Segunda-feira, 30 de Maio de 2011

Uma tarde de Primavera. O largo da estação do comboio. Um grupo de homens a beber cerveja em frente de um quiosque. Não há mais ninguém. Um homem desce de um autocarro. Tem uma mala na mão, passa pelos outros homens e entra no edifício da estação. O átrio está quase vazio.

O funcionário encontra-se na bilheteira.

— Um bilhete para o aeroporto de Frankfurt, por favor.

— Ida e volta?

— Não, só ida.

— Tem cartão de desconto?

— Sim, para a segunda classe.

— Nove euros e vinte.

O homem desliza uma nota de dez euros para a caixa que se encontra por baixo do vidro. O empregado imprime o bilhete e entrega-o através da caixa, juntamente com os oitenta cêntimos de troco. O homem recolhe o bilhete e o dinheiro. Procura o painel de informações electrónico e vê que o comboio para Frankfurt é um dos próximos a chegar. Vai parar no cais número três. Desce as escadas onde está sentado um grupo de jovens. Também há alguns cães. Uma rapariga levanta-se e dirige-se a ele:

— Tens uma moeda?

O homem, que ainda leva o troco na mão, entrega-o à rapariga.

— Obrigada.

O homem segue então pela passagem subterrânea e sobe as escadas para a plataforma número três. O cais onde se encontra está praticamente vazio, assim como o cais em frente. Os quiosques estão fechados, não se vêem funcionários da estação, apenas alguns passageiros andam por ali, sozinhos. O altifalante anuncia a passagem de um alfa pendular. No mesmo instante, passa uma seta prateada. Por alguns segundos toda a estação da pequena cidade estremece. O homem percorre a plataforma de uma ponta à outra. Depois, o altifalante anuncia a entrada do inter-regional de Stralsund para Frankfurt. O comboio chega. Uma porta abre-se diante do homem. Desce uma senhora com uma expressão indignada que exclama:

— Parece impossível! Que vergonha!

O cobrador desce pela porta do vagão-restaurante, que se encontra entre a 1ª e a 2ª classe. Dirige-se ao homem e pergunta-lhe:

— Tem bilhete para a 1ª classe?

— Não, para a 2ª.

— Então, suba lá mesmo no fim, por favor.

— Como?

— Sim, lá ao fundo. Vá depressa para a última carruagem.

— Mas porquê?

— Acredite que é melhor para si.

— Mas não vou conseguir chegar a tempo.

— Vai, sim, nós esperamos. Aqui à frente já não há lugar.

— Muito bem. Obrigado pelo conselho — responde o homem.

Puxa os rodízios da mala e corre para a última carruagem, arrastando a mala atrás de si. Os outros passageiros já subiram. Volta a encontrar a senhora que, ao chegar ao cimo das escadas e ao reparar no homem, repete novamente:

— É uma vergonha! Uma autêntica vergonha!

A senhora faz sinal na direcção do comboio. O homem olha e vê, atrás da janela da carruagem, um grupo de skinheads. Uns estão sentados, os restantes encostados à janela. Alguns têm latas de cerveja na mão. Um skinhead, a rir-se, aponta para o homem. Um segundo tenta abrir a janela, mas não consegue. Cospe, com raiva, contra o vidro, na direcção do homem e da senhora, e o cuspo fica a deslizar.

— No seu lugar, não apanhava esse comboio.

— Mas então, perco o meu voo? — diz o homem.

Olha indeciso para a carruagem. A senhora meneia a cabeça, pega na mala e desce as escadas. Ouve o comboio pôr-se em andamento e diz para si, a meia voz:

— Quem semeia ventos…

 

Karlhans Frank (org.)

Menschen sind Menschen. Überal.

München, C. Bertelsmann Verlag, 2002

(Tradução e adaptação)



publicado por hpt às 20:27
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