da cegueira: em cada ano, sete milhões de pessoas, normalmente crianças, perdem a vista, na maioria das vezes por falta de uma alimentação suficiente ou como consequência de enfermidades vinculadas ao subdesenvolvimento. Cento e quarenta e seis milhões de cegos vivem nos países da África, da Ásia e da América Latina. Em 1999, Gore Brundtland, directora da Organização Mundial da Saúde, ao apresentar o seu plano “Visão 2020” em Genebra, disse: &lt;em&gt;Oitenta por cento dos afectados na vista seriam perfeitamente evitáveis&lt;/em&gt;. Sobretudo por meio de uma dose regular de vitamina A para as crianças pequenas. Em 1990, havia 822 milhões de pessoas severamente afectadas pelo flagelo da fome. Podemos ler de duas maneiras estas estatísticas. Primeira leitura: as vítimas da subalimentação aumentam sem cessar no mundo, especialmente nos países do Sul; mas se comparamos os mártires do flagelo da fome com a progressão demográfica da população mundial, constatamos um &lt;em&gt;ligeiro retrocesso&lt;/em&gt;. Em 1990, 20% da humanidade sofria de subalimentação extrema; oito anos depois, “só” 19%.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;em&gt;— Onde vivem as pessoas mais gravemente subalimentadas?&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— No sul e leste da Ásia, 18% dos homens, mulheres e crianças, padecem de uma severa desnutrição. Na África, o seu número alcança 35% da população continental. Na América Latina e no Caribe, 14%. As três quartas partes dos “gravemente subalimentados” do planeta são gente do campo; a outra quarta parte são habitantes das periferias que se amontoam em torno das metrópoles do Terceiro Mundo.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;em&gt;— A nossa Terra poderia alimentar convenientemente em cada dia todos os seus habitantes?&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Não só isso, mas poderia alimentar pelo menos o dobro da população mundial actual. Hoje em dia somos quase seis biliões de seres humanos na Terra. Há mais de quinze anos, a FAO elaborou um relatório no qual assinalava que o mundo, no estado actual das forças de produção agrícola, poderia alimentar sem problema mais de doze biliões de seres humanos. Alimentar quer dizer fornecer a cada homem, mulher e criança uma ração equivalente a 2.400 ou 2.700 calorias diárias, uma vez que as necessidades alimentares variam segundo os indivíduos, em função do trabalho que realizam e das zonas climáticas onde vivem.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;em&gt;— O flagelo da fome não é então uma fatalidade?&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— De modo algum. Se a distribuição de alimentos na Terra fosse justa, haveria comida suficiente para todo o mundo.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;em&gt;— Por que razão nunca ninguém nos fala na escola da fome no mundo e das pessoas que a provocam e daquelas que a combatem?&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Para mim, isso também é um mistério. Muitos professores de institutos e de escolas são pessoas abertas, generosas e estão profundamente solidarizadas com a luta dos povos do Terceiro Mundo. Muitos deles alertam os seus alunos quando se declara uma fome grave e promovem-se colectas públicas. No entanto, não sei de nenhuma escola onde o tema da fome, que mata todos os dias mais gente do que todas as guerras do planeta juntas, figure no seu programa. Não existe nenhum tipo de ensino onde se analise, se discuta o problema da fome, se examinem as suas raízes e os meios de lhe dar um fim.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Mas os técnicos internacionais dizem as coisas bem claras. Ouça, por exemplo, esta frase que é a conclusão de um relatório da FAO de 1998: &lt;em&gt;Recent trends give no room for complacency as progress in some regions has been more than offset by a deterioration in others[1]. &lt;/em&gt;Isto quer dizer que as batalhas ganhas numa frente são imediatamente anuladas pelas derrotas sofridas noutra. Os bons sentimentos não bastam, são um luxo para os filhos dos ricos. A calamidade da fome manifesta-se de mil maneiras. O seu aparecimento e os seus efeitos exigem análises precisas e pormenorizadas. Mas a escola não diz nada, não cumpre a sua função. Os adolescentes frequentemente saem dela cheios de bons sentimentos e de uma vaga convicção de solidariedade, mas nunca com um verdadeiro conhecimento, uma clara consciência das origens e dos estragos da fome.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;em&gt;— Como se a fome fosse um tabu?&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Exactamente. Um tabu que dura há muito tempo. Já em 1952 o brasileiro Josué de Castro dedicava todo um capítulo do seu célebre livro &lt;em&gt;Geopolítica da fome&lt;/em&gt; a esse “tabu da fome”. A sua explicação é interessante: as pessoas sentem-se tão envergonhadas por saber que uma grande parte dos seus semelhantes morre por falta de alimento que ocultam o escândalo com um espesso silêncio. Esta vergonha é compartilhada pela escola, pelos governos e pela maioria de nós.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O nível de alimentação está em relação directa com o nível de bem-estar e com o nível de saúde das pessoas. Por um lado, onde não se come o suficiente, encontramos pobreza, miséria, desnutrição, doença, fome e morte. Por outro, no extremo oposto, onde há meios de subsistência e alimentos, encontramos esperança desde o nascimento, saúde e vida.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Já no ventre da mãe, o bebé sofre as consequências desta desigualdade, inclusivamente na constituição de seu intelecto. A desnutrição da mãe durante a gestação — quando o bebé deve desenvolver o conjunto de células que o constituirão como um ser dotado de todas as suas faculdades — diminui as possibilidades de que a criança nasça, pois a placenta — alimento, água, oxigénio e anticorpos do bebé instalado no útero — não escapa aos danos causados pelas carências de alimentação. A mãe deve nutrir-se convenientemente desde a formação do embrião. A constituição física e intelectual da criança, a sua capacidade de desenvolvimento e a sua força para o trabalho também dependem da alimentação que vai receber desde o momento do seu nascimento. A criança chega ao mundo num ambiente condicionado: ou com muitos privilégios ou com muitas privações. Nos primeiros anos da história da humanidade, o mundo era aquele em que o macho mais forte se apropriava da comida da qual necessitavam a mulher e a criança. Hoje, a história não mudou em absoluto, porque os poderosos continuam a apropriar-se da comida.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;em&gt;— Por quê esses esqueletos da fome? Por quê esse martírio quotidiano, interminável, para tantas centenas de milhões de seres humanos?&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— A causa principal das hecatombes por subalimentação e por fome aguda é a desigual distribuição das riquezas do nosso planeta. Esta desigualdade é negativamente dinâmica: os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Em 1960, 20% dos habitantes mais ricos do mundo desfrutavam de uma renda 31 vezes superior à dos 20% mais pobres. Em 1998, o rendimento dos 20% mais ricos é 83 vezes superior à dos 20% mais pobres. A concentração do rendimento e das riquezas nas mãos de uns poucos progride a grande velocidade.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O conceito de desigualdade soa-nos irreal e o seu significado é insuficiente. O termo aparece num mundo que já não se assusta com as estatísticas. As cifras acima referidas escondem uma realidade de sofrimento e de desespero. A desigualdade negativamente dinâmica que rege a ordem actual do mundo produz a seguinte situação: por um lado, um poder político, económico, ideológico, científico e militar sem limites identificáveis, exercido por uma escassa oligarquia transnacional; por outro, a falta de vida, o desespero e o flagelo da fome vividos por centenas de milhões de seres anónimos. A oligarquia decide o destino da multidão. A massa de vítimas anónimas padece, impotente, a sua própria agonia. Só a brutal imbecilidade de um regime de classes sociais existentes antes do seu nascimento, de ideologias discriminatórias, de privilégios defendidos pela violência explica a desigualdade entre os seres humanos.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A política deve velar para que todos possam saciar a fome. Seria horrível tomarmos como natural o facto de todos os anos morrerem dezenas de milhões de pessoas por causa da subalimentação crónica e da fome aguda. A fatalidade não preside à ordem mortal do mundo. Basta lembrar que, no actual estado das forças produtivas agrícolas, seria possível alimentar sem problemas doze mil milhões de pessoas. Alimentar significa proporcionar a cada indivíduo 2.600 calorias por dia. A população actual do mundo chega a menos de seis mil milhões de pessoas.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Conclusão: estamos diante de uma falta contingente e não de uma falta objectiva de alimentos. Por outras palavras, o problema da grave fome no mundo é um problema social. As centenas de milhões de pessoas que morrem todos os anos de subalimentação aguda morrem por causa da injusta distribuição de alimentos disponíveis no planeta. A Acção contra a Fome, organização não-governamental (ONG), de um compromisso exemplar, constata que “um grande número de pobres no mundo carece do alimento necessário, na medida em que a produção alimentar se ajusta à demanda solvente” Quem tem dinheiro, come. Quem não tem, morre lentamente de fome. Trata-se portanto de civilizar o actual jugo do capitalismo selvagem. A economia mundial é fruto da produção, distribuição, intercâmbio e consumo de alimentos. Afirmar a autonomia da economia em relação à fome é absurdo ou, pior ainda, é um crime. Não se pode abandonar a luta contra essa catástrofe ao livre jogo do mercado. Todos os mecanismos da economia mundial devem submeter-se a este imperativo primordial: vencer a fome, alimentar convenientemente todos os habitantes do planeta. Para impor este imperativo é preciso criar uma estrutura jurídica internacional, apoiada em tratados e normas. Jean-Jacques Rousseau escreveu: “Entre o fraco e o forte, é a liberdade que oprime e a lei que liberta”. A liberdade total do mercado é um sinónimo de opressão; a lei é a primeira garantia da justiça social.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O mercado mundial necessita de normas e de uma restrição imposta pela vontade colectiva dos povos. A luta contra a maximização do lucro como única motivação dos protagonistas que dominam o mercado e a luta contra a aceitação passiva da miséria são imperativos urgentes. É preciso fechar a Bolsa das matérias-primas agrícolas de Chicago, combater a deterioração constante das relações de intercâmbio e acabar com a estúpida ideologia neo-liberal que deslumbra a maioria dos governos dos países ocidentais. O ser humano é o único vertebrado que pode sentir na sua consciência o sofrimento do outro. Será que a constituição de uma consciência da identidade, da solidariedade radical com aquele que sofre se infere de um projecto utópico? Não. No decurso da história já ocorreram alguns saltos qualitativos análogos. Por exemplo, o nascimento do Estado. Numa época remota, os humanos fizeram uma escolha fundamental: até então, a solidariedade, a identificação com o outro limitavam-se à família, ao clã, em consequência, àqueles cujo rosto era conhecido e cuja presença física era sensível.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Com o nascimento da nação e do Estado, o ser humano fez-se pela primeira vez solidário com aqueles que não conhecia e com os que provavelmente nunca encontraria. Acabava de nascer um sentimento de identidade nacional, algumas instituições de solidariedade, uma consciência supra-familiar, uma lei comum. A única identidade humana válida é a que nasce do encontro real ou imaginário com os outros, do acto de solidariedade. Não pode haver um mundo dentro do mundo, uma inserção de bem-estar num mundo de dor. É inaceitável uma economia mundial que relega para o não-ser a sexta parte da humanidade. Se o flagelo da fome não desaparecer rapidamente do nosso planeta, não haverá humanidade possível. Portanto, é preciso reintegrar na humanidade essa “fracção sofredora”, que hoje está excluída e perece na noite.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;1 &lt;em&gt;Os últimos dados não permitem contemplações, uma vez que o progresso numas regiões tem sido anulado pela deterioração noutras.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;Jean Ziegler&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;em&gt;A Fome no Mundo Explicada a Meu Filho&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;Petrópolis, Editora Vozes, 2002&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;(Excertos adaptados)&lt;/p&gt;</description>
  <comments>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/3650.html</comments>
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  <category>economia</category>
  <category>reflexão</category>
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  <pubDate>Sat, 07 May 2011 06:11:34 GMT</pubDate>
  <title>Mãe Sebona vai às compras</title>
  <author>hpt</author>
  <link>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/3446.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Mãe Sebona vivia numa colina, bem longe da loja.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Para chegar à loja, tinha de percorrer um longo caminho, descer a colina, transpor o rio, entrar e sair dos rochedos, subir e descer a encosta, atravessar o vale e os campos de milho, até chegar à estrada poeirenta, onde se encontrava a pequena loja branca com o telhado de zinco vermelho, à sombra das seringueiras.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Era um trajecto bem longo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Mãe Sebona tinha cinco filhos: Thandi, Sipho, Lindiwi, Themba e Busisiwe, que nunca tinham ido à loja, porque a caminhada era extensa e a mãe pensava que eles se cansariam. Por muito que lhe pedissem para ir, a mãe respondia sempre “Não!”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Contudo, um dia, Sebona precisou mesmo de ir às compras.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Por favor, mãe, podemos ir à loja contigo? — pediram Thandi, Sipho, Lindiwi, Themba e Busisiwe ao mesmo tempo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Não — respondeu a mãe. — É muito longe e vocês cansam-se. Ficam com dores nos pés, nas pernas e nas costas. Depois choram e queixam-se. Além de ficarem cheios de calor.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Não ficamos nada, mãe — disseram os filhos em coro. — Não vamos ficar com calor, nem ficar cansados, e não vamos queixar-nos. E também não vamos ter dores nos pés, nas pernas, ou nas costas. Somos fortes e podemos ajudar-te a carregar as compras, que são demasiado pesadas para ti.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Mãe Sebona acabou por concordar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;a name=&quot;cutid1&quot;&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class=&quot;ljcut&quot; text=&quot;continuação&quot;&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;As crianças ficaram muito excitadas. Colocaram-se em fila indiana atrás da mãe e começaram a caminhada, a correr e a saltar. Desceram a colina, transpuseram o rio, entraram e saíram dos rochedos, subiram e desceram a encosta, atravessaram o vale e chegaram à estrada poeirenta. Um pouco mais adiante, ficava a loja com o telhado de zinco vermelho e as paredes brancas, à sombra das seringueiras.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Sanibonani — saudou o dono da loja. — Bom-dia, Mãe Sebona. Bom-dia, meninos. Vejo que trouxe os seus filhos hoje, Mãe. Que bonitos e fortes estão!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Sawubona, Baba — respondeu a mulher, orgulhosa. — Os meus filhos vão ajudar-me a carregar as compras.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Enquanto as crianças fitavam, com os olhos esbugalhados, todos os artigos de interesse que havia na loja, o lojista pegou numa caixa de cartão e colocou-a em cima do balcão. Mãe Sebona disse-lhe o que precisava: farinha de milho, açúcar, café, maçãs e uma forma de pão. Depois murmurou, baixinho, “e um saco de rebuçados”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;O homem sorriu e, muito calmamente, colocou um saco de rebuçados na caixa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Quando chegou a altura de ir embora, as crianças dispuseram-se a ajudar. Thandi pegou no saco de farinha, porque era o mais pesado. Sipho pegou no açúcar, Lindiwe nas maçãs, Themba no pão, e Busisiwe pegou no café. Mãe Sebona pegou na caixa e todos colocaram os embrulhos à cabeça.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Mãe, porque precisas da caixa? — perguntou Busisiwe. — Estamos a carregar as comprar por ti.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Uma caixa faz sempre jeito — respondeu a mãe. — Posso vir a precisar dela.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Todos se colocaram atrás da mãe e começaram a percorrer a estrada poeirenta. Enquanto atravessavam o campo de milho, Busisiwe viu borboletas nas espigas. A menina queria muito apanhar uma, mas, se corresse e saltasse, a lata de café cair-lhe-ia da cabeça.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Mãe! — chamou Busisiwe.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Sim, Busi — disse a mãe.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Esta lata faz-me muito calor na cabeça — queixou-se Busisiwe. — Estou a ficar cheia de calor e ela está sempre a dar-me cabeçadas. Podes levá-la na tua caixa?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;A mãe colocou a lata na caixa e a menina já pôde correr e caçar borboletas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Foi então que Themba a viu. “Olha só”, pensou o rapaz, “a Busi não leva nada. E está toda divertida. Não me apetece nada ir em filinha indiana a carregar este pão. Quero brincar com ela.”&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Mãe! — chamou Themba.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Sim, Themba — disse a mãe.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Este pão está a fazer-me dores no pescoço. Tenho de manter a cabeça muito direita, senão o saco de plástico cai ao chão. Podes levá-lo na tua caixa, por favor?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;A mãe pegou no pão e colocou-o dentro da caixa. Themba acercou-se de Busisiwe e ambos correram pelo vale adiante. Foi então que Lindiwe viu Themba a correr atrás de Busisiwe. “Olha-me só para aqueles preguiçosos!”, disse a rapariga para consigo. “Vou eu aqui a carregar estas maçãs pesadas e eles a brincarem às caçadinhas!”&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Mãe! — chamou Lindiwe.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Sim, Lindi — disse a mãe.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Estas maçãs são pesadas e estão sempre a bater-me nas orelhas. Já estou a ficar com dores nos ouvidos. Podes levá-las na tua caixa, por favor?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;A mãe pôs as maçãs na caixa e Lindiwe pôde correr pelo vale e ir ter com Themba e Busi, que já estavam na encosta. Todos acenaram para os irmãos que ainda seguiam atrás da mãe. Sebona, Thandi e Sipho arfavam e ofegavam enquanto subiam a encosta. Quando chegaram ao cume, Sipho viu Lindi, Themba e Busi a brincar nos rochedos. “E por que razão devo eu carregar este açúcar pesado quando os meus irmãos estão a divertir-se?”&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Mãe! — chamou Sipho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Sim, Sipho — suspirou a mãe.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Já me doem as pernas de carregar este açúcar pesado. E também tenho dores na cabeça e no pescoço. Podes levá-lo na tua caixa, por favor?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;A mãe suspirou novamente e colocou o açúcar na caixa. Sipho correu em direcção aos rochedos. Quando a mãe e Thandi chegaram aos rochedos, Sipho, Lindi, Themba e Busi estavam a chapinhar no rio. “Tenho tanto calor”, pensou Thandi. “E sou a única a ajudar. Este saco de farinha é tão pesado!”&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Mãe! — chamou Thandi.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Sim, Thandi — disse a mãe, parando de novo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Doem-me os pés por causa das pedras. Este saco é muito pesado e magoa-me o pescoço e as costas. Podes pô-lo na tua caixa, por favor?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Está bem — assentiu a mãe, suspirando e pondo o saco na caixa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Thandi correu para a água.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Quando a mãe chegou ao rio, viu os filhos no cimo da colina, a correr e a rir. “São estes os meus filhos cansados…”, pensou. “As crianças que tinham calor, pescoços, cabeças, pés e pernas doridos. As crianças que iam ajudar-me a transportar as compras!”&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Sebona atravessou o rio devagar e sentou-se num grande rochedo do outro lado da margem. Pôs a caixa no chão e colocou as mãos nos joelhos. Deixou cair a cabeça e parecia muito cansada. Thandi olhou para trás e viu a mãe.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— O que se passa com a nossa mãe? — perguntou aos irmãos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Os filhos correram todos para junto de Sebona.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Mãe, mãe, o que se passa? — perguntaram.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Ó filhos, dói-me a cabeça, o pescoço, as pernas e os pés. Estou cheia de calor e tenho os ombros e os joelhos cansados.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Pobre mãe! — exclamaram as crianças. — Nós ajudamos-te!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Então, Thandi pegou no saco de farinha, Sipho no açúcar, Lindiwe nas maçãs, Themba no pão e Busisiwe levou o café. Seguiam em fila indiana pela colina acima, com a mãe a fechar o cortejo, com a caixa à cabeça, e a sorrir. Quando chegaram a casa, puseram as compras todas na mesa da cozinha.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Aqui tens, mãe — disseram os filhos, orgulhosos. — Carregámos as compras todas. Já te sentes melhor?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Sinto — respondeu Mãe Sebona a sorrir. — Sinto-me muito melhor. Tenho uns filhos bons e fortes. Mas vocês não carregaram apenas as compras…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;As crianças ficaram admiradas. Então, a mãe fê-las alinhar diante dela, e mandou-as fechar os olhos e estender as mãos. Depois, abriu o pacote de rebuçados estaladiço e colocou um rebuçado em cada mão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;E também ela comeu dois rebuçados.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Muito obrigado, mãe, muito obrigado! — exclamaram as crianças. — Ir às compras é divertido! Também podemos ir contigo da próxima vez?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Sheila Mac; Doret Ferreira&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;em&gt;Mama Sebona’s Shopping &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Cape Town, Tafelberg, 2008&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;(Tradução e adaptação)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;</description>
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  <category>histórias</category>
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  <pubDate>Sat, 07 May 2011 06:07:02 GMT</pubDate>
  <title>Os pequenos acrobatas do rio</title>
  <author>hpt</author>
  <link>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/3118.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Na aldeia de Sakata,&lt;/strong&gt; os meninos brincam à volta da árvore. Mas isso não os impede de estar atentos a qualquer pequeno ruído que venha do Congo, o grande rio que corre perto dali. Estão à espera de que o barco passe.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Hei! Olha o barco! Já lá vem o barco-correio!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Para Kembo é um dia importante. Quando o barco que transporta tantas mercadorias maravilhosas abrandar a velocidade, ele vai aproximar-se e pôr as mãos no casco. Até há-de subir a bordo. A manobra é arriscada, mas Kembo está decidido.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Mido, Eloni, vamos! Temos de ser os primeiros a acostar!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Enquanto Mido e Eloni pegam nos remos do pangaio, Kembo grita:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Cuidado! A piroga vai meter água! Vejam que tem um buraco à frente!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Kembo tapa o buraco com um pouco de barro.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Agora podemos ir. A minha mãe quer que lhe traga sabão e uma &lt;em&gt;T-shirt&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;As folhas dos nenúfares agitam-se à passagem deles. Escondido debaixo da umbela de um cogumelo, um sapo está quase a apanhar um insecto. Que sossego! Mas, de repente, o sapo esconde-se, e os pássaros levantam voo com grande alarido. O que terá causado toda aquela agitação, pregando um susto de morte às crianças? A serpente negra que assombra o rio!&lt;/p&gt;
&lt;a name=&quot;cutid1&quot;&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class=&quot;ljcut&quot; text=&quot;continuação&quot;&gt;Ela acaba de escapulir-se por entre as ervas altas. Kembo começa então a entoar a canção de &lt;em&gt;Sakata&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;a Nossa Aldeia&lt;/em&gt;, uma canção que dá coragem.
