Sábado, 07 de Maio de 2011

Na aldeia de Sakata, os meninos brincam à volta da árvore. Mas isso não os impede de estar atentos a qualquer pequeno ruído que venha do Congo, o grande rio que corre perto dali. Estão à espera de que o barco passe.

— Hei! Olha o barco! Já lá vem o barco-correio!

Para Kembo é um dia importante. Quando o barco que transporta tantas mercadorias maravilhosas abrandar a velocidade, ele vai aproximar-se e pôr as mãos no casco. Até há-de subir a bordo. A manobra é arriscada, mas Kembo está decidido.

— Mido, Eloni, vamos! Temos de ser os primeiros a acostar!

Enquanto Mido e Eloni pegam nos remos do pangaio, Kembo grita:

— Cuidado! A piroga vai meter água! Vejam que tem um buraco à frente!

Kembo tapa o buraco com um pouco de barro.

— Agora podemos ir. A minha mãe quer que lhe traga sabão e uma T-shirt.

As folhas dos nenúfares agitam-se à passagem deles. Escondido debaixo da umbela de um cogumelo, um sapo está quase a apanhar um insecto. Que sossego! Mas, de repente, o sapo esconde-se, e os pássaros levantam voo com grande alarido. O que terá causado toda aquela agitação, pregando um susto de morte às crianças? A serpente negra que assombra o rio!

Ela acaba de escapulir-se por entre as ervas altas. Kembo começa então a entoar a canção de Sakata, a Nossa Aldeia, uma canção que dá coragem.

 

No rio agitado, eh! eh!

É preciso remar com força eh!

No rio agitado

É preciso remar com força.

 

Ao longe, outras crianças pescadoras retomam o refrão. Kembo e os amigos voltam a subir a corrente com mais vigor. Em breve, a piroga sai das águas calmas da floresta e entra nas do rio. No sítio em que os dois braços de água se encontram, as ondas fervilham, formam um turbilhão. Mido e Eloni gritam:

— Temos medo! Kembo, voltamos para trás!

— Nem pensar — diz Kembo. — Não vamos desistir!

Um vento forte arrasta a piroga. O pânico apodera-se dos amigos de Kembo. Mas Kembo sabe desviar-se dos perigos, ultrapassar as armadilhas da água, e diz:

— Quietos! Nada de fazer força. Temos de nos deixar levar pela corrente.

A piroga é sacudida por todos os lados. E depois, de repente, ei-la que sai do turbilhão.

Kembo e os amigos esperam com impaciência a aproximação do barco, que abranda mas não pára. Os passageiros olham para as crianças, admirados. Alguns gritam:

— Afastem-se! Os redemoinhos são perigosos!

À primeira onda, a piroga sobe até à crista. Os passageiros do barco ficam embasbacados perante a destreza de Kembo e dos amigos, que, certos do sucesso da sua proeza, cantam com toda a força. Da margem, os pais seguem o espectáculo.

— Oh! Que habilidade! Que acrobatas corajosos! Será que vão conseguir encostar o barco? Eu nem me atrevo a olhar!

Alguns pais gritam, manifestando o seu medo.

— Os nossos filhos trazem os amuletos, consigo ver daqui as fitas vermelhas!

Os rapazes não conseguiram a acostagem. O choque contra o flanco do barco foi duro e a emoção forte quando as crianças ouviram rebentar o pedaço de barro que tapava o buraco da piroga. Mas Kembo e os amigos mantiveram o sangue-frio.

— Depressa, a outra piroga — grita Kembo.

A outra piroga pertence, seguramente, a um pescador que já entrou no barco-correio.

Kembo salta para dentro, pega numa amarra e atira-a para as mãos que se agitam acima dele. De repente, a corda estica.

— Consegui! — grita Kembo, que já está a bordo.

Mas Eloni e Mido têm menos sorte, a piroga volta-se e ei-los na água. Falharam!

A bordo do barco-correio há um autêntico mercado. Vende-se lá de tudo. Vê-se uma coisa amarela e preta a brilhar na penumbra. Será um brinquedo? Kembo aproxima-se. O produto à venda é uma jibóia.

Nioka! Nioka! (Serpente! Serpente!) — grita Kembo, cheio de medo. E foge a correr.

Cheira muito bem debaixo do tejadilho de madeira. Os passageiros saboreiam a mandioca que as mulheres acabam de fritar em óleo de palma. Fazem-se trocas e conversa-se. Os habitantes ribeirinhos acabam de acostar, trazem peixe e banana para fritar. Mas Kembo não pode atrasar-se, tem compras a fazer. Escapa-se por entre as mercadorias. Chega diante da exposição de conservas, de vestidos e de tangas, onde, finalmente, encontra o que procurava. Enquanto espera que o sabão e a T-shirt sejam embrulhados, Kembo vê, ao fundo do barco, um carro carregado de caixotes.

São medicamentos para um hospital da Cruz-Vermelha, explica o comerciante.

— Pega! Aqui estão as compras para a tua mãe!

A sirene apitou. Rápido, rápido!

Tem de sair depressa, que o barco vai ganhar velocidade! Kembo esconde o embrulhinho com segurança dentro do calção e, splash!, mergulha. Nada como um peixe até chegar junto de Eloni e Mido, que estão na água.

O barco afasta-se. Baloiçados pelo turbilhão dos remoinhos, as crianças rivalizam em agilidade e saltam para a piroga virada. Mido e Eloni estão desiludidos! Mas o que aconteceu não passa de uma oportunidade perdida! Da próxima vez que o barco-mercado passar, subirão a bordo com o Kembo. Dessa vez, é certo que vão conseguir!

  

Dominique Mwankumi

Les petits acrobates du fleuve

Paris, l’école des loisirs, 2000

(Tradução e adaptação)



publicado por hpt às 07:07
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