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;em&gt;No rio agitado, eh! eh!&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;em&gt;É preciso remar com força eh!&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;em&gt;No rio agitado&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;em&gt;É preciso remar com força.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;em&gt; &lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ao longe, outras crianças pescadoras retomam o refrão. Kembo e os amigos voltam a subir a corrente com mais vigor. Em breve, a piroga sai das águas calmas da floresta e entra nas do rio. No sítio em que os dois braços de água se encontram, as ondas fervilham, formam um turbilhão. Mido e Eloni gritam:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Temos medo! Kembo, voltamos para trás!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Nem pensar — diz Kembo. — Não vamos desistir!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Um vento forte arrasta a piroga. O pânico apodera-se dos amigos de Kembo. Mas Kembo sabe desviar-se dos perigos, ultrapassar as armadilhas da água, e diz:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Quietos! Nada de fazer força. Temos de nos deixar levar pela corrente.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A piroga é sacudida por todos os lados. E depois, de repente, ei-la que sai do turbilhão.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Kembo e os amigos esperam com impaciência a aproximação do barco, que abranda mas não pára. Os passageiros olham para as crianças, admirados. Alguns gritam:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Afastem-se! Os redemoinhos são perigosos!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;À primeira onda, a piroga sobe até à crista. Os passageiros do barco ficam embasbacados perante a destreza de Kembo e dos amigos, que, certos do sucesso da sua proeza, cantam com toda a força. Da margem, os pais seguem o espectáculo.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Oh! Que habilidade! Que acrobatas corajosos! Será que vão conseguir encostar o barco? Eu nem me atrevo a olhar!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Alguns pais gritam, manifestando o seu medo.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Os nossos filhos trazem os amuletos, consigo ver daqui as fitas vermelhas!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Os rapazes não conseguiram a acostagem. O choque contra o flanco do barco foi duro e a emoção forte quando as crianças ouviram rebentar o pedaço de barro que tapava o buraco da piroga. Mas Kembo e os amigos mantiveram o sangue-frio.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Depressa, a outra piroga — grita Kembo.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A outra piroga pertence, seguramente, a um pescador que já entrou no barco-correio.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Kembo salta para dentro, pega numa amarra e atira-a para as mãos que se agitam acima dele. De repente, a corda estica.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Consegui! — grita Kembo, que já está a bordo.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Mas Eloni e Mido têm menos sorte, a piroga volta-se e ei-los na água. Falharam!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A bordo do barco-correio há um autêntico mercado. Vende-se lá de tudo. Vê-se uma coisa amarela e preta a brilhar na penumbra. Será um brinquedo? Kembo aproxima-se. O produto à venda é uma jibóia.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— &lt;em&gt;Nioka! Nioka!&lt;/em&gt; (Serpente! Serpente!) — grita Kembo, cheio de medo. E foge a correr.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Cheira muito bem debaixo do tejadilho de madeira. Os passageiros saboreiam a mandioca que as mulheres acabam de fritar em óleo de palma. Fazem-se trocas e conversa-se. Os habitantes ribeirinhos acabam de acostar, trazem peixe e banana para fritar. Mas Kembo não pode atrasar-se, tem compras a fazer. Escapa-se por entre as mercadorias. Chega diante da exposição de conservas, de vestidos e de tangas, onde, finalmente, encontra o que procurava. Enquanto espera que o sabão e a &lt;em&gt;T-shirt&lt;/em&gt; sejam embrulhados, Kembo vê, ao fundo do barco, um carro carregado de caixotes.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;São medicamentos para um hospital da Cruz-Vermelha, explica o comerciante.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;— Pega! Aqui estão as compras para a tua mãe!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A sirene apitou. Rápido, rápido!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Tem de sair depressa, que o barco vai ganhar velocidade! Kembo esconde o embrulhinho com segurança dentro do calção e, &lt;em&gt;splash!&lt;/em&gt;, mergulha. Nada como um peixe até chegar junto de Eloni e Mido, que estão na água.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O barco afasta-se. Baloiçados pelo turbilhão dos remoinhos, as crianças rivalizam em agilidade e saltam para a piroga virada. Mido e Eloni estão desiludidos! Mas o que aconteceu não passa de uma oportunidade perdida! Da próxima vez que o barco-mercado passar, subirão a bordo com o Kembo. Dessa vez, é certo que vão conseguir!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;  &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;Dominique Mwankumi&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;em&gt;Les petits acrobates du fleuve&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;Paris, l’école des loisirs, 2000&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;(Tradução e adaptação)&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;</description>
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  <category>infância</category>
  <category>histórias</category>
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  <pubDate>Sat, 07 May 2011 05:44:20 GMT</pubDate>
  <title>Faz aos outros o que…</title>
  <author>hpt</author>
  <link>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/2873.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Um dia a Vida decidiu dar uma volta pelo mundo.&lt;/strong&gt; Já tinha viajado muito quando encontrou um homem doente que tinha o corpo tão inchado que mal se podia mexer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Quem és tu? — perguntou o homem ao vê-la.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Sou a Vida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Então, já que és a Vida, será que me podias tirar este inchaço que nem me deixa mexer nem trabalhar?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Sim, eu poderia devolver-te a saúde, mas tu depressa te esquecerás de mim e da doença de que padeces.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Como iria eu esquecer-me? Um milagre assim recordá-lo-ei toda a minha vida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Está bem! Vou curar-te. No entanto voltarei daqui a sete anos para verificar se és um homem de palavra — disse a Vida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;Esta pegou num pouco de pó do caminho e espalhou-o na cabeça do hidrópico que, de imediato, ficou são e ágil.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;A Vida prosseguiu a viagem e andou muitos dias até que chegou à cabana de um leproso.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Quem é? — perguntou o leproso.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Eu sou a Vida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— A Vida? — replicou o doente. — Pois então podias curar a minha lepra.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Claro que posso — disse a Vida. — Mas se o fizer, logo esqueces a tua doença e o teu benfeitor.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Impossível! Toda a minha vida hei-de recordar-me desse milagre — assegurou o leproso.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Bem, voltarei dentro de sete anos e então veremos se sabes manter as promessas — replicou a Vida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;Pegou então numa mão-cheia de terra da estrada, espalhou-a na cabeça do leproso, e a lepra, como por encanto, desapareceu, deixando ficar o homem com a pele limpa e jovem.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;a name=&quot;cutid1&quot;&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class=&quot;ljcut&quot; text=&quot;continuação&quot;&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;A Vida despediu-se e pôs-se de novo a caminho. Andou mais alguns dias e, por fim, encontrou um cego. Este, ouvindo que passava alguém estranho junto à sua cabana, perguntou:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Quem és tu?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Sou a Vida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— És realmente a Vida? — continuou o cego. — Então suplico-te que me devolvas a vista.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Sim; vou devolver-te a vista, mas não podes esquecer-te nem de mim nem da tua cegueira — disse a Vida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— De modo algum! Serei tão feliz que me lembrarei toda a vida e vou-te agradecer até à morte — prometeu o cego.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Muito bem. Agora vou devolver-te a vista. Voltarei daqui a sete anos e veremos então se a tua palavra tem algum valor e se é de fiar — disse a Vida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;A Vida baixou-se, recolheu um pouco de poeira do chão e espalhou-a solenemente na cabeça do cego, que, de imediato, recuperou a visão e começou a gritar de alegria.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;Sete anos passaram. Muitas coisas mudaram. O hidrópico, o leproso e o cego começaram a trabalhar esforçadamente para a sua família. O mundo estava muito diferente. Nessa altura, a Vida empreen­deu de novo a sua caminhada pela Terra para poder visitar aqueles a quem tinha socorrido e curado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;Primeiro fingiu-se cega e começou por visitar a casa do homem a quem tinha devolvido a visão. Bateu à porta:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Quem é? — perguntou aquele que tinha sido cego.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Sou um homem cego, posso passar a noite em tua casa?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Lamento — gritou o homem — Aqui não há espaço. Os cegos são teimosos e eu não quero gente dessa em minha casa. Segue o teu caminho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Eu é que lamento — disse a Vida. — Mas já previa isto há sete anos. Tu eras cego e eu devolvi-te a vista. Nessa altura tu prometeste-&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;-me que não te esquecerias nem de mim nem da tua doença; pelo contrário...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— É que eu...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;Era tarde de mais, pois a Vida tinha pegado num pouco de pó do chão e espalhou-o na cabeça do ingrato. Este, no mesmo instante, voltou a ficar cego.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;A Vida retomou a sua caminhada e foi visitar o antigo leproso. Vestiu-se como um leproso e bateu à porta da cabana.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Quem é? — perguntou o homem.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Sou um pobre leproso. Posso passar a noite em tua casa?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Um leproso? Podes é ir-te embora; não quero que me pegues a tua doença.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Já to tinha dito — replicou a Vida. — Há sete anos curei-te e tu  prometeste-me que  nunca te esquecerias desse prodígio. A tua  palavra não vale nada; podes voltar a ser como dantes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;A Vida pegou outra vez em poeira do caminho e lançou-a sobre o homem que, de repente, voltou a ser leproso.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;De novo, a Vida prosseguiu viagem e vestiu-se de modo a que o seu corpo parecesse inchado. Logo se apresentou na cabana do hidrópico que tinha curado há sete anos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Posso passar uma noite em tua casa? — perguntou a Vida batendo à porta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Claro — disse este. — Entra, entra. Senta-te aqui, vou buscar alguma coisa para comeres e beberes. Eu sei como é penoso estar nesse estado. Eu também já tive essa doença. Mas há sete anos, passou por aqui a Vida e curou-me. Naquela altura disse-me que voltava e ainda não a vi. Se esperares aqui em minha casa, Ela não tardará a vir e poderá, de certeza, também curar a tua doença.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Eu sou a Vida — disse o caminhante. — E tu és o único de todos os que eu curei que ainda se lembra de mim e da sua antiga doença. Por isso, ficarás são toda a tua vida. Olha, a vida pode mudar constantemente. A sorte pode tornar-se em desgraça, a riqueza em pobreza, o amor em ódio. Ai daquele que não se lembrar disto e não tirar daí a devida lição!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;— Adeus — concluiu a Vida, e retomou pela última vez o seu caminho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;Esta fábula africana mostra-nos a importância de ajudar os outros. Tens muitas oportunidades na vida de estender a mão a quem necessita. Não deixes de o fazer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot; align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;Fábulas africanas&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot; align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366;&quot;&gt;Lisboa, Editorial Além-mar, 1991&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;</description>
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  <category>fábulas africanas</category>
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  <pubDate>Sat, 07 May 2011 05:40:10 GMT</pubDate>
  <title>Allen Jay e o Caminho-de-Ferro Clandestino</title>
  <author>hpt</author>
  <link>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/2582.html</link>
  <description>&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;strong&gt; &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;em&gt;&lt;span style=&quot;text-decoration: underline;&quot;&gt;Nota da Autora&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;em&gt;Allen Jay vivia com a família em Randolph, no Ohio, por volta de 1840. Os Jays pertenciam a um grupo religioso chamado &lt;/em&gt;Sociedade dos Amigos&lt;em&gt; ou &lt;/em&gt;Quakers&lt;em&gt;. Estas pessoas vestiam-se todas da mesma maneira e acreditavam que todos os homens eram iguais. Usavam roupas simples e tratavam toda a gente por “tu”, fossem estranhos ou amigos.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;em&gt;Infelizmente, a maioria dos afro-americanos que viviam no sul dos Estados Unidos não eram tratados como iguais. Eram escravos. Os escravos trabalhavam todo o dia sem serem pagos. Os patrões tinham direito de propriedade sobre eles, como se fossem animais. Quando os escravos fugiam, eram perseguidos e castigados. Muitas vezes, eram torturados ou mortos. As pessoas que ajudavam os escravos a fugir também eram punidas.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;em&gt;Embora fosse perigoso, os pais de Allen, Isaac e Rhoda Jay, ajudavam os escravos a fugir. Os Jays faziam parte de um grupo secreto chamado “Caminho-de-Ferro Clandestino”. As pessoas que trabalhavam para esta organização escondiam escravos fugidos nos seus celeiros, sótãos e esconderijos secretos. Levavam-nos de um lugar seguro para outro. Os fugitivos viajavam a pé, a cavalo, de carroça e por trilhos secretos até ao Canadá. Aí, todos eram tratados como iguais perante a lei.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;em&gt;Os Jays tinham o cuidado de não dizer a ninguém o que faziam, nem mesmo aos filhos. Allen, de onze anos de idade, sabia que os pais alimentavam e escondiam estranhos de pele escura que iam e vinham misteriosamente. Mas não percebia muito de escravatura. Até ao dia em que se encontrou face a face com um fugitivo…&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;em&gt; &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;1 de Julho de 1842&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Allen pendurou a última camisa na corda. A mãe estava demasiado doente para fazer esta tarefa tão pesada, por isso cabia ao filho mais velho fazê-la. Todas as segundas-feiras, Allen lavava, fervia, engomava e estendia a roupa. Depois podia brincar à vontade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Nessa tarde, Allen dirigiu-se ao celeiro para ir buscar a sua cana de pesca. Enquanto atravessava o pátio, viu um cavalo a dirigir-se para a quinta deles. Era o médico da família, que logo se aproximou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Amigo Jay! Amigo Jay! ─ gritou o médico.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;O pai de Allen saiu do celeiro e caminhou rapidamente para o portão. Comentou:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ O teu cavalo hoje tem asas. Pareces apressado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;O médico inclinou-se para Isaac e disse em voz baixa:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Está um escravo fugido escondido no bosque. O dono dele e os seus homens estão no seu encalço e estão armados.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Agarrou o ombro de Isaac e acrescentou:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Tem cuidado, Amigo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;O pai de Allen assentiu com a cabeça. O médico virou o cavalo e partiu de novo. Allen aproximou-se do pai e viu a sua cara preocupada. Perguntou-se se o dono do escravo viria matar o pai. Lembrava-se de histórias de outros Amigos que ajudavam fugitivos. Alguns tinham sido espancados. Outros tinham visto as suas casas serem incendiadas. Isaac Jay olhou para o filho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Allen, pode ser que em breve vejas um homem de pele escura. Leva-o para o campo de milho, para trás da nogueira grande. O milho aí é suficientemente alto para o esconder. Mas, se o esconderes, não me digas a mim nem a ninguém que o fizeste.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;a name=&quot;cutid1&quot;&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class=&quot;ljcut&quot; text=&quot;continuação&quot;&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Virou as costas e caminhou de volta ao celeiro. Allen nem conseguia mexer-se. O que devia fazer agora? O som de algo a estalar no bosque interrompeu-lhe o pensamento. Viu alguém mover-se por entre as árvores e o matagal. Caminhou em direcção aos ruídos, que logo cessaram. De repente, um homem com uma arma na mão saltou dos arbustos. Allen recuou rapidamente. Ficaram a olhar um para o outroem silêncio. Ohomem tinha as roupas rasgadas e os pés ensanguentados. A sua pele escura tinha golpes e marcas de chicote.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Tu filho Patrão Jay? ─ perguntou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Os olhos moviam-se de um lado para o outro, a perscrutar a estrada e a casa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Sou ─ gaguejou Allen. ─ Sou Allen, o filho dele.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;O homem baixou a arma. Allen tentou ganhar coragem para falar. Sempre tinha tido dificuldade de falar claramente, mas agora precisava mais do que nunca que o compreendessem.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Segue-me ─ disse devagar. ─ O meu pai mandou-me levar-te para um esconderijo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Percebo ─ disse o homem. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Allen conduziu-o pela borda do bosque até às traseiras da quinta. Baixaram-se, enquanto corriam pelo campo de milho. Allen levou o homem para uma clareira debaixo da nogueira.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Tens de ficar quieto e longe da vista das pessoas ─ sussurrou o rapaz. ─ A seu tempo, virão buscar-te.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Tem piedade ─ suplicou o homem. ─ Chamo-me Henry James. Fugi anteontem e ainda não comi nem bebi nada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Os olhos pareciam tristes e cansados. Os lábios estavam gretados do calor.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Volto em breve com alguma comida ─ disse-lhe Allen.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Olhou em volta para se certificar de que ninguém veria Henry James. Quebrou um caule de milho e varreu a poeira atrás de si, à medida que tentava encobrir as pegadas. Certificou-se de que todos os caules de milho estavam no lugar. Depois correu até casa. Tinha esperança de que o dono do escravo estivesse a horas de distância. O pai ia precisar de tempo para planear uma fuga segura para este fugitivo. Allen abrandou o passo à medida que se aproximava do celeiro. Pensou que alguém podia estar à espreita.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Abriu a porta da cozinha. Os seus irmãos Milton, Walter, Abijah e Mary estavam à mesa a descascar ervilhas. A mãe levantou-se da cadeira de baloiço.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Senta-te, Allen ─ ordenou com voz tranquila. ─ Tenho uma coisa para ti.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Mas, mãe ─ começou Allen a protestar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Fica sossegado, filho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Allen sentou-se no banco junto de Walter. A mãe pediu:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Mary, por favor põe algum pão de milho e um pouco de presunto num cesto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Allen perguntou-se como sabia a mãe que devia preparar comida a esta hora do dia e por que motivo os irmãos estavam todos dentro de casa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Quem vai comer o pão? ─ perguntou o pequeno Milton.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Um amigo que passe à nossa porta ─ respondeu a mãe, a sorrir.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Rhoda Jay deu o cesto cheio a Allen e disse-lhe:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Leva este cesto a alguém que tenha fome.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Allen pegou no cesto e agarrou numa caneca de leite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Em seguida, apressou o passo em direcção ao campo de milho. Quando chegou junto da nogueira, ouviu o barulho de caules a partirem. O canhão preto de um revólver apareceu por entre as folhas de milho. Allen ficou petrificado. Percebeu pelo barulho do gatilho que a arma estava pronta a disparar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Por favor, não dispares! ─ implorou o rapazinho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Henry baixou a arma e afastou o milho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Tu meter medo ─ disse, com a voz a tremer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Allen suspirou e aproximou-se. Mostrou ao homem o que tinha trazido.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Serve-te à vontade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Henry agarrou na caneca e bebeu com gosto durante muito tempo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Isto ser muito bom, Patrão ─ disse, agradecido.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Podes ficar aqui a descansar enquanto o meu pai não vier buscar-te. Eu tenho de ir.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Allen avançou através do milho até à berma do campo. Quando estava a sair do bosque, ouviu vozes. Escondeu-se detrás de uma pilha de toros antes que alguém o visse. Espreitou através dos toros e viu o pai a falar com seis homens a cavalo. Eram forasteiros e estavam armados. Um deles interrogava Isaac Jay asperamente:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Tem a certeza de que não viu o meu foragido?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Isaac abanou a cabeça.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Já lhe disse que não. Eu nunca minto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;O dono de escravos resmungou, incrédulo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Que tal darmos uma vista de olhos à sua casa?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ São bem-vindos ─ disse Jay, calmamente. ─ Mas precisam de um mandato.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;O homem gritou:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Pode demorar a arranjar. Voltamos amanhã de manhã.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Resmungou qualquer coisa para os homens que o acompanhavam e foram-se embora a galope. Nessa tarde, Allen não ouviu mais nada sobre o escravo em fuga ou os homens coléricos. Nem se atreveu a perguntar. O pai, quando veio jantar, falou pouco. Nessa noite, a mãe mandou os filhos cedo para a cama. O pai foi ao celeiro. Pouco depois, voltou e chamou Allen. O cavalo deles, o Velho Jack, estava atrelado a uma carroça no pátio.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Gostavas de ir até à casa do avô? ─ perguntou Isaac ao filho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Posso ir contigo? ─ perguntou Allen, admirado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Não, desta vez vais sozinho ─ respondeu o pai.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Allen nunca tinha viajado à noite sozinho pelo bosque. Havia ursos, gatos selvagens e serpentes por todo o lado. Agora, até devia haver caçadores de escravos. Mas Allen sabia o que o pai queria que ele fizesse.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;A mãe saiu de casa e agarrou o braço do marido.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Não deves mandá-lo. É muito perigoso.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Mas eu tenho de ir, mãe ─ disse Allen. ─ Se o dono do escravo e os outros homens voltarem, o pai tem de estar em casa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Tenho orgulho em ti, filho ─ disse o pai. ─ Se achas que deves levar alguém contigo, leva.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Rhoda Jay abraçou o filho demoradamente. Allen subiu para a carroça e tomou as rédeas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Vai depressa e não te afastes da estrada principal ─ advertiu o pai. ─ Podes passar a noite na casa do teu avô.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Allen conduziu o cavalo até ao campo de milho. Parou a carroça junto da nogueira.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Sou eu, o Allen. Temos de nos despachar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Henry James subiu para a carroça e encolheu-se junto dos pés de Allen. Passaram as luzes aconchegantes que irradiavam das janelas das quintas. Uma nuvem toldou a lua e a escuridão envolveu-os no meio daquela estrada acidentada. Permaneciam ambosem silêncio. Seráque os caçadores de escravos iriam apanhá-los? Allen procurou não pensar no medo que sentia. E se Henry tentasse matá-lo para ficar com o cavalo? Agarrou as rédeas com força para apressar o cavalo. Tinha as mãos húmidas. Mordeu o lábio inferior.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Tu ter medo mim? ─ perguntou Henry.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Allen não conseguiu responder.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Patrão Allen, tu leva a espingarda. Se vires alguém, dá-ma depressa. Salto enquanto conduzes. Não quero que te magoes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Henry entregou a espingarda a Allen. O rapaz abanou a cabeça. Nem conseguia tocar na arma. O escravo disse:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Eu não voltar àquela quinta. Podem matar-me, mas não vou mais ser chicoteado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Em seguida contou histórias a Allen sobre a sua vida de escravo. Trabalhava o dia todo e a maior parte das noites nos campos do Kentucky. Tinha visto o irmão ser espancado até à morte. A irmã tinha sido vendida a outro dono, longe dali. Henry queria chegar ao Canadá para poder ser livre.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Allen sentiu-se mal por não ter confiadoem Henry. Nessemomento, ouviu algo a agitar-se por entre as folhas. Começou a tremer. Uma sombra atravessou-se em frente da carroça. O Velho Jack empinou-se nas patas traseiras. Allen puxou as rédeas até os dedos doerem. O cavalo foi-se acalmando.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ O que aconteceu? ─ sussurrou Henry. ─ Precisas da arma?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Não ─ respondeu Allen, rindo nervosamente. ─ Era apenas um coelho velho a atravessar a estrada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Henry não se riu. Viajaram durante mais de hora e meia. Allen via um caçador de escravosem cada sombra. Estavaa ficar com sono e doíam-lhe as costas. Sentia frio por causa da humidade nocturna e estava cansado de ter medo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Finalmente, viu uma luz. Vinha de uma cabana, da cabana do avô Jay. Allen saltou da carroça e ajudou Henry a sair do esconderijo. Bateu à porta com força e o avô veio abrir a portaem pijama. Pareciasurpreendido, mas sabia o que fazer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Entrem depressa. Allen, vai acordar o teu tio Levi.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Allen fez o que o avô mandou. O tio vestiu-se e saiu para selar os cavalos. O avô pôs alguma comida numa trouxa e deu-a a Henry. O escravo agradeceu-lhe e seguiu-o até ao celeiro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Antes de Henry partir com o tio Levi, Allen estendeu-lhe a mão e disse, numa voz forte e clara:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Desejo que faças boa viagem até ao Canadá.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Henry James pegou na mão do rapaz:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;─ Não vou esquecer tu, Patrão Jay ─ disse, apertando-lhe a mão. ─ Tu ser rapaz corajoso.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot; align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot; align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;strong&gt; &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot; align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;em&gt;&lt;span style=&quot;text-decoration: underline;&quot;&gt;Posfácio&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot; align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;em&gt;Trinta minutos mais tarde, Henry e Levi entraram num acampamento de afro-americanos livres no condado de Mercer, no Ohio. Tratava-se de uma paragem muito importante no Caminho-de-Ferro Clandestino. A família desse acampamento escondeu Henry até ele poder viajar para norte. Passados alguns meses, a família Jay soube que o escravo tinha chegado ao Canadá. &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;em&gt;Allen tornou-se um conhecido professor e pastor Quaker quando cresceu. Era um orador famoso, o que surpreendia muita gente: é que Allen tinha nascido com um orifício no céu-da-boca, o que tornava as suas palavras difíceis de entender. Mas as suas poderosas palavras de paz e amor eram consideradas um tesouro por muitos Amigos. Quando envelheceu, Allen escreveu a história da sua vida e o seu encontro com o escravo fugido em A Autobiografia de Allen Jay.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;em&gt; &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Marlene Targ Brill&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;em&gt;Allen Jay and the Underground Railroad&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Minneapolis, Carolrhoda Books, 1993&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;(Tradução e adaptação)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;</description>
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  <category>história</category>
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  <category>paz/guerra</category>
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  <pubDate>Sat, 07 May 2011 05:29:34 GMT</pubDate>
  <title>O medo vence outro medo - fábula africana</title>
  <author>hpt</author>
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  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Akari gostava muito de ir à caça.&lt;/strong&gt; Mas tinha sempre pouca sorte. De vez em quando regressava de mãos vazias. Nessa altura era gozado por todos:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Sabes porque é que não caças nada? Porque tens medo de entrar no mato!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Um dia, Akari, após ter andado imenso, sentiu fome. Viu uma aldeia e pensou:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;«Vou pedir um pouco de sopa.» As pessoas da aldeia deram-lhe de comer e beber. Quando ficou saciado, pensou:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;«E para que hei-de eu ir para outro sítio, se aqui me tratam tão bem?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Decidiu, então, ficar por ali. O povo da aldeia aceitou-o e deu-lhe um terreno para cultivar. Akari fez uma cabana e, passado algum tempo, casou-se.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Um dia, não tendo nada que fazer no campo, disse à esposa:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Há muito tempo que não vou à caça. Hoje vou ao bosque caçar uma boa gazela para o nosso jantar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Pegou na lança, que já estava ferrugenta, e encaminhou-se para a floresta. Não sabia que aí havia tantas feras.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Avançou seguindo umas pegadas. Pelos ramos derrubados, compreendeu que tinham passado por ali elefantes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;De repente, apareceu correndo um leão, deteve-se a poucos passos de Akari, dando a impressão de que estava à espera dele há muito tempo. &lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;O rei da selva abriu a bocarra e &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;a name=&quot;cutid1&quot;&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class=&quot;ljcut&quot; text=&quot;continuação&quot;&gt;deu uns rugidos tão fortes que as folhas começaram a cair das árvores.
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;O caçador sentiu-se perdido. Não tinha por onde escapar. Olhou em redor. À direita tinha um grande matagal cheio de espinhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Fugiu para lá sem pensar no que fazia. Os espinhos rasgaram-lhe a pele, mas o medo era mais forte do que a dor.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;O leão aproximou-se do matagal, mas quando viu os espinhos tão grandes e afiados, preferiu sentar-se à espera. Esperou três dias; mas, faminto e desiludido, foi-se embora.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Entretanto, na aldeia, aperceberam-se do desaparecimento de Akari. Encarregaram Rata, um famoso caçador, para ir ao bosque procurar o infeliz desaparecido.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Rata entrou na selva e, pouco depois, passou pelo matagal espinhoso.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Quem está aí? — perguntou uma voz do meio dos espinhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Sou eu!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— E quem és tu?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Sou Rata e ando à procura de um homem que se perdeu na floresta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Sou eu esse homem. Ajuda-me a sair daqui.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— É como é que tu foste parar aí?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Foi o medo que me fez vir para o meio destes espinhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Está bem, eu vou tirar-te daí.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Rata pegou em erva seca, colocou-a à volta do matagal e lançou-lhe fogo. Ao ver-se rodeado pelas chamas, Akari deitou a correr outra vez através dos espinhos e saiu.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;É bem verdade que um medo vence outro medo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot; align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;em&gt;Fábulas africanas&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Lisboa, Editorial Além-mar, 1991&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <category>fábulas africanas</category>
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  <pubDate>Sat, 07 May 2011 05:24:52 GMT</pubDate>
  <title>A cor dos olhos</title>
  <author>hpt</author>
  <link>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/2058.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Naquele tempo,&lt;/strong&gt; que não era como o tempo de hoje, os leões já tinham quatro patas mas, tal como os elefantes, não podiam meter-se por dois caminhos ao mesmo tempo!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Naquele tempo naquela aldeia havia Fati e Issa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Fati dormia deitada numa esteira, sempre de barriga para baixo. Durante esse tempo, Issa sonhava deitado de costas, na cabana da mãe.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Uma manhã, Issa convidou Fati para ir com ele à pesca, no grande riacho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Fati, vens ou não pescar?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Vou, mas… e se o peixe não morde?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Ficamos à espera.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Partiram com ele à frente, como sempre.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Fati, que era cega, seguia-lhe os passos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;A mãe dela, como todas as mães da aldeia, sabia fazer um bom molho com sementes e também uma mistura saborosa de inhame. O pai conhecia os remédios contra as serpentes e os génios malfazejos, e contra os anões ruins do mato que só fazem mal!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Mas nem o pai nem a mãe sabiam transformar os olhos que não vêem em olhos que vêem!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot; align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Fati e Issa caminhavam num estreito carreiro vermelho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Issa viu pássaros tecelões dar reviravoltas perto das folhas de um embondeiro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Fati ouviu-os chilrear.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Tinha posto na cabeça um lenço para se proteger um pouco. Tal como Issa, sentia o sol a queimar-lhe os ombros como se fosse uma fogueira no mato.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Não sabia nada da forma zombeteira das sombras, sempre um pouco maiores, mas conseguia adivinhar a grande boca do sol que sugava o céu com gulodice.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Chegaram ao riacho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;a name=&quot;cutid1&quot;&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class=&quot;ljcut&quot; text=&quot;continuação&quot;&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― A água está bem desperta ― gritou Issa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Fati mergulhou o dedo e exclamou:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Esta água está toda molhada!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Issa preparou uma linha para Fati e outra para ele.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Deitaram-nas à água. Passou algum tempo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Issa inclinou-se para Fati e murmurou-lhe, quase a morder-lhe a orelha:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Não te mexas, vou andar alguns passos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Porquê?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― O sol está muito forte. Talvez encontre uma jujubeira que nos dê sombra.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Afastou-se, apressado, para fazer algo que ninguém poderia ter feito por ele!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Nada acontece sem se fazer anunciar…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Fati, com a linha entre os dedos, estava tão imóvel como uma velha termiteira, quando sentiu um abanão na mão. Quando sentiu o segundo abanão, foi como se estivesse à espera dele, precisamente naquele momento. Puxou com um gesto seco e, quando ouviu a água a salpicar, não teve dúvidas: era mesmo um peixe que tinha mordido o isco e que ela estava a pescar. Com cuidado, para não assustar nada nem ninguém, levantou-se, puxando sempre a linha com a mão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Agarrou o pequeno peixe que dançava agarrado ao isco.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Disse em voz alta, para si própria: “É de certeza uma carpa, uma carpa pequena e linda.”&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Uma carpa que preferiria voltar para a água em vez de assar ao sol — respondeu-lhe uma voz.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― És tu, Issa?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Não é o Issa, sou eu ― respondeu-lhe a carpa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Mas quem está a falar? ― perguntou Fati.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Não obteve resposta. Pensou que tinha sonhado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Com cuidado, tirou o peixe do isco.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Ufa, obrigado. Assim está melhor ― ouviu.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Mas de quem é esta voz que não conheço?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― É minha. Sou a carpa que acabas de pescar, não vês?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Não. Tenho olhos mas não vejo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;A carpa, que era menos medrosa do que uma tartaruga e mais faladora do que um quimbanda lisonjeador, continuou a falar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Será que me podes dizer o teu nome, tu que me pescaste?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Fati.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Fati, se voltares a pôr-me na água do riacho, posso dar-te o mais belo dos presentes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― O que é o mais belo dos presentes?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― É o que quiseres… exactamente o que quiseres.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Não existe o mais belo dos presentes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Existe, sim!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Fati pôs-se a rir e disse à carpa:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Pequeno peixe, podes ofender o génio da água com as tuas mentiras.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Não estou a mentir.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Então faz-me ver o mundo com os meus dois olhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― O mundo inteiro?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― O mundo inteiro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Sem pensar duas vezes, o pequeno peixe disse a Fati:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Pega em duas das minhas escamas, e põe uma em cada olho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Depois…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Depois, nada. É tudo. Verás o que quiseres ver.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Fati pegou em duas escamas e fez o que a carpa lhe tinha dito. Então, começou a ver de verdade, e os seus dois olhos tocaram o mundo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Agora, podes ver quase tudo ― disse-lhe a carpa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Porquê “quase”?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Podes ver tudo, excepto os teus olhos. Com os próprios olhos, ninguém pode ver os seus próprios olhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Fati pôs o pequeno peixe no riacho e ele continuou a viver como um peixe na água.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Issa chegou. Tinha-se aliviado em algum lado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Fati, que nunca o tinha visto, viu-o aproximar-se.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Issa, estou a reconhecer-te.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― É lógico, porque me conheces.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Reconheço-te com os meus olhos, não apenas com os ouvidos!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Issa tinha parado a dois passos de Fati. Olhava-a bem de perto, e assim podia ver-lhe os olhos. Exclamou:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Mas o que é que se passa? Lavaste os olhos no céu?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― E por que dizes isso?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Fati, os teus olhos estão azuis como o céu. Continuas negra mas tens os olhos cor do céu!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Fati contou-lhe tudo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Quando chegaram à aldeia, Fati ficou espantada por ver um só mundo com os dois olhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;No dia seguinte, de manhã, ouviram a aldeia a murmurar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Issa, que continuava a dar-lhe a mão, escutou as vozes ao mesmo tempo que ela.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Viram chegar as três co-esposas do pai de Fati, e outras mulheres, e alguns homens. Tinham a boca cheia de maldades e gritavam. A seguir, chegaram os da aldeia. Eram piores do que animais loucos do mato. Gritavam:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Bruxa!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Fati, vai-te embora!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Não passas de uma bastarda do céu!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Bruxa azul! Deixa-nos, vai-te embora para sempre, tu e os teus olhos azuis!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Excremento de abutre!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Puseram-se a atirar-lhe pedras e Fati não encontrou outra solução senão fugir. Issa, que tentara defendê-la, teve de fazer o mesmo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Depois de uma longa corrida,  chegaram ao fundo,  ao fim do fim,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;um pouco mais longe do que o horizonte.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Fati, eu gosto de ti.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Não tens medo dos meus olhos?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Fati, eu gosto de ti.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Tinham-se sentado frente a frente, à sombra de uma jujubeira.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Fati perguntou:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Será que fechando os olhos, acabamos com a maldade?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Não… não se acaba com nada. Se fechares os olhos, nem sequer acabas com as cóleras do mato.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Calaram-se. Issa tomou as mãos de Fati nas suas. Fati tinha dois olhos para ver e chorar. Murmurou-lhe:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Eles têm medo. Estão cativos do medo que têm, e o medo faz esquecer o coração…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Nesse dia, nesse tempo, que se parecia muito com o tempo de hoje, Fati e Issa tinham o coração ferido como uma velha cabaça.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Levantaram-se e afastaram-se ainda mais da aldeia, talvez para encontrar a fonte dos quatro ventos do céu, aqueles que fazem as mesmas cócegas em todas as cores do mundo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Muitas estações das chuvas deram lugar a muitas estações secas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;E ontem, na aldeia, um grande pássaro negro pousou na bela árvore vermelha florida. Era um calau.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Um calau negro de olhos azuis. Sim, negro de olhos azuis! Todos o acharam belo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Este calau era um sinal. Logo que parou na grande árvore da aldeia, Fati e Issa chegaram.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Fati sorria tal como Issa. Foi ela quem disse:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Bom dia, estávamos tão longe há tanto tempo… eis-nos aqui, os dois.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Bom dia!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;― Bom dia…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Foram muitos os que lhes ofereceram a água das boas-vindas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;No dia seguinte, Issa começou a construir a cabana deles.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Tal como acontecera com os pais deles, foi na sua aldeia que tiveram os filhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;E foi assim.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Foi o quimbanda quem mo disse.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot; align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot; align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot; align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Tradução e adaptação&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot; align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Yves Pinguilly, Florence Koenig&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot; align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;&lt;em&gt;La couleur des yeux&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot; align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Autrement Jeunesse, 2001&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;</description>
  <comments>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/2058.html</comments>
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  <category>histórias</category>
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  <pubDate>Thu, 05 May 2011 08:11:30 GMT</pubDate>
  <title>A Doçura</title>
  <author>hpt</author>
  <link>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/1958.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Anita vende a doçura em frascos.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Enche-os de compota de fruta, tapa-os e cola-lhes uma etiqueta, mas, em vez de escrever compota disto ou compota daquilo, de mirtilos ou de pêssego, de marmelo ou de morango, arredonda a letra e escreve apenas &lt;em&gt;Doçura. &lt;/em&gt;Senta-se no passeio com os frascos defronte, expostos no asfalto, junto aos pés, e não lhe faltam clientes. A compota vende-se muito bem e ninguém regressa para reclamar: quem compra julga que a doçura está toda nos olhos de Anita.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Anita vende, pois, a doçura que tem no olhar e a doçura que embala nos frascos de vidro. É isso o que faz, sentada no passeio defronte do Mercado Sucupira, pelo menos desde que desistiu de escrever poemas. Na escola, a professora de Anita não se cansava de lhe gabar a delicadeza das composições que escrevia. A mestra ordenava às crianças que escrevessem uma composição sobre isto ou aquilo, sobre a Primavera ou sobre o ilhéu defronte da baía da Gamboa, e o que Anita fazia era sempre igual: escrevia no topo da folha pautada a palavra &lt;em&gt;Composição &lt;/em&gt;com essa mesma letra indecisa e pequena que hoje lhe serve para escrever &lt;em&gt;Doçura &lt;/em&gt;nas etiquetas dos frascos de doce – e depois deixava que a cabeça a levasse para longe, para o mundo impalpável das coisas que estão escritas nas páginas dos livros.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Escrevia sobre bosques impenetráveis e montanhas verdejantes, sobre belos guerreiros medievais e cidades de prédios muito altos, ainda que não houvesse na ilha nenhuma das coisas que descrevia e, por isso, ela nunca tivesse visto bosque algum, nenhuma paisagem alpina ou um príncipe que fosse. E um dia, mais do que gabar-lhe a composição e afagar-lhe a carapinha, a professora disse:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;— Um dia ainda vais ser poeta, Anita.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;E Anita conseguiu imaginar que era &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;a name=&quot;cutid1&quot;&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class=&quot;ljcut&quot; text=&quot;continuação&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;poeta, que escrevia livros iguais aos que gostava de ler à noite, quando a luz faltava na Praia e a cidade voltava a ser um sítio apenas iluminado por candeias e velas. Cresceu, por isso, julgando que, um dia, escreveria poemas e frases bonitas sobre a sua ilha e que as crianças das outras partes do mundo leriam o que escrevesse e sonhariam com a baía morna onde, às vezes, a lua cheia vem namorar o mar — do mesmo modo que eu, estando longe, vejo Anita sem sequer a ver.&lt;/span&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Estou num sítio ao Norte do mundo, no Inverno, longe do mar, num prédio alto e cinzento, igual aos que Anita imagina quando tem que escrever uma composição sobre &lt;em&gt;A Cidade. &lt;/em&gt;Não vejo, de onde estou, o Mercado Sucupira, nem essa Avenida de Lisboa em cujo passeio Anita se senta para vender a &lt;em&gt;Doçura. &lt;/em&gt;Nesta janela, tendo defronte apenas as janelas gémeas de um prédio igual, encosto a face ao vidro da varanda e adivinho o frio que faz lá fora (todo o frio me parece muito desde o dia perversoem que o Verão termina). Invento o frio e encolho ainda mais dentro do corpo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;É aqui, porém, que, encostado ao vidro que me separa do Inverno, espero que venha o raio morno que o sol derrama quando se eleva acima da massa sombria dos prédios da cidade. Então, e por um instante, fecho os olhos, esqueço o Inverno e imagino que ainda é Verão, que a cidade lá fora é a Praia e que Anita está sentada no passeio a vender &lt;em&gt;Doçura &lt;/em&gt;desde o dia em que soube que não seria poeta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Ora a invejo, ora me enterneço com a doçura que guarda e com o modo que tem de a entregar ao mundo, ali sentada no passeio escalavrado da Avenida de Lisboa: agita uma revista velha diante do peito para se refrescar e põe a mão em pala diante dos olhos (para que o sol não derreta o açúcar que neles há). As outras pessoas passam e vêem Anita vendendo a &lt;em&gt;Doçura &lt;/em&gt;em frascos. Muitas param para comprar: uns levam apenas a compota, outros vêm pela imensa doçura que há nos olhos da menina-moça, pelo sorriso imenso que o rosto dela desenha.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Eu, que não vejo Anita, vejo claramente o riso dela, o lenço branco que Anita tem enrolado na cabeça, a camisa cor-de-rosa, as argolas douradas que tem nas orelhas, a saia de chita, o chinelo de plástico que abriga os pés dela. Imagino até que, às vezes, Anita lance no ar um pregão tímido&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;&lt;em&gt;— Nha leba doçura pa casa&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;que o barulho do trânsito abafa. Que, quando regressar a casa depois de ter vendido todos os frascos, Anita levará o dinheiro apertado na mão, firmemente, feliz por ter vendido toda a compota — e triste por não ter podido ser poeta. Vai caminhando de cabeça erguida, devagar, como se o seu andar fosse uma pausa entre a ida veloz dos passos de uns e a vinda apressada dos passos dos outros.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Não escuta os piropos dos rapazes, não ouve o barulho da cidade: vai inventando poemas que não escreverá jamais, pois cedo a mãe lhe explicou que&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;&lt;em&gt;— Não é poeta quem quer, é poeta quem a vida deixa. Poesia de pobre é comida na mesa para encher barriga&lt;/em&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Quando a noite vem e não há luz na Praia, quando o zumbido das coisas eléctricas cessa e se pode escutar o murmúrio da terra e os sussurros da vizinhança, Anita debruça-se na janela da casa e fica a contemplar o corisco breve das estrelas. Imagina poemas que não escreve e inventa paisagens nevadas, belos príncipes crioulos montados em alazões, cidades de altíssimos prédios onde todos se conhecem pelo nome próprio e se cumprimentam à tardinha quando regressam a casa — tudo pode ser visto nas estrelas diante da janela do quarto de Anita.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Quando aí está, esperando que os pontos luminosos da noite se ordenem e inventem mundos, Anita pensa que ainda é poeta, que são poemas as frases com que imagina príncipes crioulos e cidades imensas de vidro e aço. Sonha os livros que escreveria se não fosse menina pobre e a vida tivesse permitido que o vaticínio da velha mestra se concretizasse.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;&lt;em&gt;(— Um dia ainda vais ser poeta, Anita.&lt;/em&gt;)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Às vezes, pensando nisto, Anita ainda se entristece. Olhando-a a partir da minha janela do país onde é quase sempre Inverno, vejo que as estrelas se lhe reflectem no orvalho dos olhos. Vejo isto e enterneço-me. Daqui longe fecho os meus olhos e sussurro bem baixinho a única verdade que existe — para que ela a oiça: que não há no mundo todo maior poema do que vê-la, sentada no passeio, a vender a &lt;em&gt;Doçura &lt;/em&gt;que tem nos frascos. E nos olhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Manuel Jorge Marmelo&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;&lt;em&gt; &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;&lt;em&gt;O prazer da leitura&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Edição conjunta de FNAC/Teorema&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;publicado por ocasião do &lt;em&gt;Dia Mundial do Livro&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;23 de Abril 2007&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;(excertos adaptados)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;</description>
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  <category>sonho</category>
  <category>infância</category>
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  <pubDate>Thu, 05 May 2011 07:33:06 GMT</pubDate>
  <title>Ynari, a menina das cinco tranças</title>
  <author>hpt</author>
  <link>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/1749.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Era uma vez uma menina&lt;/strong&gt; que tinha cinco tranças lindas e se chamava Ynari. Ela gostava muito de passear perto da sua aldeia, ver o campo, ouvir os passarinhos, e sentar-se junto à margem do rio.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Certa tarde, já o Sol se punha, Ynari ouviu um barulho. Não eram os peixes a saltar na água, não era o cágado que às vezes lhe fazia companhia, nem era um passarinho verde. Do capim alto saiu um homem muito pequenino com um sorriso muito grande. E embora ele não fosse do tamanho dos homens da aldeia de Ynari, ela não se assustou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;O homem muito pequenino andava devagarinho e devagarinho se aproximou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Olá! – cumprimentou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Olá – respondeu Ynari, receando que estivesse a falar alto demais para o tamanho do ouvido do homem muito pequenino.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Desculpa, mas não sei o teu nome...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Eu também não sei o meu nome... – desculpou-se o homem muito pequenino. – Mas chamam-me homem pequenino.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Ah, está bem... – sorriu Ynari, enquanto se deitava na relva para ficar mais perto dele. – Eu tenho um nome só, quer dizer, uma só palavra: chamo-me Ynari.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Ynari é um nome muito bonito – o homem sentou-se, ficando, assim, ainda mais pequeno.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Posso fazer uma pergunta, homem muito pequenino?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Podes fazer muitas perguntas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– De onde vens?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Venho da minha aldeia, que fica mais para cima, junto à nascente do rio.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– E lá, na tua aldeia, são todos pequeninos?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sim, somos todos mais pequenos que vocês, quer dizer, depende daquilo que entendemos por «pequeno». Não achas?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Nunca tinha pensado nisso. Sempre pensei que uma coisa menor fosse uma coisa pequena...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Pode não ser assim... Conheces a palavra «coração»?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Conheço! – sorriu Ynari. – E não é só uma palavra, é isto que bate dentro de nós – e mostrou no seu peito onde o coração batia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Claro, e... O coração é pequeno para ti?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;a name=&quot;cutid1&quot;&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class=&quot;ljcut&quot; text=&quot;Continuação&quot;&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– É... e não é! Cabe tanta coisa lá dentro, o amor, os nossos amigos, a nossa família...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Vês? – disse o homem mais pequeno que ela. – Às vezes uma coisa pequenina pode ser tão grande...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Os dois ficaram por um tempo calados, olhando o Sol que, do outro lado do rio, quase já tinha desaparecido. Assim, tão amarelada que estava a tarde, parecia que o Sol se ia afogar no rio e que os peixes, saltando, se queimavam nos seus raios avermelhados. Estiveram algum tempo assim, até que Ynari começou a brincar com as suas tranças: eram cinco tranças lindas, negras, compridas. A menina tinha olhos enormes que brilhavam muito e lábios carnudos muito bonitos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– E tu, de onde vens? – perguntou o homem mais pequeno que Ynari.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Eu venho daquela aldeia ali – apontou a menina na direcção das cubatas. – Vivo ali com a minha mãe, o meu pai, a minha avó e o meu povo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– E quem te faz as tranças?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Ninguém me faz estas tranças, porque elas não se desfazem... A minha avó diz que eu já nasci com as tranças e que um dia vou saber porquê. Eu gosto muito de brincar com as minhas tranças.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Levantaram-se, os dois, e caminharam junto ao rio. Agora o homem mais pequenino que Ynari já não lhe parecia tão pequenino, nem era estranho caminhar ao seu lado, embora ele fosse muito mais baixo do que a menina. De vez em quando, Ynari afastava os capins mais altos para que o homem mais pequeno pudesse caminhar livremente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Não tens medo dos bichos? – ela perguntou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Não. Os bichos não fazem mal nenhum... E mesmo a palavra «medo» pode ser vivida de várias maneiras.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Mas quando estás perto de uma palanca negra gigante, tens medo, ou não?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sabes, Ynari, nunca estive muito perto de uma palanca negra gigante, embora já a tenha visto muitas vezes. E tu?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Eu só a vejo de longe.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– A palanca negra gigante correu até perto de ti, fez-te mal?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Não, nunca.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Vês... não precisas de usar a palavra «medo».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Também acho... – disse Ynari, dando a mão ao homem simplesmente pequeno.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Já era mesmo de noite. O céu não tinha nuvens nenhumas e estava cheio de estrelas para se contar. Os dois olharam o céu, que era escuro e brilhante ao mesmo tempo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Olha tantas estrelas...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Estou a olhar – disse o homem simplesmente pequeno.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Parece que dançam! – Ynari sorria de contente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– É verdade... parece mesmo. Deve ser altura de usarmos a palavra «admiração», não achas? – sorriu o homem simplesmente pequeno.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Acho, sim... Mas, olha, tenho que ir.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Se tens que ir, tens que ir.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Amanhã posso ver-te? – perguntou Ynari.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Podes. Amanhã estarei ali, no mesmo sítio onde hoje nos encontrámos, junto ao rio, ao nascer do Sol.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Amanhã podemos brincar com mais palavras?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Claro. Podemos sempre brincar com as palavras...! – sorriu o homem que já não parecia tão pequenino.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Bons sonhos – despediu-se Ynari, a correr. – Até amanhã.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Até amanhã. Bons sonhos para ti também.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Ynari voltou a correr para a sua aldeia e decidiu não dizer a ninguém que tinha encontrado um homem que era pequenino mas que não era tão pequenino assim. Os caçadores tinham regressado, e o povo estava à volta da fogueira, contente com a caçada, de modo que ninguém lhe ia ralhar por chegar tarde. Ynari não gostava de ver os olongos mortos, embora a sua avó lhe tivesse explicado que os homens da sua aldeia só caçavam para comer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Já deitada, a menina das cinco tranças sentiu que a avó se aproximava. A avó, que se mexia devagarinho porque era muito velhinha (e que também estava a ficar pequenininha embora não tão pequenininha como o homem que já não lhe parecia tão pequenino), veio deitar-se ao pé dela.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Estás triste por causa dos olongos? – a avó perguntou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Não… Hoje o meu coração não ficou triste. Hoje… – e Ynari quase revelou o seu segredo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Hoje o quê? – perguntou a avó.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Nada, avó… Não te posso contar ainda. Mas hoje foi um  dia muito especial para mim – disse Ynari, deu um beijinho à avó e adormeceu.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;No dia seguinte, muito cedo, mesmo antes de os galos cantarem, Ynari afastou-se da aldeia em direcção ao rio. Sentou-se e ouviu ruídos nos capins altos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;O homem que agora não lhe parecia tão pequeno apareceu com o mesmo&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;sorriso nos lábios. Ela virou-se e cumprimentou:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Bom dia, homem pequenino. Estou contente por te ver.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Bom dia, menina das cinco tranças… Também o meu coração se alegrou quando te vi.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sabes, esta noite tive um sonho...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Queres contar-me? – o homem pequeno sentou-se.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sonhei que eu e tu estávamos aqui sentados, em frente ao rio. E depois íamos para muito longe, acho que era a tua aldeia...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– E depois?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Depois falávamos com muitos homens... E havia muitas palavras, e crianças... Vi muitas imagens, não me lembro de tudo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Se calhar devemos aqui usar a palavra «confusão»... É isso? – sorriu o homem menos pequenino...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– É mesmo – desatou a rir Ynari, a menina das cinco tranças.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– É uma grande confusão, sim...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Estavam assim os dois conversando sobre as palavras, a importância que as palavras tinham na vida de cada um, como as usavam, quando as usavam, com quem as usavam, e que significados tinham para o coração de cada um deles.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Ynari tentou explicar-lhe que havia palavras que para ela tinham mais do que um significado ou que lhe provocavam mais do que uma só alegria ou uma só tristeza. A menina disse que era difícil explicar às crianças da sua idade como gostava de palavras, e o que as palavras podiam fazer entre duas pessoas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sempre gostei muito das palavras, mesmo daquelas que ainda não conheço, sabes? Existem palavras que estão no nosso coração e que nunca es- tiveram na nossa boca... Nunca sentiste isso? – perguntou finalmente Ynari, depois de tantas e tantas palavras ditas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;O homem mais ou menos pequeno escutou, atento a tudo. E ia começar a falar quando, do outro lado do rio, lá em cima de uma montanha, um grupo de homens com armas na mão começou a disparar contra outro grupo de homens com armas na mão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Dali, daquele lado do rio, Ynari e o homem mais ou menos pequeno podiam ver tudo: aqueles homens não gostavam uns dos outros, e usavam as armas e as balas e as vidas uns dos outros para mostrar a sua raiva. Ynari estava assustada mas não se mexeu. O homem mais ou menos pequeno fechou um bocadinho os olhos, como fazem as pessoas que querem ver melhor coisas que estão a acontecer muito longe. Depois os tiros pararam e alguns homens correram em direcção a esta margem do rio. Ynari e o homem mais ou menos pequeno esconderam-se atrás dos capins altos e agacharam-se sem fazer barulho. Ynari tremia de medo e os seus olhos mostravam que estava assustada. Apertou com muita força a mão daquele homem pequeno, e ele disse-lhe baixinho:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Não tenhas medo, Ynari...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Os homens com armas na mão vieram e puseram-se a dormir. O homem pequeno saiu dos capins altos, foi até muito perto deles. Mexia-se de um modo estranho e dizia, baixinho, umas tantas palavras. De repente, as armas dos homens que estavam a dormir transformaram-se em armas de barro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Ynari espreitava nos capins altos e ficou com a boca toda aberta de espanto: era um homem pequeno e mágico!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;O homem pequeno e mágico voltou devagarinho, pegou na mão de Ynari e caminharam para norte, sempre junto ao rio. Parecia que não tinham caminhado muito, mas a vegetação era toda diferente: as flores eram mais amareladas e as árvores mais altas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Depois afastaram-se do rio e finalmente pararam junto de duas enormes árvores que, lá bem em cima, se tocavam.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Para  isto... podemos  usar  as palavras «portão de árvore»? – disse Ynari, enquanto olhava muito espantada, porque o «portão de árvore» era muito alto e bonito.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sim – respondeu o homem pequeno e mágico. – Podes usar essas palavras... Este é o portão de árvore onde começa a minha aldeia!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Ah! – exclamou Ynari, cheia de curiosidade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Entraram na aldeia. O que pisavam era um capim muito curto, muito verde, muito bom de se pisar porque era suave e estava sempre molhado. Quando olhou com mais cuidado, Ynari viu muitas árvores pequenas e percebeu que eram as casas dos homens pequenos. Eram, como ela mesma pensou, «as casas pequenas dos homens pequenos».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Muitos homens e mulheres (todos pequenos) espreitavam das suas árvores pequenas para olhar a menina que passava de mãos dadas com o homem pequeno e mágico.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– És tu o soba da aldeia? – Ynari perguntou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Nao – sorriu o homem pequeno e mágico. – Nesta aldeia não temos soba.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Pararam diante de uma árvore muito antiga. O homem pequeno e mágico roçou o cotovelo no casco da árvore, e ouviram-se passinhos vindos de dentro. Ynari encolheu-se atrás do homem pequeno e mágico.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Não tenhas medo, Ynari, quero-te apresentar duas pessoas muito especiais.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Era um velho muito velho com umas barbas muito grandes que quase chegavam ao chão. Caminhava com a ajuda de um pau torto, muito torto, que era como se fosse a sua bengala pequenina.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Ynari: este é o velho muito velho que inventa as palavras – disse o homem pequeno e mágico.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;O velho olhou para cima, para o rosto belo de Ynari, e sorriu. Bateu três vezes com a sua bengala pequenina no chão, que era a sua maneira de dizer que estava contente. Atrás dele apareceu outra velha muito velhinha, só que não tinha barbas, tinha uma trança branca muito comprida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Ynari: esta é a velha muito velha que destrói as palavras – disse o homem pequeno e mágico.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Logo depois, Ynari foi sendo apresentada a outros homens pequenos e mulheres pequenas. Enquanto se preparava uma festa pequenina por causa da chegada de Ynari, ela afastou-se com o homem pequeno e mágico e sentaram-se numa pedra alta, de onde se via toda a aldeia dos homens pequenos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Tu és um mágico, homem pequeno! – disse Ynari, espantada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Todos somos mágicos, Ynari. Aqui vais aprender que todos somos mágicos...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Tu encantas as armas! As armas ficaram de barro – disse, espantada, Ynari. – Imagino quando eles agora forem disparar! – desatou a rir a menina das cinco tranças.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Aquelas armas já não disparam. Agora podemos utilizar a palavra «inútil».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– O que é «inútil»? – quis saber Ynari.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– É aquilo que já não é útil, ou seja, que já não serve para nada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Ah... Diz-me uma coisa – Ynari olhou para o homem pequeno e mágico. – Todos somos mesmo mágicos?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sim, todos. Mas cada um tem que descobrir a sua magia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Eu queria descobrir a minha...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Já não falta muito – disse o homem pequeno e mágico enquanto se levantava. – Já não falta muito, Ynari.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Entretanto a festa estava pronta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Alguns homens pequenos com batuques pequenininhos começaram a tocar, outros dançavam, e muitos riam alegremente. Comeram, e Ynari teve que comer muitas vezes porque a comida era pequenina e ela estava com muita fome.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Depois a música parou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Todos se sentaram e então Ynari, a menina das cinco tranças, viu que as pessoas pequenas se afastavam para deixar passar o velho muito velho que inventa as palavras e a velha muito velha que destrói as palavras.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Ynari sentou-se também e ficou a olhar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;No meio das pessoas havia uma enorme cabaça mas, mesmo assim, claro, era uma cabaça pequena, onde o velho muito velho e a velha muito velha deitavam ervas e diziam algumas palavras que ela nunca tinha ouvido nem conseguia sequer entendê-las para as repetir dentro de si.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Alguns homens pequenos aproximaram-se da velha muito velha que destrói as palavras, e cada um deles disse, no ouvido dela, uma palavra. A velha muito velha que destrói as palavras ouviu todas as palavras que os homens pequenos tinham trazido de fora da aldeia e decidiu que ia destruir algumas delas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– São palavras que já não servem para nada, e têm que desaparecer...  – disse a velha muito velha que destrói as palavras.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– São palavras «inúteis», é isso? – perguntou baixinho Ynari.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sim – confirmou o homem pequeno e mágico.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Depois, outro grupo de homens pequenos aproximou-se da roda de pessoas. O velho muito velho que inventa palavras pôs novas ervas na cabaça enorme mas pequena, disse também algumas palavras que Ynari não conseguia lembrar, mesmo assim, estando ainda as palavras tão frescas. Os homens pequenos punham a mão na cabaça enorme mas pequena, bebiam um pouco do líquido e aproximavam-se do velho muito velho que inventa palavras. Ele dizia uma palavra no ouvido de cada um e eles abandonavam a aldeia dos homens pequeninos para voltarem só no próximo cacimbo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;O homem pequeno e mágico foi chamado ao centro, e apresentou Ynari, a menina das cinco tranças.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Também Ynari foi chamada ao centro pela velha muito velha e pelo velho muito velho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Ela foi devagarinho, caminhando envergonhada por estar tanta gente pequenina a olhar para ela.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Agora és tu, Ynari – disse o homem pequeno e mágico&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Vou saber a minha magia? – perguntou Ynari.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;O homem pequeno e mágico foi-se sentar, e Ynari, a menina das cinco tranças, ficou perto da cabaça enorme mas pequena, ouvindo a velha e o velho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;A velha muito velha que destrói as palavras falou assim:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Cada pessoa sua magia; cada árvore sua raiz. O peixe só sabe nadar na água. O humbi-humbi preso, nas gaiolas, morre. Coisa de metal que sai metal e fumo, destruímos. Coisa de metal que vira semente e mata, destruímos. De noite, olhar e respeitar as estrelas. De dia, olhar e imitar os animais. Primeiro somos crianças, depois somos caçadores, depois temos crianças, depois ficamos a olhar as crianças. O cágado, sempre lento, é quem chega primeiro. Mais sabedoria tem a palanca negra gigante que só olha os homens de longe. Falei.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Ynari estava quietinha porque sabia que tinha de ouvir os mais-velhos sem nada dizer, mas olhava para o homem pequeno e mágico, porque pouco entendia aquelas palavras. Então, o velho muito velho que inventa as palavras falou assim:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Cada rio suas águas; cada céu suas nuvens. Peixe dentro da água brinca, fora da água sofre. O humbi-humbi não conhece gaiola, só respeita nuvem. Coisa de metal que sai fumo, vira barro. Coisa de metal como semente, vira embondeiro. De noite, as estrelas olhar e uma só escolher. De dia, os animais caçar, seja, o alimento. Primeiro somos crianças e coração bate. Depois somos caçados por nosso coração. Depois descobrimos criança no coração. Depois a criança nos ensina outros caminhos do coração. O cágado também sabe perder. A palanca negra gigante também sabe fugir. Falei.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Então, juntos, os velhos deitaram ervas na cabaça enorme mas pequena. Olharam durante algum tempo para Ynari, e finalmente sorriram. Parecia que os dois velhos muito velhos falavam numa só voz:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Não temos uma magia para te dar, tens que ser tu a descobrir a tua magia...Todas as cacimbas nos reunimos aqui, para destruir palavras que já não servem, e inventar algumas que vão servir para alguma coisa. Nós conhecemos a sombra da tua magia, mas só tu podes saber onde está a própria magia. Hoje queremos oferecer-te uma palavra e dar-te uma fórmula.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Ynari sorriu, estava contente, sentiu que todas aquelas palavras lhe eram muito «úteis».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Leva contigo a palavra «permuta» – disseram-lhe.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– E a fórmula? – perguntou Ynari.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– A fórmula está dentro do teu coração.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Ynari estava muito contente ao sair da aldeia dos homens pequeninos, e não ficou triste com a despedida. O homem pequeno e mágico acompanhava-a, e voltaram muito depressa para junto do rio.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Tenho que ir. Amanhã posso ver-te?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sim, claro que podes ver-me. Amanhã cá estarei.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Bons sonhos para ti.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Bons sonhos para ti também, menina das cinco tranças.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sabes uma coisa? – disse Ynari.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– O que é?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Os sonhos ajudam-me a viver. Acho que eles também me vão ajudar a descobrir a minha magia…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Ynari foi a correr em direcção à sua aldeia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Era o segundo dia a seguir à caçada e ninguém se zangou por ela ter chegado um pouco mais tarde.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Ynari foi-se deitar e teve um sonho com muitas palavras novas. Durante o sonho, um velho muito velho que explica o significado das palavras explicou-lhe o que queria dizer a palavra «permuta». Ela fez muitas perguntas a esse velho muito velho, e finalmente pensou que uma permuta era uma troca justa, em que alguém dá alguma coisa e também recebe algo, pode não ser do mesmo tamanho, ou da mesma cor, ou até do mesmo sabor... Mas Ynari entendeu que numa permuta é bom que duas pessoas, ou dois povos, fiquem contentes com o resultado dessa troca.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;A menina das cinco tranças acordou muito cedo nesse dia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Caminhou em direcção ao rio. As suas águas estavam calmas e Ynari pensou que se calhar os peixes ainda estavam a dormir, e talvez estivessem mesmo a sonhar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Dos capins altos saiu, mais uma vez, o homem pequeno e mágico.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Bom dia, homem pequeno e mágico – sorriu Ynari. – Estou contente por te ver!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Bom dia, menina das cinco tranças. Eu também estou contente por te ver.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sabes, esta noite tive mais um sonho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– E queres contar-me? – sentou-se o homem pequeno e mágico.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sonhei primeiro com um velho muito velho que explica o significado das palavras.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sim, sei quem é.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– E ele explicou-me o significado da palavra «permuta»... Mas eu também queria perguntar coisas sobre a palavra «guerra». Eu até sei como usam essa palavra, mas... para que serve a palavra «guerra»?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sabes, Ynari, embora eu não seja o velho muito velho que explica o significado d&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;as palavras, também eu tenho guardado no meu coração o significado de algumas palavras. E eu acho que a palavra «guerra» não serve para nada!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– E a palavra «explosão»?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Eu acho que a palavra «explosão» só devia ser usada noutras situações, não em situações de guerra.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Em que situações? – perguntou Ynari, enquanto olhava para o rio, porque os peixes já saltavam, já tinham acordado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Queres pensar comigo? – disse o homem pequeno e mágico.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Começa tu – pediu Ynari.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Então, eu acho que a palavra «explosão» podia ser mais utilizada entre as estrelas. Quando elas chocam, nós aqui no planeta Terra vemos uma coisa linda acontecer no céu...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Ah!, que bonito – exclamou Ynari. – E uma «explosão de alegria», pode ser?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Claro! – riu bem alto o homem pequeno e mágico. – E uma «explosão de cores»?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Também... Também pode ser.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Estiveram um bom tempo em silêncio observando os peixes que nadavam e os pássaros que voavam. Realmente, quando se sabe ver as coisas simples da vida, descobre-se que o mundo é muito, muito bonito.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Ynari, a menina das cinco tranças, deu a mão ao homem pequeno e mágico, e foram caminhando junto ao rio, sempre para sul.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Eu acho que já descobri a minha magia – disse a menina. – Podes vir comigo a cinco aldeias?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Posso, se quiseres que eu vá contigo...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Quero. Quero que vejas o que eu vou fazer e que depois vás à tua aldeia dar um recado meu à velha muito velha que destrói as palavras&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Está bem – concordou o homem pequeno e mágico.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Ynari tinha aprendido com o homem pequeno que um sítio fica muito perto se quisermos que esse sítio esteja perto de nós.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Caminharam muito, mas não estavam cansados, e assim chegaram à primeira aldeia. Ynari bateu as palmas e o soba da aldeia veio falar com eles.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Bom dia, mais-velho – Ynari cumprimentou. Mas o mais-velho não escutou porque era surdo. Então Ynari falou com ele por gestos e ele entendeu.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Bom dia, menina – disse, por gestos, o mais-velho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Diz-me uma coisa: esta aldeia está em guerra?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sim, estamos em guerra com outra aldeia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– E porquê?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Porque nós não ouvimos os passarinhos, e eles ouvem! E nós também queremos ouvir os passarinhos, as quedas-d&apos;água, a voz das pessoas – gesticulou o mais-velho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Já entendi, mas diz-me uma coisa...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– O que é? – perguntou o mais-velho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Se eu vos ensinar a ouvir os passarinhos, vocês deixam de estar em guerra?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sim. Nós só queremos saber usar a palavra «ouvir».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Muito bem. Então peço-te que juntes todo o teu povo hoje de noite, faças uma fogueira, arranjes uma cabaça. E eu vou ensinar-vos a palavra «ouvir».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Assim foi.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Preparou-se a festa, uma cabaça enorme foi posta ao lume, e toda a aldeia foi chamada para estar presente. Afinal, estava na aldeia uma menina com cinco tranças que ia ensinar a palavra «ouvir».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Ynari pediu que todos os habitantes da aldeia fizessem uma fila, trouxessem do rio um bocadinho de água na mão, e pusessem essa água na cabaça. A fogueira já estava acesa, já todos tinham posto o seu bocadinho de água na cabaça, quando Ynari disse algumas palavras, e depois ouviu-se a palavra «permuta». Com a catana do mais-velho ela cortou uma trança e deitou-a na enorme cabaça.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Agora vão todos dormir... – pediu Ynari.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;No dia seguinte, quando acordaram, ainda saía fumo da cabaça enorme, e em cima dela estavam muitos passarinhos de muitas cores a cantar. O mais-velho da aldeia desatou a dançar alegremente porque podia ouvir os passarinhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Ele quis saber onde estava a menina das cinco tranças, mas ela já não estava na aldeia, e já não tinha cinco tranças...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;A menina das quatro tranças caminhava com o homem pequeno em direcção à segunda aldeia, que era a aldeia dos que não podiam dizer palavras. Também nesta aldeia se comunicava com gestos, e assim Ynari percebeu que estas pessoas não conseguiam falar. Mas Ynari tinha aprendido muitos gestos na aldeia anterior e não teve dificuldade em entender as pessoas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Assim, mais uma vez por gestos, começou a falar:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Chamo-me Ynari e venho ensinar o significado da palavra «falar»...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Pois... – lamentou-se, por gestos, o mais-velho daquela aldeia. – Nós não conseguimos «falar», e por isso andamos em guerra com outra aldeia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Já entendi. Mas diz-me uma coisa...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– O que é? – perguntou o mais-velho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Se eu vos ensinar a «falar», vocês deixam de estar em guerra?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sim. Nós só queremos conseguir «falar».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Muito bem. Então peço-te que juntes todo o teu povo hoje de noite, faças uma fogueira, arranjes uma cabaça. E eu vou ensinar-vos a «falar».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Entendi, mas diz-me uma coisa – gesticulou o mais-velho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– O que é? – perguntou Ynari.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Porque usas quatro tranças?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Porque já só preciso de quatro tranças para usar a palavra «paz» – sorriu&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;a menina das quatro tranças.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Ah sim? Então mostra-nos como é.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Hoje à noite mostro... – disse Ynari, enquanto piscava o olho ao homem pequeno que estava de mãos dadas com ela.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Assim foi.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Como já tinha acontecido na outra aldeia, todos trouxeram na mão um pouco de água do rio, todos estiveram junto à fogueira vendo Ynari murmurar as palavras estranhas, a palavra «permuta», e vendo também a sua quarta trança ser cortada. Depois Ynari pôs a trança dentro da enorme cabaça e todos foram dormir.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Pela manhã, o mais-velho daquela aldeia desatou aos gritos, imitando os passarinhos e os galos, muito contente porque já conseguia «falar».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Entretanto, a menina das três tranças e o homem pequeno já estavam a caminho de outra aldeia: a aldeia daqueles que não viam o rio. Estes podiam «falar» e até «ouvir» mas andavam na guerra porque queriam «ver». O mais-velho explicou a Ynari que era muito difícil estar na guerra sem ver nada, que morria muita gente por causa disso, e Ynari explicou-lhe que a guerra era isso mesmo, uma cegueira que só trazia mortes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Mas diz-me uma coisa...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– O que é? – perguntou o mais-velho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Se eu vos ensinar a «ver», vocês deixam de estar em guerra?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sim. Nós só queremos saber «ver».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Muito bem. Então peço-te que juntes todo o teu povo hoje de noite, faças uma fogueira, arranjes uma cabaça. E eu vou ensinar-vos a «ver».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Entendi, mas diz-me uma coisa – gesticulou o mais-velho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– O que é? – perguntou Ynari.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Por que usas três tranças?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Porque já só preciso de três tranças para usar a palavra «paz» – sorriu a menina.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Ah sim? Então mostra-nos como é.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;E mais uma vez se reuniu o povo, se acendeu a fogueira com muito cuidado, e Ynari murmurou as suas palavras estranhas, a palavra «permuta», e &lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;cortou a terceira trança. Depois todos se foram deitar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;No dia seguinte, o mais-velho da aldeia desatou aos gritos logo muito cedo, pois tinha sido acordado pelos primeiros raios de Sol. Todos alegres, foram olhar as coisas: o rio, os animais, a cor das flores e do céu, e já não tinham nenhuma razão para usar a palavra «guerra».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Ainda mais para sul a menina e o homem pequeno chegaram à aldeia dos que não sentiam o cheiro das flores. O mais-velho da aldeia explicou a Ynari que eles nunca tinham sentido o cheiro das coisas, da fruta, do peixe-seco, da fuba. E que estavam em guerra com outra aldeia para que pudessem saber o significado da palavra «cheirar».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Mas diz-me uma coisa...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– O que é? – perguntou o mais-velho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Se eu vos ensinar a «cheirar», vocês deixam de estar em guerra?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sim. Nós só queremos saber «cheirar».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Muito bem. Então peço-te que juntes todo o teu povo hoje de noite, faças uma fogueira, arranjes uma cabaça. E eu vou ensinar-vos a «cheirar».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Entendi, mas diz-me uma coisa – quis saber o mais-velho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– O que é? – perguntou Ynari.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Porque usas duas tranças?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Porque já só preciso de duas tranças para usar a palavra «paz» – sorriu a menina.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Ah sim? Então mostra-nos como é.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;E foi o mesmo de sempre: cabaça enorme, fogueira, todos de água na mão, e Ynari murmurando as palavras estranhas, a palavra «permuta», e cortando mais uma trança.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;No dia seguinte, todos naquela aldeia sentiram o cheiro das flores, muitos espirraram por causa do pó das asas das borboletas, outros brincaram deitados no chão cheirando a relva ou pequenas flores.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Ynari caminhava de mãos dadas com o homem pequeno e chegaram à quinta aldeia. Nesta aldeia não sentiam o sabor dos alimentos. Comiam de tudo, mas não conheciam a diferença entre o doce e o salgado, entre a manga e o maboque, entre a cana-de-açúcar e o peixe-seco. E só por isso andavam em guerra.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Bom dia, mais-velho... – Ynari cumprimentou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Bom dia, menina de uma trança só – disse o mais-velho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Diz-me uma coisa: esta aldeia está em guerra?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sim, estamos em guerra com outra aldeia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– E porquê?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Porque nos não sabemos o significado da palavra «sabor»! E nós também queremos experimentar o «sabor» dos alimentos – explicou o mais-velho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Já entendi... Mas diz-me uma coisa...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– O que é? – perguntou o  mais-velho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Se eu vos ensinar a sentir o «sabor», vocês deixam de estar em guerra?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sim. Nós só queremos saber usar a palavra «sabor».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Muito bem. Então peço-te que juntes todo o teu povo hoje de noite, faças uma fogueira, arranjes uma cabaça. E eu vou ensinar-vos a palavra «sabor».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Mas diz-me uma coisa – quis saber o mais-velho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– O que é? – perguntou Ynari.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Porque usas uma trança só?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Porque já só preciso de uma trança para usar a palavra «paz» – sorriu a menina.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Ah sim? Então mostra-nos como é.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Era uma aldeia muito grande, e também foi grande a fila que fizeram desde o rio até à cabaça enorme que estava em cima do fogo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Ynari, a menina que já só tinha uma trança, murmurou as palavras estranhas, disse a palavra «permuta», e cortou a última trança que tinha. Depois falou para todos:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Hoje usei a minha última trança. Amanhã de manhã, já podem comer as frutas e todos os alimentos sabendo o significado da palavra «sabor». Queria pedir-vos uma coisa: deixem de usar a palavra «guerra». Estive numa aldeia onde ninguém conhecia o significado da palavra «ver», e andavam em guerra com outra aldeia pensando que isso lhes ia ensinar a «ver». Mas não, a palavra «guerra» é parecida com a palavra «desaparecer», que é parecida com as palavras «deixar de viver». A partir de amanhã não procurem mais a palavra «guerra» porque ela vai deixar de existir... – piscou o olho ao homem pequeno.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Na manhã seguinte, muito cedo, as pessoas da aldeia foram comer, comeram muito, até de mais, porque queriam conhecer os vários significados da palavra «sabor», que era diferente se comessem peixe ou carne, banana ou mandioca.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Caminhavam de novo junto ao rio. Ynari, a menina sem tranças, e o homem pequeno voltaram a sentar-se no mesmo sítio de sempre, onde pela primeira vez se tinham encontrado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sabes, homem pequeno – começou a falar Ynari. – Estou muito contente por ter descoberto a minha magia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Eu também estou contente por ti, Ynari.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Agora quero pedir-te um favor.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– E qual é?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Quando chegares à tua aldeia, vai falar com a velha muito velha que destrói as palavras e diz-lhe que eu mandei por ti uma palavra para ela destruir...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Queres que ela destrua a palavra «guerra»?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sim. Explica-lhe o que vimos e o que ouvimos. Acho que é uma palavra que ela vai querer destruir.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Está bem, vou dar o teu recado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Olha, tenho que ir. Na minha aldeia já devem estar preocupados. Desta vez demorámos mesmo muito tempo – sorriu a menina sem tranças.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Está bem – concordou o homem pequeno.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Acho que está na hora de usarmos a palavra «despedida»...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Também acho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sabes uma coisa, homem pequeno?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– O que é, Ynari?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Para mim, a palavra «despedida» tem muito da palavra «encontro» e um bocadinho também da palavra «saudade».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Explica-me – disse o homem pequeno enquanto se levantava.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Não sei explicar muito bem... Mas, desde a primeira vez que te vi, eu senti uma coisa no meu coração...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– No teu coração?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sim, cá dentro, neste coração que é pequenino e que é tão grande... Eu vou contar-te um segredo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Conta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Mas não digas nada ao velho muito velho que inventa as palavras.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Está bem – sorriu o homem pequeno.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Eu acho que o meu coração também inventa palavras... No dia em que te vi, logo, logo, o meu coração inventou para nós a palavra «amizade».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Eu sei, Ynari, eu também senti o mesmo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– A sério?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sim – disse o homem pequeno. – Agora já sabes...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Já sei o quê? – perguntou Ynari, a menina sem tranças.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Assim como há um velho muito velho que inventa as palavras, também o nosso coração, quando precisa, sabe inventar palavras.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Ynari levantou-se. Já tinham usado a palavra «despedida», agora estavam a usar as palavras «olhar para o outro». Estiveram assim algum tempo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Quando é que nos voltamos a ver? – perguntou Ynari.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Sempre que quisermos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Mas tu vives tão longe...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Há muitas maneiras de se ir muito longe – disse o homem pequeno.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Diz-me uma.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Tu sabes...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Achas que posso apanhar boleia do humbi-humbi?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– É uma ideia, ele é rápido.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Mas eu sou tão pesada para ele...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Mas não és pesada para o coração dele – sorriu o homem pequeno.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Experimenta viajar no coração do humbi-humbi...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Está bem, está bem – começou a correr Ynari. – Adeus, até qualquer dia!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Adeus. Estamos juntos. Eu também sei viajar no coração do humbi-humbi.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;– Eu sei – disse Ynari. – Agora já sei!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;E, como dizem os mais-velhos, foi assim que aconteceu.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot; align=&quot;center&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot; align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Ondjaki&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot; align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;&lt;em&gt;Ynari a menina das cinco tranças&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot; align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Lisboa, Ed. Caminho, 2004&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot; align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Adaptação&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;</description>
  <comments>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/1749.html</comments>
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  <category>paz/guerra</category>
</item>
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  <pubDate>Thu, 05 May 2011 07:08:04 GMT</pubDate>
  <title>A hiena mazona</title>
  <author>hpt</author>
  <link>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/1323.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Outrora,&lt;/strong&gt; dois homens, Ali e Mustafá, atravessaram o deserto na companhia de um leão, uma serpente, uma hiena e um chacal.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;A certa altura, os alimentos acabaram-se e os seis viandantes começaram a sentir fome. Por sorte, chegaram a um oásis onde encontraram um camelo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Cansados da longa caminhada, decidiram amarrá-lo a uma palmeira, guardando para o dia seguinte a oportunidade de fazerem um saboroso petisco.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Mas a hiena, que é o animal mais sôfrego de quantos existem acima da Terra, ficou acordada magicando um estratagema para ficar com o camelo só para si.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Quando já todos estavam a dormir, aproximou-se do leão e disse-lhe ao ouvido:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Toma cuidado, que o chacal tem a intenção de nos roubar o camelo...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Ai sim?! — disse o leão. — Eu já lhe dou o arroz!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;a name=&quot;cutid1&quot;&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class=&quot;ljcut&quot; text=&quot;Continuação&quot;&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Aproximou-se do chacal que estava a dormir e, sem quaisquer explicações, deu-lhe uma valente paulada e matou-o instantaneamente. E deitou-se outra vez a dormir.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Um já está! — pensou a hiena.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Esta, assim que o leão adormeceu, foi ter com a serpente. Acordou-a e disse-lhe em voz baixa:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Viste o que o leão fez? Matou o chacal e desconfio que vai fazer o mesmo a todos nós, para poder ficar com o camelo só para si!...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Ai o vigarista! — comentou a serpente. — Ainda bem que me avisaste, porque eu vou cortar o mal pela raiz.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Chegou junto do leão e picou-o com os seus dentes venenosos, matando-o sem lhe dar tempo sequer de acordar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Já vão dois! — pensou a hiena esfregando as patas de contente e rindo da maneira que lhe é característica. Dali a pouco, estava junto de Ali, abanando-o.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Acorda, Ali. Sabes o que eu acabo de presenciar? A serpente assassinou o leão e o chacal. Não tarda que faça o mesmo connosco, para ficar com o camelo sozinha...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Traidora! Quem nos manda confiar nela?...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Ali acercou-se do réptil com uma grande pedra e, sem fazer ruído, esmagou-lhe a cabeça.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Três! — rejubilou a hiena. Quando Ali voltou a pegar no sono, a matreira besuntou-‑lhe as mãos com sangue dos animais mortos e correu em seguida a acordar Mustafá.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Acorda, Mustafá! Olha que Ali já matou a serpente, o chacal e o leão. Receio que queira  fazer-nos  o mesmo  a nós, para  ficar  sozinho com o camelo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Falas a sério? — admirou-se Mustafá.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Olha para ele e verás.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Então Mustafá atirou-se furiosamente ao companheiro, gritando:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Desgraçado! Estás a fingir que dormes? É verdade que mataste o leão, o chacal e a serpente? Desculpa-te, se puderes, caso contrário, pagarás com a vida o teu ardil!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Acordando estremunhado, Ali só dizia palavras sem sentido, como se na verdade tivesse sido apanhado em flagrante.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Mustafá erguia já o punhal e preparava-se para fazer justiça com as próprias mãos, quando se ouviu uma voz:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Alto lá! Não é ele o assassino!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Era o camelo que, amarrado à sua palmeira, tinha presenciado tudo desde o princípio e explicou tintim por tintim como as coisas se tinham passado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Mas antes que o camelo acabasse de falar, já a hiena tinha dito de si para si: “Pernas para que vos quero”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Os dois homens agradeceram muito ao camelo: um por lhe ter salvo a vida, o outro por lhe ter evitado cometer um assassínio. E acabados os agradecimentos desamarraram a sua “refeição”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Estás livre. Podes ir à tua vida. Nós, porém, temos de ficar sem comer até ao próximo oásis.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Não se preocupem — tranquilizou-os o camelo. — Eu ajudo-vos a encontrar comida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Quando amanheceu, conduziu-os até ao castelo dos génios do oásis.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;— Aqui encontrarão tudo quanto quiserem, comam e bebam, mas saiam antes do anoitecer, não vão os génios surpreender-vos quando chegarem.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Ali e Mustafá assim fizeram e, a meio da tarde, saíram do castelo, bem comidos e bebidos...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;A hiena, que os tinha seguido de longe, mal os viu sair, resolveu entrar. Porém não foi capaz de refrear a gula e comeu, comeu... sem dar pelas horas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;À noite, os génios regressaram ao castelo e, vendo-a a empanturrar-se com aquilo que lhes pertencia, mataram-na, sem lhe desejarem sequer “bom apetite”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Desde esse dia que se diz:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Muitas vezes procuramos&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;a verdade pelo lado de cá&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;e ela está do lado de lá.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;em&gt;Fábulas africanas&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Lisboa, Editorial Além-mar, 1991&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Adaptação&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;</description>
  <comments>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/1323.html</comments>
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  <category>fábulas africanas</category>
  <category>histórias</category>
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  <pubDate>Thu, 05 May 2011 07:01:33 GMT</pubDate>
  <title>Que bom ter família</title>
  <author>hpt</author>
  <link>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/1150.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot; align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Era uma terra&lt;/strong&gt; onde uma grave epidemia atingia homens e animais. Só sobreviveu o homem mais forte. Mas, um dia, apareceu-lhe uma ferida num joelho e, não podendo bastar-se a si próprio, pediu a Deus que o ajudasse. Todos os dias se arrastava até à beira do caminho por onde passavam as pessoas de regresso do mercado e rogava-lhes: &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;— Dêem-me alguma coisa para comer e cortem-me este joelho que tanto me faz sofrer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Os viandantes davam-lhe de comer, mas não ousavam cortar-lhe o joelho. Não aguentando mais, um dia o pobre doente pegou numa faca e abriu o joelho. Qual não foi o seu espanto ao ver que, do corte que tinha feito, saíram três lindas meninas. Agradeceu a Deus por ter escutado a sua súplica e regressou à aldeia onde construiu uma pequena cabana para morar com as suas filhas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Passados alguns anos, as meninas atingiram a maioridade. O pai já podia deixá-las sozinhas para ir à caça. Durante a ausência do homem, uns pastores que andavam nos arredores viram as moças e apaixonaram-se logo por elas. Quiseram levá-las para casa, onde se casariam.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Mas as jovens, que gostavam muito do pai, não queriam dar-lhe um desgosto e, por isso, não podiam deixá-lo sem o avisar. Despediram-se dos pastores, convidando-os a voltar no dia seguinte.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Quando o pai regressou, elas, entusiasmadas, contaram-lhe tudo. O velho ficou triste, mas as filhas consolaram-no dizendo:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;a name=&quot;cutid1&quot;&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class=&quot;ljcut&quot; text=&quot;Continuação&quot;&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;— Mesmo que vamos morar para longe, tu não vais perder-nos, pois podes visitar-nos quando desejares.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;E, com carinho, ensinaram ao pai o caminho para a aldeia dos seus pretendentes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;No dia seguinte, o pai saiu outra vez para caçar, os jovens voltaram como tinham combinado com as moças. Estas, depois de tratar da casa e de preparar a comida para o pai, partiram com os rapazes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;O homem viveu dois meses completamente só, mas depressa sentiu saudades das filhas e pensou em ir visitá-las. Meteu-se a caminho, seguindo o carreiro que elas lhe haviam ensinado. Quando as filhas o viram chegar, correram felizes ao seu encontro, fizeram-lhe muitas festas e prepararam-lhe, com a ajuda dos maridos, uma óptima refeição. O homem pensou:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;&lt;em&gt;Tudo o que Deus faz&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;&lt;em&gt;é uma maravilha&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;&lt;em&gt;mas o melhor de tudo&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;&lt;em&gt;é a família.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;center&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Fábulas africanas&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #333300;&quot;&gt;Lisboa, Editorial Além-Mar, 1991&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;</description>
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  <category>família</category>
  <category>fábulas africanas</category>
  <category>histórias</category>
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  <pubDate>Wed, 04 May 2011 15:43:52 GMT</pubDate>
  <title>A viagem de Djuku</title>
  <author>hpt</author>
  <link>http://historiasptodos.blogs.sapo.pt/1000.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;em&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Nem sempre prestamos atenção às pessoas&lt;/strong&gt; que nos rodeiam e, mais raramente ainda, procuramos saber qual é a sua história – será que nos falta ousadia?&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;introduo&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;em&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Vinda de muito longe, Djuku é uma dessas pessoas; aqui está um pedaço da sua história.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;h2 style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;1&lt;/span&gt;&lt;/h2&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;No exacto momento em que parte, Djuku apercebe-se de que é a primeira vez que deixa a sua aldeia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Desde o seu nascimento até hoje, Djuku viveu sempre rodeada pelos seus na pequena aldeia à beira da savana. Ela conhece cada recanto. E ninguém lhe é ali desconhecido. Do mesmo modo, todos os aldeões sabem quem é Djuku:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;&lt;em&gt;— &lt;/em&gt;Djuku? É aquela que sabe assobiar, melhor até do que um pássaro!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;&lt;em&gt;— &lt;/em&gt;Quando há por aqui almoço de festa ou de cerimónia, é sempre Djuku quem os faz: ela conhece todas as receitas e até inventa mais!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;É verdade que Djuku cozinha galinha como ninguém, mas hoje Djuku vai-se embora. Decidiu partir para longe, muito longe. É que aqui na aldeia, apesar dos amigos, apesar das cerimónias, não há trabalho suficiente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Fez-se à estrada e fixa os olhos na linha do horizonte para não se voltar, para não chorar. Bem, vamos lá a ver, partir assim é demasiado duro. Então, uma última vez, e antes que a aldeia desapareça na desordem das ervas altas, ela olha-a. Olha-a durante tanto tempo e tão apaixonadamente que todas as coisas onde o seu olhar toca entram no seu corpo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Agora sim, Djuku pode pôr-se a caminho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;A velha guitarra de Quecuto entra no seu corpo. E com ela todos os perfumes das músicas tantas vezes ouvidas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;A palmeira inclinada e o embondeiro do largo entram no seu corpo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;O caldeirão de Nhô-Nhô entra no seu corpo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;A casa de Pepito entra no seu corpo, apesar do seu tecto desgrenhado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;A barca e as redes de pesca de Benvindo que repousam sobre a areia entram no seu corpo. Sente que todas estas coisas estão dentro dela firmemente atadas como carga de um navio. Sente que, a cada passo dos muitos que dará, a aldeia estará consigo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;h1 style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;2&lt;/span&gt;&lt;/h1&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Durante a viagem de vários dias, as descobertas sucedem-se e deslumbram Djuku. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;a name=&quot;cutid1&quot;&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class=&quot;ljcut&quot; text=&quot;Continuação&quot;&gt;Pouco a pouco, ela esquecerá a aldeia.
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Atravessa imensas planícies acariciadas por ventos amistosos e cruza montanhas azuis onde chega a pensar que morrerá de frio. Incontáveis rios e ribeiras fazem-lhe companhia no seu périplo e, enquanto caminha ao longo das margens, as águas tumultuosas e murmurantes contam-lhe histórias fabulosas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Muita gente se empurra na berma da estrada para a ver passar. Alguns aconselham-na a fazer meia volta, pois é uma grande loucura. Outros, pelo contrário, encorajam-na, oferecem-lhe pequenas prendas, que ela se apressa a dar por sua vez, mal entra numa nova aldeia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;«Convém ir ligeiro quando se viaja», diz ela de si para si, e logo acrescenta: «Gosto destes dias, gosto destes perfumes novos.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Pela primeira vez desde há muito tempo, Djuku sente-se extremamente feliz, pondo um pé à frente do outro com uma espécie de bebedeira. Pressente que a sua viagem chegou ao fim quando certa noite viu desenhar‑se no horizonte uma barreira sombria de grandes edifícios iluminados aqui e ali por pequenas cintilações.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;&lt;em&gt;— &lt;/em&gt;Eis a cidade que eu procurava &lt;em&gt;— &lt;/em&gt;disse Djuku simplesmente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Decide que só entrará no dia seguinte.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;h1 style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;3&lt;/span&gt;&lt;/h1&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Pela manhã, muito cedo, Djuku entra na cidade quase deserta àquela hora.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Alguém, todo vestido de amarelo, lava as ruas com grande quantidade de água. Um pouco mais adiante, um condutor de autocarro sem passageiros assobia alegremente enquanto faz manobras. Djuku ziguezagueia na calçada com a impressão de que caminha sobre terreno virgem.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Não presta atenção à grande mosca verde barulhenta que engole com uma boca gigantesca os últimos pedaços de noite, até que esta, depois de muito mastigar, se atira a ela. Djuku vacilou e quase caía se antes uma vaga de pessoas, vindas de lado nenhum, não a levasse em uma louca cavalgada. São milhares de homens e de mulheres que se precipitam para os seus locais de trabalho. Viram à direita e à esquerda, sem nexo, embrenham-se nas entranhas da terra para logo saírem mais adiante, sobem e descem escadas, corredores, ruas e depois avançam a golpes de gritos e assobios, de buzinas e apitos ululantes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;&lt;em&gt;— &lt;/em&gt;É uma floresta de gente em marcha! &lt;em&gt;— &lt;/em&gt;exclama Djuku, que nunca tinha visto tanta gente na sua vida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Desta vez ninguém lhe oferece presentes, nem lhe pergunta de onde vem.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Djuku deixa-se levar ao sabor da corrente durante toda a manhã, incapaz de resistir, sacudida por uns, empurrada por outros, sem saber para onde ir. Ao meio-dia, quando a corrente diminuiu de intensidade, Djuku, com o corpo extenuado e os pés doridos, consegue escapar-se e vai encalhar um pouco adiante no banco de uma praça.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;&lt;em&gt;— &lt;/em&gt;Por pouco não me afogava nesta maré! &lt;em&gt;— &lt;/em&gt;suspira Djuku massajando os tornozelos. &lt;em&gt;— &lt;/em&gt;Ninguém me tinha dito que havia transumâncias.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Lentamente retoma o fôlego e passeia o seu olhar, tentando descobrir onde acabou por cair. É uma pequena praça, tendo ao centro um relvado careca, com um trio de árvores enfezadas e um cão minúsculo que cabriola entre uma e outra para as aspergir. A toda a volta estão casas de fachada rosa-cinza e umas quantas pequenas lojas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Djuku repara que na montra de cada uma há um anúncio pendurado. Aproxima-se da loja mais próxima e lê: «Procura-se aplicadora de champô em cães mimados. Pede-se C.V.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;&lt;em&gt;— &lt;/em&gt;Isto não é para mim &lt;em&gt;— &lt;/em&gt;diz Djuku &lt;em&gt;— &lt;/em&gt;nem sei o que é!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;A loja seguinte desejava encontrar rapidamente uma «comediante para duas tragédias» e o terceiro anunciava: «Uma profissão brilhante? Torne-se lavadora de azulejos.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;&lt;em&gt;— &lt;/em&gt;É demasiado arriscado. Para mim não serve! &lt;em&gt;— &lt;/em&gt;suspira Djuku.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;A quarta loja procurava uma «operadora-de-máquina-electricista a meio‑tempo para grandes reparações em brinquedos delicados».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;&lt;em&gt;— &lt;/em&gt;Oh, isso é muito complicado. Também não é para mim – diz uma Djuku já desolada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;A quinta loja é um restaurante chamado BARRIGA DA BALEIA, e um cartaz escrito à mão explica: «Boa cozinheira? Entre depressa!»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;&lt;em&gt;— &lt;/em&gt;Claro que vou entrar! &lt;em&gt;— &lt;/em&gt;exclama logo Djuku &lt;em&gt;— &lt;/em&gt;isto sim, é para mim.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;h1 style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;4&lt;/span&gt;&lt;/h1&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Mal Djuku passa a soleira da porta do restaurante, é acolhida por um pequeno homem bonacheirão, o patrão, o senhor Isidoro, que quase logo a aceita como cozinheira.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Quase logo, porque lhe pergunta antes se ela sabe «distinguir o sal da pimenta, é que, sabe, tenho clientes que não são nada fáceis!». E diz-lhe em seguida, mostrando o menu:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;&lt;em&gt;— &lt;/em&gt;Bem, está tudo aí, não é complicado e a partir deste momento a chefe da cozinha é você!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;&lt;em&gt;— &lt;/em&gt;De resto &lt;em&gt;— &lt;/em&gt;corrige-se ele &lt;em&gt;— &lt;/em&gt;o chefe do aprovisionamento é você também, e o chefe da condimentação é também você, além, é claro, das idas ao mercado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Nas semanas que se seguiram, ao ver tantas vezes o senhor Isidoro junto à porta do restaurante, Djuku compreendeu o ar de satisfação dele ao dizer‑lhe aquilo tudo. O senhor Isidoro adora fazer a sesta na BARRIGA DA BALEIA.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Djuku aproveitou este cargo para fornecer a cozinha de novos condimentos: coentros, cominhos, funcho, menta, alecrim. E para modificar os pratos, cozinhando ou temperando de maneira diferente as carnes, os legumes, os peixes. Nem toda a gente gostou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;&lt;em&gt;— &lt;/em&gt;Socorro, tenho a garganta a arder &lt;em&gt;— &lt;/em&gt;gritava um cliente de vez em quando.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;&lt;em&gt;— &lt;/em&gt;Querem envenenar-me, chamem a polícia! &lt;em&gt;— &lt;/em&gt;vociferavam outros.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Mas o senhor Isidoro não se deixava convencer, e nada dizia, até porque a maioria dos clientes aprovava a mudança e Djuku conseguia realizar pratos suculentos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Uma nova vida começava para Djuku na BARRIGA DA BALEIA.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;h1 style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;5&lt;/span&gt;&lt;/h1&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Se alguma coisa atraiu a atenção do senhor Isidoro foram as mãos de Djuku. Aliás, ao longo dos vários meses que Djuku passou a trabalhar na BARRIGA DA BALEIA, as coisas resumiam-se a isto: para ele e para os clientes habituais do restaurante, Djuku não era mais que duas mãos, uma esquerda genial, uma direita fabulosa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Convém saber que, durante o dia, Djuku não aparecia na sala do restaurante, e como ela vinha trabalhar de manhã cedo, só saindo muito depois do fecho, ninguém sabia ao certo quem ela era, como ela era. Só as suas mãos eram conhecidas do «público».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;É que era um espectáculo, como dizer, real, ver aquelas mãos elevando um prato através da abertura que separa a cozinha da sala do restaurante. Djuku, numa palavra atirada ao criado de servir, anunciava o prato, mas a sua voz é demasiado doce para ser ouvida. Em palco estavam apenas as suas mãos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Os clientes que pediam, fosse um qualulu, fosse uma galinha com molho de amendoins, passavam os minutos seguintes de olhos postos na abertura. Não eram poucos aqueles, mais nervosos, que chegavam a roer as unhas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;&lt;em&gt;— &lt;/em&gt;Deviam ter pedido também uma entrada &lt;em&gt;— &lt;/em&gt;aconselhava-os sempre o senhor Isidoro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;As mãos de Djuku são as suas ferramentas e o seu tesouro. Não serão o que podemos chamar belas: a palma é larga, os dedos finos de tamanho médio e bem assentes, as unhas compridas tratadas. A pele neste lugar do corpo parece um pergaminho e, no caso dela, é riscado por pequenas cicatrizes (talvez o preço de uma distracção no momento da aprendizagem).&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;É mesmo a graça dos seus gestos, a agilidade, o que encanta os clientes da BARRIGA DA BALEIA. As mãos dançam ao redor dos pratos até ao momento da entrega. Acontece às vezes descansarem na borda da abertura. Estarão a contemplar, satisfeitas, a vida ruidosa da sala do restaurante? Ou será que esperam alguém ou alguma coisa? É difícil saber. Elas partem sempre de súbito, saltitantes, para se agitarem ao redor dos fogões.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;h1 style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;6&lt;/span&gt;&lt;/h1&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;&lt;em&gt;— &lt;/em&gt;Uau, este frio gela-me as mãos e o senhor Isidoro que nunca mais vem! Deve estar na cama, tudo lhe serve de pretexto para se lá meter! – constata Djuku divertida ao abrir as portas da BARRIGA DA BALEIA.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Não que precise do seu patrão para pôr em andamento a cozinha, ela já conhece o ritual. De imediato, deita mãos ao trabalho, pois tem muito que fazer. Acende os fornos, tira os alimentos da arca congeladora, e logo os seus dedos se afadigam, descascam legumes, amassam as pastas, preparam os caldos, confeccionam as sobremesas. Durante toda a manhã, Djuku não terá um minuto de descanso, mas assim que, aí pelo meio-dia, chegarem os primeiros clientes, tudo estará pronto. Nestas alturas, a aldeia está em bem longe. Djuku nem sonha.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Ao meio-dia dispara o tiro de partida! Todos os clientes afluem para almoçar. A confusão ameaça. Mas a comandante Djuku está ao leme e a BARRIGA DA BALEIA não aderna e continua a sua rota.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Segue-se a calma da tarde. Djuku conta com um repouso bem merecido. Mas, com cada vez mais frequência, é assaltada por antigas imagens, incómodas como crianças turbulentas mantidas demasiado tempo à mesa e que têm necessidade de esticar as pernas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;«Antes», pensa, «todos sabiam quem era Djuku, agora eu sou uma sombra que passa, que vai para o trabalho de manhã e que regressa à noite. Aqui ninguém me conhece, sou uma sombra sem história.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Olha à sua volta e o que vê fá-la sorrir: ela imagina a aldeia, a savana, os campos de arroz, o sol quente na sua pequena cozinha!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;«Por que raio não será isso possível? Um dia», pensa, «será preciso que o que eu vivi se case com o que eu vivo, que o restaurante fique noivo da aldeia.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Uma ideia engraçada que a fez, primeiro, rir e, depois, chorar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;h1 style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;7&lt;/span&gt;&lt;/h1&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;É noite. O restaurante está fechado. Um a um, todos os clientes se foram. Até o senhor Isidoro já foi para sua casa. Djuku ficou sozinha. Sentada, olha as palmas das mãos, a geografia das rugas da sua pele, talvez procurando um caminho a seguir.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Tudo está calmo na cozinha. Mas Djuku ouve um barulho imenso. Os objectos, acolchoados no interior dela, estão ali, agitados, barulhentos, e querem escapar a qualquer preço.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;«O vosso lugar não é aqui», suplica Djuku, «deixem-se estar sossegados.» Eles não queriam ouvir nada e continuaram com a sua terrível algazarra. Então, uma vez mais, Djuku conta a história a si mesma. Em voz alta, invoca a aldeia e as suas gentes, o calor que faz quando o Sol atinge o seu zénite, o odor do carvão de madeira, do peixe que foi posto a secar nos telhados das casas, o da poeira que tudo invade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Absolutamente decidida, entra no restaurante.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;A sua memória, tão viva, apazigua-se a pouco e pouco. Quando tudo parece voltar a estar em ordem, que de novo nela se instalou a paz, Djuku deixa o restaurante e vai para casa descansar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;h1 style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;8&lt;/span&gt;&lt;/h1&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Quando Djuku cozinha, tudo o resto perde importância.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Os clientes na sala bem podem falar alto e grosso, a rádio e a televisão bem podem armar zaragata, que Djuku consagra-se à sua tarefa de tal maneira que só ouve as encomendas do criado de servir. Ela é como uma rainha no seu reino e cada uma das suas coisas, marmitas, panelas, pratos, talheres, especiarias, pratos ou fogões, a protegem da confusão, mantendo-a no centro daquele forte, a cozinha. Nem mesmo o senhor Isidoro pode ali entrar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Certo dia, contudo, um estranho projéctil atingiu Djuku em cheio: era uma palavra.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Uma palavra que havia escapado da boca do apresentador de televisão. Djuku deixou cair a batata e a faca que segurava nas mãos e deixou-se literalmente invadir. A palavra cresceu nela, ganhou balanço, fez-se furacão, explosão. Acabou por inundá-la, deixando apenas uma casca vazia, desorientada, frágil.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Djuku entrou na sala e dirigiu-se, hipnotizada, para a televisão. Ao vê-la de lágrimas nos olhos, os clientes calaram-se todos, olharam uns para os outros e interrogavam com esse mesmo olhar o senhor Isidoro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Este, sentado no lugar do costume, perguntou com voz inquieta:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;&lt;em&gt;— &lt;/em&gt;Está tudo bem, Djuku?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Ela não respondeu. Assoou o nariz com o punho. Soluçava.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;«Deve ter queimado os dedos», pensa um cliente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;&lt;em&gt;— &lt;/em&gt;Minha senhora, a caldeirada estava fa-bu-lo-sa, devorei-a todinha! Veja aqui o meu prato &lt;em&gt;—&lt;/em&gt; diz-lhe outro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;&lt;em&gt;— &lt;/em&gt;Mas o que é que se passa hoje? &lt;em&gt;— &lt;/em&gt;perguntaram de súbito a uma voz todos os clientes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Pela primeira vez desde a chegada de Djuku, os clientes da BARRIGA DA BALEIA viram-na e olharam-na verdadeiramente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;A palavra, insignificante para eles, era o nome da aldeia de Djuku.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;h1 style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;9&lt;/span&gt;&lt;/h1&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;O senhor Isidoro agarrou-a pelos ombros e fê-la sentar-se.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;&lt;em&gt;—&lt;/em&gt;Seca as tuas lágrimas, Djuku. Diz-nos o que te aconteceu.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Aconteceu então o seguinte. Djuku, que já havia retomado o fôlego, começou a contar e os objectos que estavam há tanto tempo dentro dela saíram da sua boca para virem, à vez, pontuar o seu discurso: a partida da aldeia, a viagem, a chegada à cidade, e à BARRIGA DE BALEIA, o trabalho e a sua grande solidão. Os clientes e o senhor Isidoro apanhavam os objectos à medida que eles surgiam.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;A velha guitarra de Quecuto saiu do seu corpo com os perfumes das músicas tantas vezes ouvidas, e um cliente apanhou-a para a tocar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;A palmeira inclinada e o embondeiro do lago saíram do seu corpo e um cliente pegou neles e foi pô-los junto à entrada do restaurante.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;O caldeirão do Nhô-Nhô saiu do seu corpo e um cliente colocou-o no meio da sala.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;A casa de Pepito saiu do seu corpo e os clientes apossaram-se dela para arrumar a sala.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;A barca e as redes de pesca de Benvindo saíram do seu corpo e os clientes colocaram-nas à sombra do embondeiro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Sim, logo em seguida Djuku sentiu-se aliviada e em paz. Viu as coisas que estavam nela firmemente atadas como carga de um navio partilhadas por todos. Percebeu imediatamente que a aldeia tinha desposado o restaurante.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Agora toda a gente conhecia a história de Djuku.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;&lt;em&gt;— &lt;/em&gt;Não podemos ficar aqui! &lt;em&gt;—&lt;/em&gt; disse alguém.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;&lt;em&gt;— &lt;/em&gt;É preciso festejar isto &lt;em&gt;—&lt;/em&gt; disse um outro &lt;em&gt;—&lt;/em&gt; como na aldeia!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot; align=&quot;center&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot; align=&quot;center&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Nota ao leitor&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Depois deste famoso dia, a divisória que separava a cozinha da sala do restaurante foi derrubada pelo senhor Isidoro com as suas próprias mãos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Leitor, se tiveres vontade de ir à BARRIGA DA BALEIA para saborear os melhores pratos que existem, não deixes de trocar dois dedos de conversa com Djuku, agora que ela cozinha no meio de todos. E já agora, por favor, pede-lhe da minha parte notícias da aldeia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Alain Corbel&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;&lt;em&gt;A viagem de Djuku&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #800000;&quot;&gt;Lisboa, Caminho, 2003&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</description>
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  <category>viagens</category>
  <category>histórias</category>
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  <pubDate>Wed, 04 May 2011 15:42:00 GMT</pubDate>
  <title>Morangos para o pequeno-almoço</title>
  <author>hpt</author>
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  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Nos anos que antecederam a libertação dos escravos nos Estados Unidos da América&lt;/strong&gt;, existiam várias rotas de fuga para os escravos que tentavam chegar ao Canadá, onde estariam a salvo. Muitas famílias, ao longo dessas rotas, ajudavam os escravos a esconder-se, alimentando-os e enviando-os para a próxima família da cadeia de solidariedade. Uma lei proibia a ajuda aos escravos e as famílias que o fizessem arriscavam-se a ser presas e obrigadas a pagar multas avultadas caso fossem descobertas. Mesmo assim, muitas famílias continuavam a ajudar, e muitos milhares de pessoas conseguiram, desta forma, alcançar a liberdade. Esta é uma de muitas histórias sobre o Underground Railroad (o Caminho de Ferro Clandestino) que consistia num grupo de pessoas que, de forma ilegal, ajudava os escravos a conseguir a liberdade antes da Guerra Civil Americana. Desta organização faziam parte os quakers, um grupo religioso originário do cristianismo, com uma forte implantação nos Estados Unidos da América&lt;/em&gt;&lt;em&gt;.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot; align=&quot;center&quot;&gt;♦  ♦  ♦&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot; align=&quot;center&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Por volta das cinco e meia de uma manhã&lt;/strong&gt; de Verão no sul do Ohio, a luz já forte do sol acordara Lucinda Wilson, uma rapariga de treze anos. Sentou-se imediatamente e, de seguida, ao sair da cama, lembrou-se: “Os morangos na colina já devem estar prontos para serem colhidos”. Lucinda tinha vindo a observar com ansiedade a colina coberta de morangos silvestres. Era com grande alegria que planeava agora surpreender a família com um cesto cheio de morangos maduros e deliciosos para comerem ao pequeno-almoço.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;Vestiu-se rápida mas silenciosamente para não acordar a irmã. Lucinda tinha dormido nessa noite na cama grande, uma vez que a sua irmã Mary, de dezassete anos, estava a passar alguns dias com uma amiga numa quinta vizinha, e Ruth, de quinze anos, dormia numa pequena alcova no enorme quarto do andar de cima.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;A casa da família Wilson ficava a alguma distância da estrada principal, e havia um caminho longo e estreito desde o portão até à porta de entrada da casa. Como este caminho parecia demasiado longo, Lucinda decidiu seguir por um atalho em direcção à colina dos morangos, que se estendia ao longo da estrada principal. Este atalho, que começava junto à capoeira, era praticamente invisível devido ao crescimento emaranhado dos arbustos. Lucinda correu até à rua e começou a subir a colina. Ali estavam os morangos, vermelhos e deliciosos. Começou a colhê-los rapidamente, mas o fundo do cesto não estava ainda coberto quando ouviu uma voz a chamá-la da estrada principal.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;Sobressaltada, olhou para baixo e viu dois homens a cavalo. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;a name=&quot;cutid1&quot;&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class=&quot;ljcut&quot; text=&quot;Continuação&quot;&gt;Não os conhecia e a sua primeira reacção foi pôr-se em alerta, pois a sua casa pertencia ao &lt;em&gt;Underground Railroad &lt;/em&gt;&lt;em&gt;[&lt;/em&gt;&lt;em&gt;Caminho de Ferro Clandestino].&lt;/em&gt;Estava certa de que estes homens eram caçadores de escravos. No momento seguinte, Lucinda viu que tinha razão. O homem que a chamara, de tez morena e mal-humorado, voltou a dirigir-lhe a palavra:
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;— Viste duas raparigas negras a passar por aqui? Duas raparigas de dezassete ou dezoito anos? Temos a certeza de que elas levam apenas alguns minutos de avanço.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;Lucinda acenou com a cabeça.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
Respondeu-lhes honestamente que tinha chegado nesse instante e que não tinha visto ninguém para além deles. Os cavaleiros seguiram caminho. Mas Lucinda não pensou mais nos morangos. Tinha a certeza de que as duas raparigas iriam para sua casa e de que aqueles homens as apanhariam mesmo à sua porta, a não ser que conseguisse avisá-las antes. Discretamente, olhou para os caçadores de escravos para se certificar de que nenhum deles estava a olhar para trás. Então, precipitou-se para a estrada e desatou a correr para casa.
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;Em poucos instantes estava no terreiro da quinta e entrou em casa de rompante. Mal abriu a porta das traseiras, ouviu a voz da mãe na parte da frente da casa. As raparigas já lá estavam, e os homens chegariam dentro de breves instantes. Sem fôlego, foi ter com a mãe e as raparigas ao vestíbulo. A porta ainda estava aberta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;— Fechem a porta! Fechem a porta rapidamente! Eles vêm aí! — disse, ofegante.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;No momento em que proferia estas palavras, viu um cavalo a aparecer. A mãe fechou a porta, trancou-a e olhou desesperadamente em volta, à procura de um esconderijo para as duas raparigas. Estas choravam apavoradas, pois tinham a certeza de que seriam arrastadas de volta e de que nunca mais seriam livres.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;— Rápido! Vão lá para cima! — disse Emily Wilson.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;Correram pelas escadas acima e entraram no quarto onde Ruth já estava a vestir-se. Esta, espantada, olhou para as quatro pessoas que tinham entrado de rompante.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;— Lucinda, veste a camisa de noite, põe a touca e mete-te na cama outra vez — disse a mãe.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;A mãe pegou nas roupas de Mary que estavam debaixo da almofada, e atirou-as a uma das fugitivas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;— Veste isto e deita-te na cama com a minha filha. Fica do lado da parede, de costas para a porta. Cobre bem a cara com a touca.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;As raparigas obedeceram imediatamente, e Emily Wilson levantou a tampa de uma arca grande feita de verga, que estava encostada à parede. Felizmente, estava quase vazia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;— Mete-te aí dentro — disse ela à outra rapariga, que obedeceu de imediato e se encolheu de modo a que a arca pudesse ser fechada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;Fez-se ouvir uma forte pancada na porta da frente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;— Ruth, veste o roupão, senta-te em cima da arca e tapa-a o mais possível. Os caçadores de escravos estão quase a chegar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;A mãe olhou de relance o quarto, para se certificar de que não havia indícios da presença das raparigas negras, e apressou-se a descer as escadas para abrir a porta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;— Bom dia, minha senhora! Nós andamos à procura das duas escravas que estão aqui — disse um dos homens.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;— A sério!? Como sabe que temos duas escravas aqui escondidas? — retorquiu ela.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;— Porque estávamos mesmo no seu encalço e temos a certeza de que não passaram daqui. Por isso, vai ter de nos deixar revistar a casa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;— Estejam à vontade! Mas garanto-vos que vai ser uma perda de tempo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;— Veremos! — respondeu o homem.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;Começaram a revistar todas as divisões da casa. Emily Wilson deixou-os abrir as portas e procurar à vontade até chegarem ao quarto das raparigas. Aí, pôs-se à frente deles.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;— As minhas três filhas dormem aqui e ainda é muito cedo. Meus senhores, peço-lhes que não entrem no quarto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;— Podem estar tanto aqui como em qualquer outro lugar — disse um dos homens. De seguida, abriu a porta e entrou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;Ali estavam as três raparigas, duas na cama, tapadas até às orelhas, a outra sentada, com o roupão sobre a arca, como se fosse apanhada de surpresa. No entanto, lá dentro, a fugitiva aterrorizada tremia de tal modo que Ruth tinha a impressão de que os homens deviam ver a arca a abanar. Sentou-se o mais pesado que conseguiu e cobriu a arca com o roupão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;Um pouco embaraçados, os homens deram uma vista de olhos rápida pelo quarto, abriram o guarda-vestidos e, como não encontrassem nada, saíram novamente, balbuciando um pedido de desculpas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;— Bem — disse um deles quando saíram do último quarto — parece que aquelas raparigas, afinal, já passaram por aqui. É melhor apressarmo-nos e talvez ainda as possamos apanhar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;— Eu avisei-vos de que seria uma perda de tempo — disse Emily Wilson calmamente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;De forma hospitaleira, ofereceu-lhes o pequeno-almoço, o que eles recusaram de imediato, pois estavam com pressa. Partiram a cavalo, e então as raparigas sentiram-se livres para poderem sair dos seus esconderijos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;— Ainda bem que decidi ir apanhar morangos para o pequeno-almoço. Ainda há tempo de voltar lá e encher o meu cesto. Afinal, vamos mesmo ter morangos para o pequeno-almoço — disse Lucinda.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;As duas raparigas ficaram tranquilamente em casa durante todo o dia. De madrugada, uma carroça coberta levou-as para outra casa de &lt;em&gt;quakers. &lt;/em&gt;Daqui, sem grandes riscos, foram levadas no dia seguinte, pois soube-se que os dois caçadores de escravos tinham perdido o seu rasto e declararam que as duas escravas fugitivas haviam desaparecido.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot; align=&quot;right&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot; align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;Anna Curtis&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot; align=&quot;right&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot; align=&quot;center&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot; align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;&lt;em&gt;Lighting candles in the dark&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot; align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;Philadelphia, FGC, 2001&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot; align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003366; background-color: #ffffff;&quot;&gt;(tradução e adaptação)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</description>
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  <category>história</category>
  <category>solidariedade</category>
  <category>reflexão</category>
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  <pubDate>Wed, 04 May 2011 15:39:29 GMT</pubDate>
  <title>Não há estranhos para mim</title>
  <author>hpt</author>
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  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot; align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Há muito, muito tempo&lt;/strong&gt;, quando eu era criança, o meu avô levou-me a visitar o seu pomar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;div class=&quot;posttext&quot;&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;― É o último bocadinho de terra que possuo, desde que vim viver para a cidade ― disse-me, enquanto cumprimentava toda a gente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;― Avô, como fazes para conhecer tanta gente? ― perguntei-lhe, enquanto corria para o acompanhar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Ele parou para esperar por mim.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;― Não os conheço pelo nome, conheço-os pelo coração. Sabes, Honey, &lt;em&gt;não há estranhos para mim&lt;/em&gt;.&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;― Porquê? ― perguntei, dando-lhe a mão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Sorriu alegremente e respondeu:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;― Porque eu e o meu coração somos livres.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Depois de caminharmos um pouco, disse:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;― Minha querida, sabias que nos tempos tristes da escravatura eu costumava andar com sementes de macieira no bolso, e acreditava que, quando fosse livre, haveria de as plantar no meu próprio pedacinho de terra?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;― Não, não sabia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;― Um dia, dei-me conta de que isso só aconteceria quando nós mesmos lutássemos pela liberdade. Então, uma noite, fugimos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;― Quem é “nós”?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;― Eu, a tua avó Polly, e a tua mãe, que era bebé na altura ― respondeu, acariciando os meus caracóis. ― Tínhamos medo, claro, mas fomos cuidadosos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Parou de falar, enquanto relembrava aqueles tempos…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;― Quando chegámos ao Norte, já tínhamos passado por muitos &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;a name=&quot;cutid1&quot;&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class=&quot;ljcut&quot; text=&quot;Continuação&quot;&gt;estranhos e por muitos perigos. Estávamos junto ao rio Ohio e éramos quase livres, quando nos demos conta de que a fome e o cansaço eram demasiado grandes para continuarmos a andar. Então, escondemo-nos num celeiro ali perto. Dormimos toda a noite, como há muito não fazíamos. De madrugada, um homem veio mungir as vacas, e a nossa bebé chorou. Ficámos petrificados. O nosso desespero era tanto que nos sentíamos capazes de atravessar o rio a nado, só para sermos livres! Nunca mais voltaríamos para trás!
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Passados todos estes anos, o meu avô ainda tremia só de pensar naqueles tempos. Peguei-lhe na mão com força.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;― O homem percebeu que não estava sozinho. Mas não olhou para a nossa cor; olhou para a nossa aflição. Era branco, mas ajudou-nos. Nunca me perguntou o nome, embora me dissesse o dele. Chamava-se James Stanton e era membro do &lt;em&gt;Caminho-de-Ferro Clandestino&lt;/em&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;― Oh! ― exclamei. ― Aquelas pessoas que ajudavam os escravos a viajar para o Norte?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;― Aqueles que nos ajudaram quando mais precisávamos. James e a mulher, Sarah, não viram na tua mãe uma menina negra, apenas um bebé com fome. Deram-nos de comer e ajudaram-nos a atravessar o rio na noite seguinte.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;― Isso é que foi sorte, avô! ― alegrei-me, agarrando-lhe a mão com força.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;― Não sei se foi sorte, Honey. Tínhamos de confiar em Deus. Tínhamos tomado a resolução correcta e nunca nos faltou a ajuda. E conseguimos. Sei o que é precisar de ajuda e recebê-la. Por mim, nenhum estranho ficará caído no chão sem que eu lhe estenda a mão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Caminhámos em silêncio e o ar primaveril trazia até nós o cheiro fresco e doce das macieiras em flor.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;― Quando chegámos ao Norte, a tua avó e eu trabalhámos arduamente para quem nos quisesse contratar. Arámos a terra, apanhámos fruta, mungimos vacas, cosemos, ferrámos cavalos, até termos dinheiro suficiente para comprarmos um pedaço de terra. Este!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;E mostrou-me um belo pomar, cheio de macieiras em flor.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;― Lembras-te das sementes com que eu andava sempre no bolso? Peguei nelas e plantei-as no nosso pedacinho de terra. De cada vez que plantava uma, lembrava-me de uma pessoa que me tinha ajudado. Olha para todas estas flores!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;O meu avô tirou uma maçã de cada bolso.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;― Essas vieram da tua cave, avô?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;― Vieram. Guardei-as para as comermos juntos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Sentámo-nos a comer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;― Avô, será que um dia poderei plantar uma semente de memória aqui?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;O meu avô sorriu, comovido:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;― Podes fazê-lo agora mesmo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Plantei as sementes da maçã que comera. Enquanto isso, o meu avô observava os meus gestos, relembrando, sem dúvida, o que fizera muito anos atrás.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;― Não me esquecerei do que fizeste hoje ― disse o meu avô, levando a mão ao peito.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;― E eu não esquecerei o que me contaste, avô.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;E nunca esqueci.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;― Então agora percebes por que razão &lt;em&gt;não há estranhos para mim&lt;/em&gt; ― disse o avô, com uma alegria imensa estampada no rosto, enquanto acenava para o céu.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot; align=&quot;right&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot; align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;Ann Grifalconi; Jerry Pinkney&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot; align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;em&gt;Ain’t nobody a stranger to me&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot; align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;New York, Hyperion Books for Children, 2007&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot; align=&quot;right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;(tradução e adaptação)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot; align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #003300;&quot;&gt;&lt;br class=&quot;clear&quot; /&gt;&lt;br class=&quot;clear&quot; /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;
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